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Uma crítica sobre STANLEY

Como fazer uma crítica cinematográfica

Fazer uma crítica sobre algo feito por outro – por muitas vezes, outros – é uma tarefa sedutora e traiçoeira. Como analisar algo que veio da cabeça de outra pessoa, se cada cabeça é um universo? Ao começar a se escrever uma crítica e ao longo de toda a escrita e justificativa da mesma, vem ao pensamento, talvez auto-crítico: quem sou eu para analisar, quem sou eu para criticar? Qual o tom certo para se usar numa crítica cinematográfica? Que palavras e abordagens, quiçá citações de autores usar para trazer credibilidade à minha análise?

Um amigo muito próximo da área do audiovisual diz que não gosta de evento de cinema porque nele todo mundo veste a carapuça de gente de cinema, e gente de cinema é chata pra caramba. Porque é crítica. Porque critica. Porque expressa com os olhos e deixa no ar o que estou tentando fazer aqui neste texto: uma crítica. Evento de cinema é que nem evento acadêmico, é que nem festa de 15 anos, é que nem posse de político: tudo pose. E se os holofotes estiverem para você, aí então é uma mistura de pose e um nervosismo filho da mãe.

Me aproximar dessa chamada gente de cinema, participar de eventos de cinema e discutir sobre cinema, em especial na Paraíba, me fez perceber duas coisas: a primeira é que cinema é trabalho em equipe, é um polvo com vários tentáculos com vida própria; a segunda é que criticar pode ser também analisar, refletir, se sensibilizar, não necessariamente julgar e apontar o dedo. Acompanhar – de longe e de perto – amigos(as) e conhecidos(as) em seus processos de reflexão, criação, produção e realização de filmes me mostrou porque tanto se discute e tanto se analisa sobre cinema: porque um filme nunca acaba quando termina, por mais fala de blockbuster norte-americano essa frase tenha soado.

Não querendo criticar, não querendo analisar, acabei o fazendo. Foi um desafio do bom. Por um lado foi difícil porque eu gostei do filme (STANLEY) ao qual me propus a analisar, e é mais fácil criticar algo que a gente não gosta tanto assim. Explicar minhas visões acerca de um filme que me fez sair da sala de cinema satisfeita é um obstáculo, porque a identificação e afeto por algo nem sempre é passível de justificativas. Mas se crítica é também análise e reflexão, se crítica parte do sensível, o caminho fica mais possível.

O Sertão em STANLEY

O curta-metragem STANLEY é o primeiro filme de ficção de Paulo Roberto, diretor paraibano que passou grande parte de sua vida em Nazarezinho, sertão da Paraíba. Nazarezinho é também cenário e personagem do enredo. STANLEY é sobre um sertão, STANLEY é sobre personagens e histórias potenciais nesse sertão, STANLEY é sobre sexualidades e como elas se desenvolvem naquele tempo e espaço. A questão da homossexualidade no interior não é novidade. Porém ainda é novidade enquanto produção cinematográfica, enquanto tema, enquanto discussão. Não apenas a questão da homossexualidade, mas especialmente a da homofobia no interior da Paraíba.

A fotografia e a arte em STANLEY são lindas para além do ponto de vista plástico,  pois retratam e refletem sobre – através das cores, da luz, dos cenários e elementos – um sertão possível, atual e menos carregado de clichês estéticos. Assim como foi dito durante o debate na estreia do filme, na sessão Assacine ocorrida em setembro no Cine Banguê (João Pessoa – PB), é importante que o cinema desconstrua padrões relacionados a estética e narratividade sertanejas, visto que não existe um único sertão, e sim multi-sertões.

O sertão é plural, e em STANLEY o público é apresentado a um sertão mais verde, cinza, com cores menos saturadas e com personagens tão críveis e prováveis quanto os retratados naqueles sertões do céu azul, sol forte, seca (de tudo) e simplicidade, um certo fundo de humor e ao mesmo tempo tristeza, próprios de produções mais mainstream, onde o sertão é pop.

Inícios

Começa o filme. Sertão. Verde, um verde meio acinzentado. Vento. Paisagem. Uma narração íntima, melancólica e um tanto saudosa dialoga com aquele cenário de tantas possibilidades. Ouve-se um barulho de bala; um barulho não, um estouro forte e seco como a morte, como o sertão e como o filme.

A sequência da cena da galinha, mostrando uma das realidades daquela cidade, ficou uma delícia de se ver. Não porque é um deleite ver uma galinha sendo morta. Na verdade, o bom dessa sequência não é sua conclusão, e sim o caminho até ela. O plano em que mostra a mulher de calcinha/shortinho amolando a faca está super erótico. Gostei que os caras do açougue não fizeram gracinha quando ela passou, talvez não pela ausência do machismo, mas porque já estavam acostumados em vê-la por ali. Ela parecia a dona do pedaço. A sequência da galinha introduz o filme, introduz uma localidade, as pessoas daquele local e uma prática talvez comum na cidade que, justamente de tão cotidiana, tenha sido explicitada.  

