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Nada menos que isso

O primeiro cara por quem me apaixonei é 10 anos mais velho que eu. Eu tinha 15 anos na época, era bv, virgem e não menos libidinosa que qualquer adolescente de quinze anos com namoradinhos e peguetes.

Ele era mais velho e deve ser um dos caras mais bonitos que já vi, por fora e por dentro. Despadronizem suas imaginações: ele não parecia com nenhum Brad Pitt (ainda é sinônimo de “gato”?), George Clooney (sempre gato), Cauã Reymond (quero) ou um hipster ctrl C + ctrl V (not today, Satan). Ele era uma mistura do boy de Mulan com aquele ator Freddie Prinze Jr no fim dos anos 1990 e começo dos 2000.

Para além de muito do bonito, o rapaz era doce, era educado. Era meio leso. Riso fácil, sorriso largo. Brincalhão, humor juvenil. Sem frescura. Atencioso, super atencioso! Suficientemente alto. Olhar jovem e simpático. Voz suave, gostosa, forte, de abrir as pernas de qualquer ser vivo, homem ou mulher. Sotaque: por-tu-guês. Sotaque português, quando compreensível, pode ser bem sexy. Aos quinze anos de idade, ninguém precisa de tantas razões assim pra se apaixonar ou pra ficar molhada lá embaixo. Ele era, portanto, um amor adolescente entregue de bandeja.

Não me considero exigente, mas não fui de me apaixonar muito na escola. Eu me apaixonava por um e vivia aquele amor platônico durante anos. Nada acontecia, nada aconteceu. Eu era intensa e fiel nas minhas paixonites infantis. Não tinha capacidade pra pagar de piriguete mirim, porém admirava quem era assim. Tinha amigas que mudavam de “amor da vida” a cada mês. Eu não conseguia, e sofria como uma Bridget Jones menor de idade por causa disso.

O cara por quem me apaixonei quando tinha quinze anos talvez tenha norteado o tipo de pessoa que realmente me interessava e me interessa. Na prática foram muitos completamente o contrário daquela primeira paixão, a começar pelo meu primeiro namorado. No fundo, tudo é processo: o que é bom e o que é ruim. Mas como diz a senhora minha mãe, tem coisa que a gente faz que nem é coisa “de gente jovem”, e sim de “gente burra mesmo”. Vivendo e aprendendo.

Dias atrás, enquanto escutava alguma música de Céu, lembrei dele, daquele cara por quem me apaixonei perdidamente quando tinha quinze anos. Sorri. Ele era e é, de fato, uma pessoa linda. Pensando nele e na sensação boa que pensar nele me proporciona, lembrei do meu atual “ele”, meu namorado, companheiro, amante. Meu homem – sem medo de dizer isso, porém ciente dos possíveis olhares tortos de quem acha errado feio absurdo careta antigo brega, tanto a expressão quanto a sensação. Tô feliz. Né isso que importa?

Ali, escutando Céu e lembrando de um passado bom, me senti ótima por estar com alguém tão massa quanto minha primeira paixão parecia ser, alguém que me merece e a quem eu consigo olhar e pensar “Finalmente”.

Eu sabia o que valia mais a pena aos quinze anos de idade do que aos vinte. Não acho ruim ficar com pessoas nada a ver, mas é que um dia a gente cansa. Houve sim um ou outro cara muito massa, especial de verdade, mas que não tivemos a oportunidade e o timing de ser mais do que fomos. Não me arrependo de nenhuma putaria, aventura, Tinder, amor platônico, paixão fudida, boy sem futuro. Hoje está tudo bem, devem estar todos bem, espero que estejam todos bem – e melhores. Mas uma dose de “já deu” é bom de vez em quando.

Não sei para onde vou com meu atual relacionamento nem quanto tempo vai durar esse ajuntamento, esse namoro, esse bem querer. Não importa. O que importa é que ficar com os certos faz muito bem pra saúde, para cútis, para o respirar, para acordar nesse mundo muitas vezes intragável.

