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Intimidade

Beijar é bom, transar é uma delícia, mas compartilhar nossa intimidade com alguém vai além. Intimidade não é com qualquer um. Intimidade – com amizades, com gente da família, com amores e desamores – não acontece sempre, não acontece todo dia e quando acontece, a gente sabe do que se trata. Intimidade intimida?

Intimidade é uma coisa tão linda, tão delicada e tão intensa que é encontrada nas sutilezas de uma relação, seja ela qual for. Intimidade é vivenciar um silêncio sem constrangimentos, assim como soltar um pum na frente do outro. Intimidade é ter a liberdade de falar pro outro do nosso íntimo, da nossa verdade, ou até nem falar e o outro entender. Intimidade vem com o tempo e com a sintonia. Intimidade pode tanto estar presente numa amizade que vem desde a infância quanto numa amizade que nasceu na vida adulta, num momento de conflito e transformação. Intimidade é uma das vivências mais preciosas que uma pessoa pode um dia sentir. Intimidade é para ser sentida.

Quando mais nova, acho que eu queria mais era experimentar, me jogar, saber como e por que. Me saciava com pegações, rapidinhas (ainda gosto), coisa e tal. De uns tempos pra cá o babado mudou. De uns tempos pra cá, me vi querendo o algo mais. Só não sabia nem onde nem como achar.

Lembro da primeira vez em que marquei de me encontrar com Pedro, uma pessoa com quem tenho ficado há uns meses e que me fez pensar sobre
intimidade. Quando marcamos esse encontro, já havíamos ficado e etc em outra ocasião mais inusitada, mas havia sido numa noite muito louca (e sem o uso do Tinder). Quando a gente marcou de se encontrar oficialmente, Pedro me ligou. O fato dele ter li-ga-do e não ter mandado mensagem me fez falar um “eita” em voz alta. Eita, isso é bom. Falar no telefone é bom. Escutar a voz. Saber mais ou menos a reação da pessoa quando a gente fala alguma coisa. Interpretar WhatsApp não é comigo: acho horrível, acho doloroso. Então nos falamos. Ele propôs um vinho, mas no final acabamos tomando umas cervejas mesmo. Só de ter proposto um vinho, também achei bom. Sejam mais criativos, rapazes. Vale a pena.

Com Pedro não tenho um relacionamento sério nem sei se teremos um dia. No momento, pensar muito sobre status de relacionamento mais complica do que ajuda. Mas com Pedro eu tenho intimidade: intimidade pra falar quando eu quero, intimidade pra não falar também. Intimidade pra dizer “ei, não gostei disso não”. Intimidade para não ter medo de mim com ele, nem medo de que ele pense que eu sou doida e não me queira mais. Cresci ouvindo que mulher é tudo doida, temperamental, ciumenta. Queria tudo isso longe de mim! Não queria nunca ser essa mulher, nem acho que eu seja. Mas acho que, para os homens, nós todas somos. Nem sei porque penso isso.

O sexo que tenho com Pedro é o melhor que já tive, disparado. Não teve uma vezinha sequer que tenha sido meio morno, meio qualquer coisa. O nosso encontro sexual antecedeu a construção da nossa intimidade e, com a intimidade que foi nascendo na rotina, na frequência com que nos víamos e até em viagem, o meu sexo com ele se tornou mais quente de afeto. Dormir com ele ficou mais gostoso, acordar com ele ficou mais gostoso, ficarmos abraçadinhos fez sentido.

Nem sei se tenho muito a ver com Pedro. Acho que não. A gente não tem as mesmas origens sociais, a gente não tem a mesma idade de jeito nenhum, a gente não tem histórias nem vidas parecidas e a gente só frequenta os mesmos lugares em João Pessoa porque é o que tem pra hoje por aqui. Mas intimidade não é necessariamente construída a partir de semelhanças, e sim de encontros: encontro do meu eu com o teu.