A apresentação e inserção de Alex no filme, que é a chegada dele em casa com a roupa e mala do exército, é ótima. O quarto dele ficou incrível, mas talvez tenha reunido muitas referências de uma só vez. Lindo ver o chapéu de vaqueiro misturado com os pôsteres de bandas internacionais e desenhos aparentemente autorais.

 

Os artistas plásticos Aurora Caballero e Thiago Trapo conceberam em conjunto a pintura impressões sobre STANLEY. A peça esteve exposta no hall de entrada do Cine Bangüê para o lançamento do curta, na sessão Assacine - Atreta (28/09).

Impressões sobre STANLEY | Arte: Aurora Caballero e Thiago Trapo | A peça esteve exposta no hall de entrada do Cine Bangüê para o lançamento do curta, na sessão Assacine “Atreta” (28/09).

O Sexo e as Sexualidades

O sexo em STANLEY é franco e honesto com o público. O sexo, tanto da vida real quanto do filme, não se resume à penetração, a troca de fluidos. No filme, o sexo começa a partir da troca de olhares na festa, quase que imperceptível, rápido como uma paquera proibida, escondida. A cena de sexo em si vai além de ser tachada de uma cena de sexo entre dois homens. Em STANLEY, sexo é sexo. A gala ficou ótima, inclusive, e retratar o gozo como algo meio holístico, divino – a partir da fotografia, da luz – é interessante de ser observado. O filme não censurou a naturalidade e intensidade de uma relação sexual dentro daquele contexto. Ficou bem verossímil com o que acontece na vida, ou poderia acontecer. Ficou excitante, até. Vê-los fazendo sexo me deu vontade de fazer o mesmo, não necessariamente de estar ali no meio. Em Tatuagem (2013, de Hilton Lacerda) há uma cena de sexo homossexual entre dois homens que também achei super interessante, apesar de não ter me excitado. Talvez isso tenha ocorrido pois o contexto sexual da cena em questão em Tatuagem é de um sexo com amor, paixão, liberdade, enquanto o de STANLEY seja um sexo de urgência, de atrito. STANLEY explicita um sexo possível e, dentro de sua narratividade, faz sentido contá-lo sem censurá-lo ou usar de metáforas para mostrar que ele aconteceu.

É intrigante perceber os jeitos e trejeitos de cada um dos personagens que protagonizam os colegas e parceiros sexuais: nem estereotipados nem suavizados. Ambos os personagens fogem do perfil de homem gay assumido e homem gay enrustido, apesar de dialogarem com algumas características pré-concebidas sobre os respectivos perfis. Eles pareciam que estavam mais afim de explorar aquela situação, sem modismos e achismos sociais, o que ganha pontos para o filme. Não esteriotipá-los é massa, é sensível e deu certo em STANLEY. No geral, atores e atuações ótimos, cenas separadamente muito bonitas, interessantes. Achei um filme bonito de ser visto. Roteiro consistente.

A Violência

No filme é perceptível apontar, de alguma forma, uma relação com MALHA (2013), documentário do mesmo diretor e que antecede STANLEY. MALHA é sobre a malhação do Judas no interior da Paraíba, que é considerada um festejo popular e mistura religião e violência. Não sei se vou conseguir me explicar, mas a relação e conversa entre os dois filmes passeia por suas tramas. São propostas distintas, mas existe um olhar cru em ambas as produções que é bem interessante e semelhante. Talvez a expressão seja “olhar realista” ou “sem floreios” ou “masculino” – acho os dois filmes super masculinos, inclusive, não pelo lado pejorativo da palavra nem estou associando masculinidade à falta de sensibilidade –  que liga STANLEY a MALHA. Uma vibe meio violenta, pesada, difícil de engolir.

STANLEY não é violento, mas ao mesmo tempo é. Narra e desenvolve realidades que, de tão possíveis, são muitas vezes escondidas, omitidas, ignoradas. Escancará-las dói, pode até chocar. STANLEY também choca, também dói; STANLEY também é seco e verde como o sertão que retrata. A violência – ou seria o impacto com o real – está presente na galinha que é morta, no som do tiro, nos poucos diálogos, nos silêncios, na intensidade do sexo, na história em si, no desfecho. A sensibilidade também pode ser violenta, e no caso de STANLEY o sensível e o violento se entrelaçam e se confundem, causando impacto e beleza.


