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Bloco da Saudade

“Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”

“Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”

[Trecho de Quando o Carnaval Chegar – Chico Buarque]

Que coisa mais deliciosa.
Essa música, essa letra, essa composição, som, sensação, talvez seja uma das minhas favoritas. O top one do meu top five. Escuta.

Ela me lembra um barulho de trem prestes a andar nos trilhos, um coração batendo antes de uma grande emoção, ou até de uma parada geral. Chico tá cantando quietinho, “mufino”, mineirinho, gostosinho. A letra diz isso, com um recado único: me aguardem no Carnaval.

Parece aquela respiração profuuunda que às vezes a gente dá ao se deparar com as pedras nos meios dos caminhos que a vida – e a gente mesmo – coloca. Parece aquele sentimento de quando a gente tá perdidamente enlouquecido por alguém, mas não diz. E quando diz: ai que delícia que é a festa da carne!

Minha primeira lembrança de carnaval vem da prateleira de CDs lá de casa, em Recife. Mês de fevereiro. Enquanto Salvador anuncia suas atrações nos trios elétricos cheios de axé e cordão de isolamento; enquanto o Rio da Rede Globo se prepara para as comissões de frente, bateria e alegorias, é hora de limpar a poeira do CD “Saudade vai Passar”, do saudoso Bloco da Saudade. Vovó Cecinha abre sua cervejinha, oferece às empregadas, aos pedreiros, às visitas.

A casa de Recife estava sempre em obras. O verão era a época propícia para reformas, puxadinhos, cerâmica nova e reboco. Vovó dá o play no CD e naquele mesmo lugar, em meio a poeira de cimento, criança correndo e familiares foliões, ali mesmo começou o que hoje chamo de Carnaval.

Não nasci fazendo passo de frevo, mas logo pequenininha mainha me levava pro Eu Acho é Pouquinho, uma versão infantil do olindense e vermelho bloco do Eu Acho é Pouco. Durante anos os adultos da família juntavam todos os meus primos no bloco da Ala Ursa (ou seria A La Ursa?). A gente saía pelo bairro cantando “Ala Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”. Pirangueiro significa mão-de-vaca no Nordeste, e com as moedinhas dos bondosos comprávamos sorvete pra espantar o calor.

Um pouco mais velha assisti, da varanda do prédio de um hotel, o Galo da Madrugada, conhecido como o maior bloco de rua do mundo, e quem disser o contrário leva uma pisada no pé de quem é de fato bom pernambucano.

Posso dizer que eu cresci com o carnaval.

Aprendi o que é ressaca e ressurreição brincando carnaval, aprendi a me perder e a me encontrar nele também. Aprendi a me soltar nas ladeiras de Olinda, a limpar suor com mais suor, a andar em multidões, a fazer e desfazer amizades e viver paixões passageiras. Aprendi que jovem não sou eu, e sim a terceira idade que se reúne em blocos e vai com todo o gás que já nem tem, serpenteando as ruas do Recife Antigo. Esses sabem viver.

Como forma de presente de aniversário online, uma amiga me dedicou um texto. Ela é uma espécie de fã e editora de tudo que escrevo (publicado ou não), e receber um presente desses logo dela me deixou toda abestalhada.

Ela abre o texto dizendo que “Falar de Marina é fácil porque me lembra o Carnaval, que consequentemente me lembra: intensidade, alegria e saudade. De quando a gente tinha 12 anos e o Recife Antigo tava começando a se esquentar para a festa mais bonita do ano, a gente ia pros ensaios do maracatu da minha mãe e quando a época chegava a gente se contentava com uma latinha de refrigerante, a rua do Bom Jesus e os desfiles passando. E assim como os desfiles, a vida também anda e a gente andou com ela…”

A gente andou e mais parece que correu de boato de arrastão em plena ladeira da Sé de Olinda. O susto foi tão grande que tropecei e vou passar meu Carnaval na puta que pariu. Palavreado pesado para uma distância sem medidas.

Talvez faça parte do meu relacionamento sério com o danado do Carnaval testar distâncias. “Bora ver se tu é fiel a mim mesmo, estando assim soltinha do outro lado do mundo”, ele diz. Talvez faça parte mesmo. E não é que ele quase me escapa da lembrança? Tenho estado tão ocupada nessa vida que ele ia passar batido sem bater no meu coração. Mas o que bateu agora foi a saudade, e com ela todo um bloco de “tô me guardando pra quando no Brasil chegar”.


Originalmente publicado em março de 2014 no primeiro blog que tive, da rede Sem Réis


Ilustração feita por Guilherme Lira, amigo querido e designer, como presente de aniversário em 2014


Trilha sonora para o texto e para momentos de saudade e expectativa pelo carnaval: Quando o Carnaval Chegar, Chico Buarque


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Categories: Made in Austrália, Reticências

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Não era intercâmbio, era cilada!

Escrito em outubro de 2013

Vamos falar de um assunto polêmico. Vamos falar de relacionamentos em tempos de intercâmbio.