Eu e Pedro não somos um casal, apesar de estarmos juntos por aí vez ou outra, apesar de darmos as mãos quando nos sentimos à vontade. Eu e Pedro não vivemos num conto de fadas nem quero isso, gente. Eu fico de mal de Pedro; eu às vezes altero a voz – e ele diz “calma, não se altere” – mesmo ele nunca ter alterado voz ou qualquer outra coisa contra mim; eu mando mensagem bêbada reclamando de algo que me incomodou e a gente discute sobre isso sóbrios e pessoalmente. Eu às vezes me arrependo de ter desculpado ele, e depois penso “mas é tão bom quando a gente tá junto…”. Eu me engano também. Nada é perfeito. É um vai e volta, um liga, manda mensagem, um se ver sempre e outras vezes dar um tempo disso.   

Pedro tem um passado mais longo que o meu: ele é 12 anos mais velho que eu. Pois é, pois é. Ele tem um presente muito diferente do meu. Eu busco umas coisas, ele busca outras, sonhamos diferente, vivemos diferente. A Pedro, digo como estou me sentindo em relação a nós mais cedo ou mais tarde. Ele me pergunta isso frequentemente também. O outro mostrar abertura para tal coisa ajuda e muito. 

Pedro já me disse, lá no início do que temos hoje: “Sou carreira solo com participações especiais”. Mais para a frente eu disse a Pedro: “Essa sua frase de efeito, além de brega, te impede e me impede de estarmos abertos às possibilidades”. Conversamos, discutimos, refletimos, transamos sobre esse assunto e acredito que não tenhamos chegado a uma conclusão em comum. Mas isso foi conversado. Talvez ele tenha entendido o meu lado e eu tenha entendido o lado dele. De qualquer forma, essa frase é péssima, Pedrinho, não diga isso para as próximas.

Eu quero namorar. Eu quero me casar: uma, duas, três vezes. Eu quero ter filhos. Mas só um dia, quando todas essas coisas fizerem sentido (e, no caso dos filhos, quando eu tiver grana e tempo o suficiente). Não agora. Na verdade gostaria sim de estar namorando. Poxa, é tão bom… Não por querer repetir meus outros relacionamentos, mas porque quero viver um novo namoro, de boa, leve, intenso, gostoso, quero me apaixonar sem medo.

O fato de eu estar ficando com Pedro não significa que em breve vocês verão meu status do Facebook mudar para “relacionamento sério”, e eu vou sambar na cara da sociedade com o meu mais novo boy, e todos aqueles que não conseguem me ver namorando (de novo) vão pensar “Ohhh”. Calma, galera, ainda não é hora de preparar o bolão da minha vida amorosa e de quanto tempo dura a minha não solteirice.

Estar com Pedro não é um pré-namoro, nem sei se será. Nós ficamos com outras pessoas, ele até mais do que eu. Não estou mais usando o Tinder, mas ninguém sabe do dia de amanhã né. Não morri, não casei, não sou cega, não parei de me interessar por outras pessoas e meu tesão ainda está aqui.

Quando vi, pela primeira vez, Pedro acompanhado de outra mulher na minha frente, fiquei puta, fechei a cara, fiquei mal e mandei a real pra ele. Eu não gostei e não guardei aquele incômodo dentro de mim, eu compartilhei aquele incômodo, e acreditem: isso foi um grande passo para mim, uma mulher que evitava tocar em determinados assuntos por receio de parecer cobrança, coisa de gente controladora. A partir dali, determinamos algumas coisas na nossa relação que não precisam ser reveladas neste texto. Semanas depois eu que fiquei com outra pessoa e, nossa, foi incrível. Até cheguei a esquecer um pouquinho de Pedro, é bem verdade. Pena que o cara está em São Paulo mas enfim, fica o contato, né.

Até o dia em que escrevo o que vocês estão lendo, ainda estou com Pedro. Estamos juntos e quando nos juntamos, é lindo. Não sei se amanhã ou se depois deste texto ainda estaremos assim. Não sei mesmo. Eu posso me interessar um pouco mais por outro, podemos abusar um da cara do outro, Pedro pode até começar a namorar com outra pessoa (ah meu Deus, será?). Sei lá, tudo é possível né não. “Amanhã tudo pode acontecer, hoje a nossa vida é pequena”, diria o querido Fagner na música Cartaz. Adoro essa música, que inclusive diz que “Você me dá prazer, você me dá cartaz e tudo que eu preciso/ Se você vem comigo eu não choro mais”, que tem tudo a ver com o que temos a dois.