Escrito em outubro de 2016
Ilustração do texto: still de STANLEY


Ficha técnica STANLEY
Gênero: Ficção
Diretor: Paulo Roberto
Duração: 19 minutos e 37 segundos | Ano: 2016 | Formato: Digital
País: Brasil | Local de Produção: Paraíba – BR | Cor: Colorido
Sinopse: Quando eu tinha sete, oito anos… vi meu pai conversando com um amigo. Não entendia muito bem o que eles estavam falando… o que eu mais lembro era dos lábios mexendo. Fiquei com vontade de beijar a boca do amigo do meu pai!


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Categories: Entre aspas

flying(1)

Sinta a liberdade de ser só sua propriedade

Ilustração: Guilherme Lira.

Escrito em agosto de 2016

 

Você sabia que: O feminismo não me fez transar mais, e sim aprender a dizer não e sim para mim e para os outros? Cheguei a esta conclusão numa conversa de bar que tive com três homens héteros astrais e um amigo gay que estava voltando à boemia. Um dos caras hétero comentou que percebe que o feminismo trouxe uma inversão de valores: a mulher é quem chega no rapaz, é quem dá ou não dá, é quem não liga no dia seguinte. Perguntei a ele se isso o incomodava, e ele disse que não.

Um deles opinou:
⁃    Não me incomodo em ser tratado como putinha.
Todo mundo riu. Putinha, nesse caso, foi usado para descrever a pessoa que é usada por outra com a finalidade do prazer e nada mais. Quando falo no verbo “usar”, por favor, não estou me referindo a violentar ou coisa do tipo.

Falando em usar e ser usada, uma amiga certa vez me falou que foi usada porque quis, mas que por um lado não sabe se é pra se sentir bem ou mal com isso. Explico: ela encontrou, numa festa, um menino que já conhecia, e o menino estava de coração partido porque viu no Instagram de alguém um vídeo da namorada ficando com outro. Daí no final das contas e da noite, essa minha amiga e esse menino do coração partido acabaram ficando. No outro dia, o menino ficou se sentindo mal porque achava que minha amiga estava se sentindo usada por ele (pra compensar a traição) e ele não queria que ela se sentisse usada e coisa e tal. Mas minha amiga me confessou: “eu quis ser usada e foi bom”.

Se foi bom, não foi forçado e foi com o consentimento e tesão de ambas as partes envolvidas, então tudo bem. Mas a minha amiga ficou pensativa: será que era para ela ter se incomodado com isso? O feminismo diz que o corpo é dela e as regras também. Mas também diz pra gente se respeitar. Deixar sermos usadas é faltar com respeito a nós mesmas ou ao que dizem ser o feminismo?
Na conversa de bar que tive com aqueles rapazes do começo do texto, falei pra eles que nunca estive tão sozinha e nunca fui tão feminista e dona de mim. Essa coisa de viver as regras valesco-popozudianas de que “a porra da buceta é minha” antecederam o meu encontro com o feminismo. Talvez eu já fosse ultra feminista antes mesmo de adotar o termo para minha vida.

Existe uma linha tênue que anda sendo mal interpretada por vários e várias. Nessa linha tênue, de um lado o sexo e de outro o feminismo. Muitas e muitos interpretam o ser feminista com o ser puta ou com o dar pra todo mundo, e quanto mais, melhor. No processo de empoderamento do nosso corpo e da nossa alma, às vezes escolhemos o caminho de usar o sexo como artifício para reafirmar o nosso feminismo: eu dou porque sou feminista, eu sou feminista porque dou.

No meu encontro e caminhar particular com o feminismo, pensei e repensei muita coisa. Uma delas foi o meu corpo, e com quem eu estava dividindo ele e porque eu dividia com aquelas pessoas específicas (ou nem tão específicas assim). Em parte foi a maturidade batendo na porta, em outra foi uma dose a mais de auto-estima, quem sabe o cansaço de fazer sexo com estranhos-conhecidos, ou talvez o sexo ruim que eu estava ganhando só para estar fazendo sexo também. De um jeito ou de outro, me percebi desinteressada na pessoa que eu já fui em relação ao sexo. Sei lá. Não senti mais sentido naquilo. Pode até ser uma desilusão sexual. Arrependida, jamais! Trepar é bom e eu sou fã. Gosto tanto de sexo que, com o feminismo, aprendi a respeitá-lo e a me respeitar.

É muito, mas muito delicado eu usar a palavra respeito como sinônimo para recatada. Recatada eu não sou nem quero ser. O respeito que quero trazer aqui é o de fazer ou não fazer algo porque eu quero fazer ou não algo. Não porque todo mundo tá fazendo, não porque quero provar algo pros outros. Não é porque sinto falta de sexo que vou fazer sexo de qualquer jeito, com qualquer um que me der bola ou que responder a minha mensagem no zap zap.

