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Janelas

Se eu pudesse ter um super-poder, escolheria filmar o que vejo. Um dos prazeres secretos – nem tão secretos agora – que tenho é sentar ao lado das janelas, salvo a exceção de aviões, em que sempre prefiro o corredor por estar mais próxima da saída de emergência.

Janelas de carros, janelas de ônibus, janelas (ou seriam varandas) de barcos, balsas e afins. O que importa é que eu veja a vida passar com expressividade, continuidade, quase como uma sugestão de pintura ou um borrão.

Paisagens, mais do que os locais em si, me marcam demais.

Mesmo com as mais de três mil fotografias e vídeos que pude registrar numa viagem pelo sul da Ásia em 2013 (tem texto sobre essa viagem aqui), nenhuma dessas imagens me remonta aquilo tudo quanto a lembrança que tenho de dentro de um ônibus que nos levou de Bangkok a Ao Nang, Krabi – Tailândia.

Após 12 horas de viagem de busão, a luz do nascer do sol entrou pelas janelas e me acordou. Quando abri os olhos eu estava rodeada de verde, muito verde, uma estrada não muito larga cortando esse verde, a sensação era quase de mata fechada e o cenário era mesmo de filme.

Não lembro se algum dos meus amigos estava acordado nessa hora. Lembro que quase não conseguia respirar direito diante da grandiosidade e paz que me encheu naquele momento. Eu estava, finalmente, me sentindo na Tailândia, e não existiria câmera ou fotógrafo no mundo que pudesse capturar o que eu senti ao olhar pelas janelas do ônibus.

Assim como essa lembrança fortíssima da Ásia, gravo com muito carinho e sempre revisito na memória a vez em que conheci um quilombo, em Pernambuco; a vista aérea do deserto australiano; a cidade de Queenstown na Nova Zelândia (talvez seja a cidade mais escandalosamente bela que eu já tenha visto); a primeira vez que vi Milah, minha irmã mais nova, pela janela da maternidade; a vista da janela do meu quarto de Recife, que dá pro jardim da casa da minha avó.

Há vezes em que estou no ônibus – indo de João Pessoa até Recife ou vice-versa – e fecho os olhos, coloco uma música que remete à alguma dessas lembranças e me transporto aqueles momentos. Há vezes em que esses momentos são tão fortes que quase consigo sentir de novo o cheiro do lugar, o clima, os sons.

É como um jogo que faço comigo: uma forma de revisitar a felicidade. Minha recomendação é que se alguém quiser tentar fazer o mesmo, não o faça com muita frequência. Do contrário pode causar um efeito rebote, e aquele momento feliz do passado se transforma em depressão no presente porque o tempo é algo indomável. Não é saudável viver de passado.

Fotos são mais controláveis que lembranças, porém são capazes de mexer com nossa memória, (re)criando e ressignificando momentos. O que são as fotografias se não uma janela no tempo, que se abre cheia de cores, cheiros, sons e sensações. Talvez as lembranças sejam uma fotografia emocional das nossas próprias vivências, eternizando as cenas mais sensíveis na intimidade do nosso ser, que nunca conseguiremos traduzir numa postagem, qualificar em likes e popularizar em compartilhamentos.


Escrito em julho de 2015 e finalizado em outubro de 2016
Ilustração: fotografia sem filtros ou edições registrada por mim no amanhecer do dia, em novembro de 2013 , da janela do ônibus de viagem em algum lugar em Krabi, Tailândia. De lá, pegamos uma van para Ao Nang.
Sugestão de trilha sonora para o texto, para viagens (reais e no tempo), para momentos nas janelas: Esquadros, Adriana Calcanhoto


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Categories: Reticências