Você que está aí no Brasil, namorando, solteiro(a), se querendo, se amando, se odiando, se encontrando, noivando aos 19, tendo filho aos 15. Você, independente do sexo, orientação sexual, pulga atrás da orelha, situação econômica e social, você que está esperando a novela das 9 começar enquanto come cuscuz com leite, você que está se preparando para mais uma noitada com “azamigues”, pronta para arrasar, você que está traindo seu namorado, você que pensa que está sendo traído, você que pretende mudar de cidade para ver se consegue um novo bofe que te deseje tanto quanto o bofe da webcam te deseja, você que diz que está feliz mas está na pior, e até você, a quem admiro muitíssimo, que não precisa dizer a ninguém que está assim ou assado para sentir-se completo.

Você está aí pensando que não existe coisa melhor ou pior do que seu atual estado e status de relacionamento, não é mesmo? Sinto dizer que existe, e chama-se intercâmbio. O meu é de 16 meses, então já julgo que virarei guru de relacionamentos ou então sairei do desembarque paraibano direto pro divã da minha querida antiga psicóloga, e ela prontamente me recomendará para um psiquiatra. Rivotril já tenho como conseguir, vamos aguardar o diagnóstico então.

Pois bem, como alguns já sabem por conviverem pertinho de mim no Brasil ou através de fofoca, eu saí daí namorando. Não, pera. Eu saí solteira, mas estava namorando quando estava no Brasil. Enfim, cheguei em solo australiano solteira e pronta para arrasar. Mentira! Tá, vou parar com esse couro de pica porque até eu estou me confundindo agora.

Sim, cheguei na Austrália solteira na vida e no Facebook, mas não, não estava pronta para arrasar, e arrasava mesmo assim.

Chegando nestas terras que hoje em dia vivo, conheci todo tipo de gente e de status de relacionamento: solteira(o) na pista, namorando e traindo, relacionamento aberto declarado, namorando e querendo casar, namorando e querendo acabar, solteira(o) querendo casar, até casal de namorados que vieram juntos do Brasil conheci (e invejei, confesso), e eu, solteira, ainda apaixonada pelo que deixei no Brasil e com o fogo do Nordeste entre as pernas.

Bem, quem me conhece me conhece. E quem não me conhece a esse ponto, calminha no julgamento: eu sou normal, apenas tenho um desprendimento sexual (tanto para falar sobre quanto para ter curiosidade sobre) que ainda não entendo de onde surgiu. Além disso sou jovem, brasileira, vacinada, tomo meu anticoncepcional religiosamente, ando com camisinha na bolsa, tenho abertura para falar com minha família do assunto e faço a maior graça das minhas experiências até o momento que vos falo.

Mas então, eu estava falando dos relacionamentos que fui apresentada assim que cheguei.

Agora já estou na metade do intercâmbio e constato para mim, para meus amigos e agora aqui: absolutamente todos esses relacionamentos mudaram. Se não mudaram o status, modificaram-se ao menos no funcionamento, na engrenagem do coração. Se não acabaram até que a volta os reuna novamente, foram reciclados e muitas vezes intensificados.

Sim, graças aos deuses há ainda aqueles em que a mocinha e o mocinho amam-se mais que nunca, chegaram até a se encontrar aqui nesta terra de cangurus vivendo seu próprio conto de fadas contemporâneo. Há também aqueles que pela simples e sincera questão do tempo e dinheiro não puderam se rever durante esse período.

Apenas no meu edital mais de 150 estudantes vieram para Melbourne (esse é o número de participantes no grupo do Facebook). Não conheço e muito menos irei conhecer todas essas pessoas e suas histórias de relacionamentos conturbados.Mas o que vivo – diariamente – ao lado dos meus amigos e ao lado das minhas diversas personalidades é pesado.

Quantas vezes já não chorei no meu travesseiro de penas de ganso australiano, e quantas tantas, meu Deus do céu, já não consolei e servi de mãe/psicóloga/irmã para os que em mim confiam?! É barra-pesada, gente.

Tenho uma amiga queridíssima cujo nome não citarei, mas que irá sacar que é dela que estou falando, que disse “Marina, é pior pra quem fica”.

Que pior pra quem fica, menina! Tá louca! Cheguei sozinha sem amigos e família, no último pau-de-arara, e eu que sofro menos?

“Sim”, ela disse. E ela tem propriedade para tal afirmação. Ela já vivenciou os dois lados: o de quem fica e o de quem vai.

Ela é uma danada, linda, poderosíssima. E discreta. Ela não fala desse assunto com qualquer um, e me sinto honrada em saber que ela conta comigo.

Minha panelinha – de pressão – de amigos daqui tem esse costume de me pedir conselhos, ou de ao menos virem contar preocupações, dúvidas, certezas, sem que eu tenha que responder. Não sei porque eles fazem isso. Saibam que sou mais complicada que todos vocês juntos.