Na estrada de aprender a respeitar minhas vontades, também aprendi a dizer não. Um ex que tive tinha uma frase muito forte, muito difícil de ser engolida e muito babaca também: não sou leal a ninguém, só sou leal às minhas vontades. O recado estava dado: eu não vou deixar de ficar com outras pessoas ou de não ficar com outras pessoas por causa de namorada(o). Só vou ficar ou deixar de ficar com outras pessoas por causa de mim.

Por um lado, essa espécie de lei que regia a vida dele demonstra essa coisa de respeitar as nossas vontades. Mas o “custe o que custar” que ele condiciona traz o teor “eu sou babaca e vocês vão ter que me engolir” que é totalmente desnecessário.

Aquariana e curiosa por astrologia que sou, sempre vi a palavra liberdade associada ao meu signo e à minha essência. Entendia e não entendia ao mesmo tempo. Me via um pouco perdida nessa liberdade toda. Eu não queria oba-oba toda hora. Eu não me via me encaixando nem em relacionamentos romantizados e americanizados, nem em relacionamentos livres, que prezam o amor livre e tudo é muito livre e seja o que Deus quiser. A palavra livre fazia muito sentido pra mim, mas ao mesmo tempo eu não me reconhecia no sentido de livre que as pessoas usavam por aí.

Ser livre é fazer de um tudo, ou fazer o que se quer? Ser livre é ser puta ou deixar ser o que se quiser ser naquele momento, seja sozinha ou acompanhada? Ser livre é deixar os pêlos crescerem naturalmente, ou se depilar e não se depilar quando sentir vontade? Ser livre é usar o cabelo natural ou usar o cabelo como achar que deve? Ser livre é ser gorda para sair do padrão de beleza, ou estar com o corpo que me é confortável, seja ele gordo, magro, redondo, quadrado? Ser livre é viver do que a natureza dá ou trabalhar com o que você se sente satisfeito fazendo? Ser livre é viver com pouco, quase nada, ou com o que for necessário pra você? Por fim, ser livre é confrontar tudo que dizem pra gente ser e fazer, ou ser e fazer tudo que a gente sentir que é e deve ser?

Me deparei com uma frase que diz assim: “ela aprendeu que o verdadeiro amor é a liberdade de ser quem ela é (sozinha ou acompanhada)”. Por mais gosto de chiclete tutti-frutti que essa frase tenha, meu lado Malhação/Pitty em início de carreira abraçou essas palavras por inteiro, e se confortou com elas. Essas palavras me representam, ou pelo menos representam o sentido de liberdade que faz sentido para mim. E de feminismo também. E de amor. E de respeito próprio.

Essa noção de que liberdade é ser quem nós somos, com todos os detalhes, contradições e ambiguidades que cada um possui, essa sim me representa.

Ficar sozinha ou estar acompanhada; usar roupa pra chocar a sociedade ou um look básico; beber ou não beber; usar drogas ou não usar drogas; se depilar ou não se depilar; fazer parte de alguma organização feminista ou não fazer; ler e se informar somente sobre questões ligadas às minorias sociais ou não ler nada; ser genderless no guarda-roupa, gênero e sexualidade fluidos, gostar e se interessar por todo mundo, ou se identificar e se interessar com o que for interessante pra vo-cê, seja aquele arroz com feijão de sempre ou um sanduíche de tudo que tem na geladeira. E não se envergonhar por isso, minha gente!

Muita gente – inclusive eu – confunde liberdade com libertinagem, ou com a expressão “qualquer coisa”. Não é porque me sinto livre para, por exemplo, fazer sexo casual, que vou fazer sexo casual com todo mundo e para o resto da minha vida, ou que nunca vou me dar a liberdade de sentir ciúmes, de me apaixonar, de me interessar por alguém. Não é porque já fiz ménage que vou fazer ménage toda vez que transar. Não é porque não tenho problemas com a nudez que vou fazer topless em marchas feministas, e não é porque não faço topless nessas horas que tenho problemas com a nudez. Não é porque já fiquei uma vez perdida e já me interessei por meninas, que agora me interesso por todo mundo a toda hora.

Me pego me podando, às vezes. To ficando com um cara, tá massa e tudo mais, mas não posso passar desse estágio da relação porque, afinal, sou livre e prezo pela liberdade, né. Isso é uma grande pegadinha. Porque ser livre é também se sentir livre para sentir o que tiver de sentir. O medo, ele bate toda vez. Ele bate até quando a pessoa com quem estou ficando demonstra um carinho a mais, quer fazer programas mais “quero te conhecer” do que “quero te comer”. Ando reeducando minha cabecinha e meu coração para a noção de que existem pessoas legais no mundo, que não vão me coibir de ser quem eu sou ou de sentir o que eu sinto, e que eu posso sim ser quem eu sou e sentir o que eu sinto. É um trabalho lento, mas que tem dado alguns resultados.