Independente do dia de amanhã, a intimidade que construí a partir da minha relação com Pedro vai ficar como uma lembrança das boas. Intimidade é também troca, e só fui ter segurança nessa troca com ele, até então. Depois de Pedro, não tenho mais medo de mim com um outro. De ser eu com um outro. De dizer o que penso pro outro. Quando você está numa relação em que tem medo de dizer algo porque tem medo que o outro queira acabar a relação – seja ela qual for – contigo só por você ter se expressado, é porque você está se podando, se medindo. E isso não é bom. Já estive nessa relação, já pisei em ovos por medo e insegurança, já fui essa pessoa ansiosa e triste ao mesmo tempo. Espero que não mais.

Não, Pedro não me libertou de mim mesma. Mas encontrei na nossa relação uma oportunidade de ser íntima, mais íntima do que eu já havia sido anteriormente com um outro alguém e isso foi acontecendo naturalmente, o que é ainda mais legal. Quero outras intimidades, quero muito mais. Não vai ser com todo mundo, não vai ser de propósito, calculado, não vai ser sempre bom. Não vai ser um conto de fadas mas sei que quando for para ser, quero que seja intimidade. Intimidade mais do que status, intimidade mais do que fotos, intimidade mais do que pros outros, intimidade mais para um nós: eu e tu, tu e eu. A intimidade, essa sim liberta.


Escrito em setembro de 2016
Ilustração emprestada da artista Inès Longevial encontrada aqui.


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Categories: Reticências

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O Jogo

Escrito em outubro de 2015

Ilustração: Gabriela Amorim.

 

Eu sei que ser amada(o) é bom demais. Mas olhando para trás e para o presente, sinto que também faz bem a gente se envolver, se apaixonar e até chegar a amar sozinha(o). Reciprocidade é um dos sentimentos mais confortáveis que já senti, mas se jogar num sentimento que cabe na imensidão que a gente guarda lá dentro é libertador.

Como medir uma paixão, um amor, uma entrega? Não fabricaram ainda fita métrica que seja capaz de tamanha precisão e ousadia.

Eu observo muito as amigas e pessoas conhecidas que pulam de um relacionamento para outro, sem grandes interrupções. Me perguntei váááárias vezes: sou eu que amo menos, ou sou amada de menos, ou escolho demais, ou me jogo menos, ou me preocupo de menos, ou sou menos que elas, ou, na verdade, sou demais para alguns?

Nunca esteve nos meus planos chegar aos 23 anos dizendo “já namorei com 5 pessoas diferentes, num total de 10 anos sendo namorada de alguém”. Muito menos chegar aos 23 anos dizendo “namoro com o mesmo cara há 8 anos, até perdi a virgindade com ele; atualmente estamos noivos”. Não me reconheço em ambas as afirmações.

Eu sei que a forma de contabilizar relacionamentos nos dias de hoje – ano de 2015 – Brasil – Mundo, é pelo status do Facebook. É sim. É sim. É sim. É sim, e ponto. É sim que a gente atualiza, curte, comenta, julga, manda inbox, fica desiludida(o), fica feliz. A gente vive o relacionamento dos outros e também convida os outros para viverem (ou seria “assistirem”) os nossos.

Acho in-crí-vel quem manda indireta amorosa/sexual pelas redes sociais. Simplesmente sou fã, porque eu nunca fiz isso nem acredito que seria capaz. Uma menina maravilhosa chamada Kristyellen virou celebridade da internet ano passado, ao postar o seguinte tweet:

“ñ quis mim beja na 5a serie e agora vem aki em casa pedi pra compra sacole fiado parese que o jogo virou ñ eh msm” 

O que eu tenho a dizer sobre essa menina é: parabéns.

Mas trazendo para a vida real, de carne e osso, essa nóia do jogo virar é, olha, uma bosta, viu. Não sei como, mas cheguei numa fase que deve durar uns 3 anos, por aí, em que eu comemoro mais quando eu fico afim de alguém do que o inverso. E isso não contribui em nada para meus status no Facebook ou para “o jogo virar”. 