Minha primeira relação sexual aqui foi boa, mas ao mesmo tempo uma bosta. Foi segura, com um cara ok e serviu como um pontapé para eu iniciar meu desprendimento do Brasil. Para os que ainda não sabem, liguei depois para o meu então ex-namorado morta, triste, dizendo “eu dei, mas não foi amor o que fiz, foi sexo blablablá”. Rapaz, eu fui sincera. E completamente louca! Como alguém liga pro ex depois de fazer sexo? Como? Mais um assunto para minha querida psicóloga.

Após essa pisada de bola com ele, comigo, com nosso relacionamento de amizade/namoro duvidoso, repeti a dose algumas outras vezes. Até que demos um basta nessa situação de um ficar contando detalhes que só fazem literalmente foder um com a vida do outro.

Estou me expondo demais? Talvez. É que acredito que já atingi uma fase de ver graça em tudo isso, e de refletir também. E sei lá, estou morando há trocentos quilômetros de distância do Brasil e me sinto à vontade para falar disso neste momento. Depois mainha me dá um carão internacional e pronto, terei o castigo que alguns desejam me dar. 

Fazer sexo nessa situação dá sim um sentimento de culpa, mas ao mesmo tempo é bom pra gente dizer “Bora aproveitar isso até o último fio de pentelho? eu digo bora”.

Vejo relacionamentos se construírem na minha frente, vejo amigas que chegaram meninas e tornaram-se mulheres, por mais “Dia de Princesa do Netinho” isso possa soar. Vejo ficadas promissoras. Vejo sofrimento que dá vontade de chorar junto. Vejo um ajudando o outro.

Vejo a menina mais linda do meu edital (não, dessa vez não sou eu) sendo ao mesmo tempo a mais insegura de todas.

Ontem, após me despedir do meu bofe aqui de manhã cedinho – por favor, solteira sim, sozinha nunca, ou vocês achavam que eu estava na pior? – vi essa minha amiga linda e insegura desabar, se acabar no choro. Sabe quando você perde a respiração de tanto chorar, fica com dor de cabeça, os olhos ficam vermelhos até a pálpebra? Eu sei, e foi assim que ela ficou.

E a razão do desespero dela era, para além da insegurança, a expectativa. Expectativa de um futuro próximo, expectativa de um futuro distante, e ela não conseguia colocar um ponto final temporário nessa ideia. Mal sabe ela, bichinha, parecendo um passarinho sem mãe chorando no meu colo, que eu me vi nela todinha.

O que falei naquele momento foi “só quem pode dar um basta nesta situação, nesta expectativa, é você”. E simultâneo a isso, dizia para mim mesma que só quem pode acabar com esses anseios que a gente mesmo constrói, talvez para ter algo ao qual se segurar nos maus e bons tempos que passamos, somos nós mesmos.

Eu vim com a expectativa de continuar o que deixei no Brasil. Acredito que todos os corações partidos por um Ciência Sem Fronteiras viveram o mesmo. Mas e agora que passou esse tempo todo, que já passaram tantos caras e meninas interessantes, tanta história pra contar que acaba nos modificando?

Essa expectativa acaba nos martirizando por dentro e influenciando o que fazemos fora de nós, e temos muita roupa pra lavar e muito trabalho da Universidade para dar contar ao invés de ficar alimentando-a. Enquanto tento organizar minhas ideias neste texto, escuto “O que foi feito, deverá”, de Milton Nascimento nos tempos do Clube da Esquina cantada por Elis Regina.Sim, sou dramática a este ponto e fã de ambos os artistas.

Ela diz assim “falo assim sem saudade, falo assim por saber, se muito vale o já feito, mais vale o que será”.

Acredito que nos nossos casos sentimos saudade sim, sempre, e muitas vezes preferimos abafá-la em forma de bebida, sexo sem amor, com amor, em forma de amigos, de viagens, de música, de um cachimbo da paz, de comida, de academia, de choro. Abafamos porque, do contrário, não vivemos o que temos para viver aqui. E quem lá sabe do futuro, dessa volta pro Brasil? Ninguém, não é mesmo? Nem nossas expectativas são capazes de anunciar o que vem por aí.

Experiência não estou perdendo, estou ganhando. Só de consolar amigos e tentar me consolar, já deu ao menos para escrever este texto e me fazer parar de chorar.

E agora vou dormir porque tenho que escrever 800 palavras sobre uma exposição, colocar – pela enésima vez – os pingos nos i’s com meu ex/amigo, e se o atual bofe me ligar tenho que comprar Gillette Venus no mercado para manter a depilação e o nosso caso em dia, até porque ele é paisagista e aprecia uma grama aparada.

Ps: eu não disse que traria solução para os seus e para os meus problemas ao final do texto. Me desculpe se te dei a expectativa errada ao início desta confissão. É que às vezes a gente muda de ideia na Austrália, no Brasil e no nosso mundinho interno.

| Originalmente publicado aqui |

| Trilha sonora do texto: “Cilada”, por Molejo |

| Trilha sonora do texto: “O que foi feito devera”, por Elis Regina e Milton Nascimento |

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