Talvez ser quem se é, sem medo, assuste um pouquinho os outros. Ou muitinho. Tem gente que é mais quieta, menos expansiva, menos tarada também, e tem gente que é bem mais do que eu. Personalidade nunca foi meu problema, e talvez eu receba o diagnóstico de “excesso de personalidade”. Como minha mãe um dia me aconselhou, não posso exigir que o outro tenha uma personalidade tão forte quanto a minha, porque as pessoas são diferentes.

Não vou mentir: fazer da liberdade de ser quem eu sou – ou quiser ser – um imperativo na minha vida tem um lado muito delicado, que é o de não agradar todo mundo, e por todo mundo eu digo família, amigos, boys em potencial. Não que eu queira agradar todo mundo, mas também ser desagradável não é uma ideia muito agradável pra mim. Ninguém precisa engolir minhas verdades e certezas incertas. Nem eu preciso viver de acordo com as verdades do outro.

Uma coisa que percebo é que viver a liberdade de ser quem se é conquista o respeito. Porque ser propriedade da gente mesma(o) é algo admirável, e preservar nossa liberdade particular é também demonstrar respeito próprio, e quem aprende a se respeitar aprende que o outro também é digno de respeito, e porque não de liberdade.

No caminho de me libertar até do que eu achava que era ou que deveria ser, agir, pensar, me encontrei me amando ainda mais, tendo noção dos meus limites e das fronteiras que eu queria enfrentar, me deixando ser quem eu fosse naquele momento. Sentir e viver a liberdade de ser só minha propriedade me ensina a ser inteira, nem mais nem menos que a pessoa com quem eu estiver, encontrando no respeito próprio a maior prova de amor que já fiz a mim mesma. Experimentem!

Categories: Reticências

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A Faxina

Ilustração: Guilherme Lira

Escrito em março de 2016


Cheguei à conclusão de que minha pepeca anda mais exigente que minha cabeça. Quando saio à noite tento convencê-la de ser atirada, de demonstrar interesse pelas pessoas, de querer competir com as pepecas amigas, e ela nada. O caso não é de falta de libido nem de falta de vontade. O caso é de falta de alguém que acenda nela a libido e a vontade.

Se você me viu por aí olhando pra baixo como se procurasse alguma coisa, você não está louca(o); provavelmente eu estava tendo uma DR com minha vagina, e ela ganhou. Ela costuma ganhar, mesmo quando no final das contas quem perde sou eu.

Já ouvi falar de que sexo, mesmo quando é ruim, é bom. Minha pepeca era dessas. Para ela, era sempre bom. Algumas vezes, nos tais dos dias seguintes, eu olhava pra minha pepeca e dizia “gata, tem certeza que valeu a pena?”, e ela sempre tinha mais certeza do que eu. Agora, amigos, o jogo virou. De tão certa, talvez minha pepeca estivesse errada. Mas vou dar um desconto chamado maturidade, que era coisa que ela não tinha.

Podem achar que é mentira, mas vou dizer que é verdade porque 70% do que vou dizer é verdade mesmo: tenho invejado as amigas que tem feito merda na vida amorosa-sexual. Era tão bom fazer merda. Eu era jovem, feliz, inconsequente e selvagem. Eu pensava que DST e gravidez era coisa que acontecia com os outros. Aliás, nem pensava nisso assim seriamente, e meu santo foi forte o suficiente pra evitar que qualquer tragédia acontecesse.

Quando minha pepeca dizia sim com frequência, eu não tava nem aí pro que os outros iam achar. Os outros sempre serão os outros, independente do assunto e da vítima. Também não vou chegar aqui e dizer que sou uma mulher de zero arrependimentos no assunto “homens”. Tenho arrependimentos sim, mas faz parte. Talvez seja isso. Os arrependimentos – ou aprendizados – me fizeram mais exigente, ou menos “num tem tu, vai tu mesmo”, sabe? Nem eu sei.

Independente de pepeca exigente, o vibrador se faz presente. Ele é o melhor contato do zap zap, até porque nem zap ele tem e sempre está disponível. Ele não faz joguinho nem quer que eu faça. Ele nunca amolece nem tem problema de ereção. Ele vibra em dez velocidades e dá espaço para a imaginação. Se existisse um perfil desse no Tinder, eu daria um superlike. A invenção do vibrador não foi à toa, minha gente. Vamos aplaudir esse bem para a humanidade, essa tocha da liberdade sexual, esse totem da siririca. Amém. 