O jogo vira quando a gente não precisa mais jogá-lo. Acho que essa frase de efeito resume o que eu estou tentando dizer com este texto.

No início deste ano conheci um boy (boy = rapaz que a gente se interessa por razões que podem ser físicas e/ou intelectuais; um ficante, um namorado, um cara com quem a gente esteja em determinada época) que nitidamente jogava com ele mesmo. Talvez ele jogasse contra ele mesmo. Contra deve ser a palavra correta. E um belo dia eu perguntei: – Mas com que finalidade tu vai ficar jogando teu próprio jogo? A troco de quê?

Ele tinha ou tem sede por experiências, por quantidade, por diversidade, por mulheres e por muitos plurais. Eu já fui esse cara, mas num nível mais leve. Sou bastante curiosa e felizmente não me sinto envergonhada em assumir que, assim como muita gente nesse mundo, eu gosto de sexo. Na verdade me envergonha saber que o assunto ainda cause tanta vergonha.

Ao mesmo tempo, penso que com o tempo a gente enjoa de ficar com um monte de gente, ter uma lista de contatos mornos no Whatsapp, usar Tinder e companhia, sair e encontrar com todos os ex-boys de 2012 na mesma festa.

Jogar esse jogo cansa. E eu entendo que, por essas e outras, existem pessoas que se relacionam com o mesmo par para o resto da vida, ou com vários pares sem parar – sem nunca ter um tempinho para respirar, ficar quietinha, solteira, sozinha – pelo cansaço que é entrar para o jogo. Eu entendo mesmo e espero nunca ser assim: ou uma relação eterna ou uma atrás da outra, fugindo da palavra “solteira”. Se eu seguir essa regra, estarei abrindo mão de algo tão importante quanto se relacionar com o outro: o meu relacionamento comigo mesma, e, (in)felizmente, eu tenho sido bem fiel a esse status. Eu sei que é suicídio amoroso da minha parte.

“Mas Marina, que vida triste é essa que você valoriza tanto estar só?”. Isso sou eu perguntando a mim mesma, ok? Ok.

Comecei este texto com uma questão em mente: a gente precisa estar namorando/casando para estar envolvido?

A partir dela, lembrei das vezes em que me apaixonei enlouquecidamente, ou me envolvi emocionalmente com pessoas que nem sempre correspondiam ao que eu sentia dentro de mim (ou nem souberam). Não foram tantos assim, vai. Eu sou novinha, dizem. Mas valorizo esses momentos, essas fases, esses sentimentos. Era verdadeiro, eu estava lá para provar. E foi muito bom.

Quando acaba um relacionamento, uma grande paixão, um amor, eu sempre ativo meu lado novela mexicana e penso “ó, céus, nunca mais sentirei isso por ninguém na minha vida”. Eu sofro só de não estar mais gostando de alguém, porque gostar das pessoas é bom demais, vocês não acham? Claro que quando é recíproco, é tipo ganhar na loteria. Mas gostaria de reacender a chama da “jogação”, do gosto em gostar por gostar, e não porque a pessoa gostou da gente primeiro. Se não der certo, não deu, partimos para outros e outras. Por mais que o “jogo não vire”, por mais que o status do Facebook não mude. 

Uma amiga minha não se envolvia emocionalmente com ninguém desde o último namorado, e então começou a gostar de um cara e antes dela se declarar pra ele, ele veio com aquela sinceridade que dói, mas melhor com ela do que sem ela:

– Desculpa, mas estou em outro momento da minha vida.

Numa semana ela disse “fiquei feliz por ter me aberto a mim mesma, e assumir que eu estava gostando dele”. Na outra ela nem o cumprimentava quando o encontrava. Dia desses ela o reencontrou, cumprimentou e depois falou “é muito bom revê-lo e ver que não sinto mais nada”. Isso é se jogar! Isso é se reinventar!

O jogo vira nessas horas em que a gente se liberta dele, e sente o que tiver que sentir, sofre o que tiver que sofrer e se joga de verdade.

 

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Categories: Na Cama com Marina, Reticências