O que importa é que, sabe, como diz meu amigo Diógenes: tô véa. É tão mais suave viver com quem nos faz bem, é tão mais gostoso estar com alguém com quem o sexo é de altíssima qualidade, é tão mais saudável estar com alguém saudável de cabeça (até então), é tão feliz estar com alguém que me faz feliz, é tão mais humano começar um relacionamento com alguém que não mede elogios, que não evita discar meu número, que não compete comigo, que não é babaca, que não age feito um moleque, que me trata bem, que me ouve, que não tem medo de mulher, que não tem medo de ser homem, que não é perfeito nem tenta ser,  que não se incomoda com menstruação, depilação, que lava minhas calcinhas, que é leve ou tenta ser leve apesar da bagagem pesada.

É bom estar com alguém que me faz sentir mulher, e não menina. Mulher, e não mãe dele. Mulher, e não filha. Mulher, e não buceta. Mulher e não bróder. Mulher, e não terapeuta. Mulher, e não irmã. Mulher, e não babá. Mulher, a mulher, não “mais uma”. É bom estar com alguém que me faz sentir gente, e eu não mereço nada menos que isso.


Escrito entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017


Imagem: fotografia do videoclipe Perfume do Invisível, feita por mim com o celular | Intérprete e protagonista: Céu | Direção: Esmir Filho


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Categories: Reticências

flying(1)

Sinta a liberdade de ser só sua propriedade

Ilustração: Guilherme Lira.

Escrito em agosto de 2016

 

Você sabia que: O feminismo não me fez transar mais, e sim aprender a dizer não e sim para mim e para os outros? Cheguei a esta conclusão numa conversa de bar que tive com três homens héteros astrais e um amigo gay que estava voltando à boemia. Um dos caras hétero comentou que percebe que o feminismo trouxe uma inversão de valores: a mulher é quem chega no rapaz, é quem dá ou não dá, é quem não liga no dia seguinte. Perguntei a ele se isso o incomodava, e ele disse que não.

Um deles opinou:
⁃    Não me incomodo em ser tratado como putinha.
Todo mundo riu. Putinha, nesse caso, foi usado para descrever a pessoa que é usada por outra com a finalidade do prazer e nada mais. Quando falo no verbo “usar”, por favor, não estou me referindo a violentar ou coisa do tipo.

Falando em usar e ser usada, uma amiga certa vez me falou que foi usada porque quis, mas que por um lado não sabe se é pra se sentir bem ou mal com isso. Explico: ela encontrou, numa festa, um menino que já conhecia, e o menino estava de coração partido porque viu no Instagram de alguém um vídeo da namorada ficando com outro. Daí no final das contas e da noite, essa minha amiga e esse menino do coração partido acabaram ficando. No outro dia, o menino ficou se sentindo mal porque achava que minha amiga estava se sentindo usada por ele (pra compensar a traição) e ele não queria que ela se sentisse usada e coisa e tal. Mas minha amiga me confessou: “eu quis ser usada e foi bom”.

Se foi bom, não foi forçado e foi com o consentimento e tesão de ambas as partes envolvidas, então tudo bem. Mas a minha amiga ficou pensativa: será que era para ela ter se incomodado com isso? O feminismo diz que o corpo é dela e as regras também. Mas também diz pra gente se respeitar. Deixar sermos usadas é faltar com respeito a nós mesmas ou ao que dizem ser o feminismo?
Na conversa de bar que tive com aqueles rapazes do começo do texto, falei pra eles que nunca estive tão sozinha e nunca fui tão feminista e dona de mim. Essa coisa de viver as regras valesco-popozudianas de que “a porra da buceta é minha” antecederam o meu encontro com o feminismo. Talvez eu já fosse ultra feminista antes mesmo de adotar o termo para minha vida.

Existe uma linha tênue que anda sendo mal interpretada por vários e várias. Nessa linha tênue, de um lado o sexo e de outro o feminismo. Muitas e muitos interpretam o ser feminista com o ser puta ou com o dar pra todo mundo, e quanto mais, melhor. No processo de empoderamento do nosso corpo e da nossa alma, às vezes escolhemos o caminho de usar o sexo como artifício para reafirmar o nosso feminismo: eu dou porque sou feminista, eu sou feminista porque dou.