A exigência que minha pepeca tem dado para picas novas e antigas tem sido proporcional à exigência que ela dá para outras pepecas. Costumo dizer que a cada várias mulheres, me interesso por uma e nem sei ao certo o que fazer com isso. É o que está acontecendo com os caras. Ô inferno. Poucos meses atrás – meses!!! – eu ainda tava topando me divertir, mesmo que fosse com alguém bem mais ou menos ou que eu fosse me foder no final (no mal sentido). Me foder tanto por me arrepender de ter perdido tempo com alguém nada a ver ou por estar gostando mais do cara do que ele de mim. 

Daí baixou um santo do “só me interesso por gente que aparente ser do bem/que me faça bem/que me dê bom dia ao invés de ir direto ao ponto/que tope um cinema sem confundir o convite para um filme com um pedido de casamento”. Bateu uma onda forte de “não sou obrigada” que tem sido interessante de se observar.

Quem me lê pode chegar a pensar que os textos que escrevo não tem serventia pra ninguém, mas pelo menos pra mim tem. Recentemente escrevi um texto sobre padrões bem nada a ver que nós, mulheres, nos submetemos. Não falei exatamente de padrões de beleza (ninguém aguenta mais isso), mas de comportamento, de existência. E no texto eu mostrava como esses padrões são do mal, são enfiados goela abaixo e às vezes a gente nem se dá conta. Acreditem se quiserem, mas depois desse texto me senti quilos do que não presta mais leve. Me senti assim, sem grandes preocupações em relação a como eu deveria ser, sabe. Não diria que me senti mais livre, mas me senti mais leve, porque padrões pesam, e a gente gasta muito tempo e energia com eles. Se eu fosse tatuar esse momento da minha vida, tatuaria um “foda-se” na testa.

Às vezes fico com medo da exigência mental e pepecal ter chegado como consequência de traumas e situações desagradáveis que já passei. Nem foram tantas, foram poucas. Eu poderia fazer textão sobre cada uma delas. Eu poderia ganhar mais popularidade em cima de pautas quentes do feminismo como ghosting, essa coisa de mulher pra trepar versus mulher pra namorar, caras que não aceitam “não” como resposta. Escolhi não falar sobre isso agora, ou falar sobre isso depois, ou falar só pros mais íntimos mesmo. É que quando uma coisa ruim acontece, anula três muito boas. Isso acontece com tudo nessa vida, e deveria ser o contrário.

Administrar uma pepeca exigente e inteligente tem sido difícil porque eu gosto de pessoas, gosto de conhecer pessoas, gosto de beijar pessoas, de trepar com pessoas, de fazer amor com as pessoas que amo. Pessoas me dão tesão de ser uma pessoa também. Mas também enjôo das pessoas, pego abuso, crio nojo, as pessoas mudam, as pessoas se disfarçam, as pessoas sentem inveja, eu também sou uma pessoa. O horóscopo da minha pepeca deve estar mais ou menos assim “em estado meditativo acerca das picas que aqui estiveram, e abrindo portas para melhores picas (quiçá pepecas) que estão por vir”.

Uma pessoa que me ama muito recentemente me disse que talvez eu esteja passando por uma fase de faxina. Adorei essa palavra.

Recentemente também comecei a praticar meditação, com professor e tudo. Coincidentemente o professor de meditação falou que, através do ato de meditar, a gente também passa por uma fase de faxina. Ele disse que meditação não seria quase dormir e ficar fazendo “Ommmm”. Meditação é despertar, é acordar para coisas que a gente adormece quando vive no automático. Todos nós vivemos no automático em algum momento. E nesse despertar, muita poeira que estava debaixo do tapete das nossas vidas pode surgir, pode levantar e afetar alérgicos como eu. Atingir a fase em que se sobrevive à poeira e se consegue ver tudo com mais clareza seria uma consequência da consciência meditativa.

Ainda não sei se a palavra certa para definir essa fase em que estou passando seria “encalhada” ou “fazendo faxina dessa vida”. Chamem-me de encalhada, que eu direi “será? então tá”. Também não boto fé que, após essa fase, tudo serão flores e um príncipe ou princesa vai bater na minha porta e seremos felizes para sempre. Ainda tenho três casamentos, filhos, perrengue, paz, caos, alegrias, viagens, pobreza, riqueza, três divórcios, muitos namorados(as?) e faxina pela frente.

Faxinas são feitas de tempos em tempos. Todo mundo tem sua fase de sujar, de acumular, de espirrar, de tomar um anti-alérgico, de limpar e de ser feliz. Nas faxinas, descobrimos aquela foto daquele dia, aquele papel de bombom atrás do sofá. Com as faxinas, descobrimos que ali existe uma casa que deve ser cuidada. Faxinas são mais que necessárias. Elas deixam a casa bonita e habitável para quem mora ali e para quem for convidado a entrar.

– FIM –

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Categories: Na Cama com Marina

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Sexo é Construção

Ilustração: Guilherme Lira.

Escrito em novembro de 2015 


Sexo é e sempre será assunto de mesa de bar. Na verdade nem é necessário ter uma mesa ou um bar para que o assunto venha à tona, mas vamos combinar que o ambiente dá a sua contribuição para a temática.

Sábado passado estávamos eu, uma amiga e mais dois amigos, várias cervejas Serra Malte acompanhadas de batatas fritas em um bar como cenário. As pautas variavam entre Ru Paul’s Drag Race, ataques terroristas em Paris, papel da mídia tradicional, Facebook, piolho, mundo lésbico, o garçom gato (que tem mulher, porém eles só se vêem a cada 15 dias) e, claro, sexo. Que saudável seria se todos tivessem amigos e amigas para falarem sobre o assunto abertamente, sem medo e rindo sempre que possível. Afinal, sexo também é cultura, diversão e arte.

Conversa vai, conversa vem, cerveja vai, cerveja vem, e minha amiga falou: – Só aprendi a fazer sexo este ano. Estamos em 2015 e ela perdeu a virgindade em 2007. Daí eu pensei (não lembro se verbalizei) “uma coisa é perder a virgindade, outra coisa é começar a fazer sexo”. Cara, isso faz todo o sentido.

O peso que cai sobre a perda da virgindade é tão grande que, na maioria das vezes, quem acaba perdido é a gente. Não importa quantas vezes você já afogou o ganso ou tenha afogado o ganso dos outros ou use outro sinônimo para sexo que não envolva aves: sexo se aprende fazendo, experimentando, se experimentando. Sexo leva tempo. Fazer sexo pela primeira vez pode durar só uns minutinhos. No mundo real, a primeira vez é seguida de várias outras primeiras vezes, e delas vamos construindo nosso repertório sexual.

Nas aulas de educação sexual que tive na escola, quando eu era ainda virgem porém pouco santa, lembro de uma cena um tanto traumática e engraçada ao mesmo tempo. Foram ensinar pra gente que essa história de que camisinha não cabe em alguns paus é falsa. Daí a pessoa que tava dando a aula falou “meninas, se um rapaz disser pra vocês que não quer usar camisinha porque ela não cabe no pênis ‘gigantesco’ dele, lembrem-se de que a camisinha se elastece”, e daí essa pessoa enfiou uma camisinha no braço inteiro e todo mundo fez “ÓÓÓÓ”. E ainda complementou, dizendo que “se o rapaz tiver um pênis do tamanho de um braço, saiam correndo”. O mais cômico é que já saí correndo uma vez.

Não foi na minha primeira, nem na terceira nem namorando que me senti fazendo sexo de verdade. Foi só em 2013 que comecei a conhecer o que era o sexo, tanto com os outros quanto comigo mesma. Para vocês terem uma ideia até quebrei meu vibrador. Antes de aprender a fazer sexo eu já tinha aprendido o que era fazer amor. Fazer amor é precioso, e, assim como o sexo, a gente só sabe que faz, fazendo. Dedico esse tema para outro momento, outro texto.

Não é porque só me percebi fazendo sexo de verdade em 2013 que dali em diante virei expert no assunto. Mas é como se antes eu não tivesse a sensibilidade e alguma maturidade para dizer “essa vez foi boa”, “essa vez não foi”, ou até “nessa, as preliminares fizeram as vezes da penetração”.

Hoje, por exemplo, sei que prefiro transar de manhã do que à noite. Que prefiro sóbria do que bêbada. Que sexo não é só um pênis sendo introduzido numa vagina. Que, em média, brasileiro não tem o pau tão grande quanto teoriza. E que tamanho não é sinônimo de sabedoria, e que sabedoria, essa sim, pode fazer diferença para melhor ou para pior.

Sexo vai muito além de perder a virgindade, que inclusive não deveria ser acompanhada do verbo “perder”. Dá um teor amedrontador para o ato em si, né não… Deveria ser algo com o verbo “buscar”, ou “construir”. Imagina que lindo dizer “comecei a construir minha sexualidade com tantos anos”?

Tem vezes em que faço sexo e penso que poderia ter sido melhor, tanto para mim quanto para a pessoa envolvida. Já relaxei nesse assunto, como também já relaxei na cobrança da frequência com que transo. Fazer sexo pra bater ponto deveria ser amarrado em nome de Jesus. Onde já se viu, minha gente, se cobrar de estar trepando só porque os outros aparentemente estão trepando mais do que nós? Sabe-se lá se esses transões de plantão sabem o que estão fazendo.

Aprender a fazer sexo é também consequência do nosso amadurecimento. Às vezes virar adulta tem o seu lado positivo. Minha amiga só aprendeu a fazer sexo este ano, e eu em 2013. Existe todo um Kama Sutra de possiblidades pela frente, e também existem aqueles e aquelas que preferem desenhar os seus próprios manuais.

 

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Categories: Na Cama com Marina

Ilustração: Guilherme Lira

O Tamanho do Documento

Ilustração: Guilherme Lira

Escrito em abril de 2014

 

Não é de hoje que o comprimento e largura são assuntos em pauta. Homem fala sobre isso; mulher fala sobre isso; menino fala sobre isso; algumas meninas nem sabem ainda o que é isso; sua avó sabe analisar isso.

Quantos caras não se sentem um pinto no lixo quando tem seus membros avaliados com sucesso? É um prazer para eles engrandecer o seu ego sem braços. Será que é um prazer também para as portas e janelas que recebem essas visitas? O tamanho – realmente – faz diferença?

A diferença já está no tamanho. Não só no comprimento mas na largura, em especial. Bem especial. Há também a diferença entre os ovos. Há também a diferença entre cores, carpete e cortina. Seja por crença, saúde ou precaução, os capacetes também são diferenciados.

E o mais importante: há a diferença de cabeça. Não a cabeça do pênis e sim o que encabeça o dono do pênis.

Você já teve o desprazer de transar com um cara imbecil? Eu já, mas mais imbecil ainda fui eu. E de transar por necessidade com um amigo no capô do carro do pai da sua amiga? E de fazer sexo numa cama king size adicionada de um sofá que agregava valor ao espaço? E com um ruivo, um judeu, um fotógrafo numa ilha, um amigo do coração? E de fazer amor? Existe coisa melhor?

A diferença entre cada um desses não estava só no tamanho.

O tamanho às vezes faz diferença no encaixe. Aliás, o tamanho faz uma grande diferença no encaixe e nem sempre encaixa. Mas encaixe não é, necessariamente, culpa do tamanho. Às vezes as pecinhas do Lego não estão casando. Em outras o divórcio vai para além da forma das pecinhas. Muitas vezes, gente, usa KY que vai.

Já me ocorreu de notar o tamanho antes de algo mais invasivo acontecer, e simplesmente dizer “amigo, não rola com essa rôla”. Já me ocorreu também de uma minhoca virar uma sucuri. Já me ocorreu de dois pintos de nacionalidades diferentes serem pau a pau, em que um tinha um par de bolas de vôlei e o outro de basquete. Haja mão-de-obra especializada.

O babado também depende do buraco que é para ser acertado, né. Tem porta de entrada mais apertada que porta dos fundos. Tem sim, acredite. Tem casa com chaminé: sempre uma opção de escape, ou seria de chegada mais rápida? Machucada, arrombada, apertada, receptiva. Cada abertura reage de uma forma diferenciada em machos e fêmeas.

Usa-se a expressão “vai tomar no c*” como algo negativo, quando na verdade deveria ser um desejo de coisa boa. Imagina parabenizar alguém com um “Te desejo muita saúde, sucesso e que você tome muito no cú ainda nessa vida”. Isso seria um verdadeiro feliz aniversário, obrigada.

Claro que este buraco em questão é meio polêmico e endeusado. Não sei pra quê, gente. Isso só traz pressão e insegurança para as passivas e passivos, além de muita expectativa para os ativos. Na verdade pressão é bom, mas vamos com calma, gentilmente, que chegamos lá.

“Nossa, dessa vez foi fácil de entrar”, disse ela, feliz.
“Você tá dizendo que meu pau é pequeno?”, disse ele, inseguro.

“Eu acho que já sou arrombada, porque ele me pediu pra apertar minha vagina!”, disse outra, preocupada.
“Pô, talvez ele quisesse um pompoarismo pra fazer uma pressão. Ou talvez tu seja arrombada mesmo”, disse a amiga jurando que estava consolando alguma coisa.

“Desculpa, não dá… É que eu acabei um namoro há pouco tempo e ainda não me sinto confortável para isso”, lamentou uma irritada com a própria combinação cabeça-buceta.
“Tudo bem, é que quando eu te vejo quero pular em você como um animal. Mas eu posso esperar”, respondeu o dono da maior tromba da savana.

Às vezes acho que tamanho é mais assunto de mesa de bar do que de real problemática na cama.

Tamanho é uma questão de centímetros, oras. Simples assim. Impressiona, decepciona, não funciona, engana, é cheio de manha. Cada um no seu quadrado e entrando no buraco que for de sua preferência e dedicação.

Piroca sempre será assunto polêmico; até em conversa mole ela aparece durinha, tinindo. O tamanho pode ser documento, claro. Mas cada qual com sua identidade e assinatura, que é isso que importa ao atravessar fronteiras.

| Originalmente postado aqui |

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