No meu encontro e caminhar particular com o feminismo, pensei e repensei muita coisa. Uma delas foi o meu corpo, e com quem eu estava dividindo ele e porque eu dividia com aquelas pessoas específicas (ou nem tão específicas assim). Em parte foi a maturidade batendo na porta, em outra foi uma dose a mais de auto-estima, quem sabe o cansaço de fazer sexo com estranhos-conhecidos, ou talvez o sexo ruim que eu estava ganhando só para estar fazendo sexo também. De um jeito ou de outro, me percebi desinteressada na pessoa que eu já fui em relação ao sexo. Sei lá. Não senti mais sentido naquilo. Pode até ser uma desilusão sexual. Arrependida, jamais! Trepar é bom e eu sou fã. Gosto tanto de sexo que, com o feminismo, aprendi a respeitá-lo e a me respeitar.

É muito, mas muito delicado eu usar a palavra respeito como sinônimo para recatada. Recatada eu não sou nem quero ser. O respeito que quero trazer aqui é o de fazer ou não fazer algo porque eu quero fazer ou não algo. Não porque todo mundo tá fazendo, não porque quero provar algo pros outros. Não é porque sinto falta de sexo que vou fazer sexo de qualquer jeito, com qualquer um que me der bola ou que responder a minha mensagem no zap zap.

Na estrada de aprender a respeitar minhas vontades, também aprendi a dizer não. Um ex que tive tinha uma frase muito forte, muito difícil de ser engolida e muito babaca também: não sou leal a ninguém, só sou leal às minhas vontades. O recado estava dado: eu não vou deixar de ficar com outras pessoas ou de não ficar com outras pessoas por causa de namorada(o). Só vou ficar ou deixar de ficar com outras pessoas por causa de mim.

Por um lado, essa espécie de lei que regia a vida dele demonstra essa coisa de respeitar as nossas vontades. Mas o “custe o que custar” que ele condiciona traz o teor “eu sou babaca e vocês vão ter que me engolir” que é totalmente desnecessário.

Aquariana e curiosa por astrologia que sou, sempre vi a palavra liberdade associada ao meu signo e à minha essência. Entendia e não entendia ao mesmo tempo. Me via um pouco perdida nessa liberdade toda. Eu não queria oba-oba toda hora. Eu não me via me encaixando nem em relacionamentos romantizados e americanizados, nem em relacionamentos livres, que prezam o amor livre e tudo é muito livre e seja o que Deus quiser. A palavra livre fazia muito sentido pra mim, mas ao mesmo tempo eu não me reconhecia no sentido de livre que as pessoas usavam por aí.

Ser livre é fazer de um tudo, ou fazer o que se quer? Ser livre é ser puta ou deixar ser o que se quiser ser naquele momento, seja sozinha ou acompanhada? Ser livre é deixar os pêlos crescerem naturalmente, ou se depilar e não se depilar quando sentir vontade? Ser livre é usar o cabelo natural ou usar o cabelo como achar que deve? Ser livre é ser gorda para sair do padrão de beleza, ou estar com o corpo que me é confortável, seja ele gordo, magro, redondo, quadrado? Ser livre é viver do que a natureza dá ou trabalhar com o que você se sente satisfeito fazendo? Ser livre é viver com pouco, quase nada, ou com o que for necessário pra você? Por fim, ser livre é confrontar tudo que dizem pra gente ser e fazer, ou ser e fazer tudo que a gente sentir que é e deve ser?

Me deparei com uma frase que diz assim: “ela aprendeu que o verdadeiro amor é a liberdade de ser quem ela é (sozinha ou acompanhada)”. Por mais gosto de chiclete tutti-frutti que essa frase tenha, meu lado Malhação/Pitty em início de carreira abraçou essas palavras por inteiro, e se confortou com elas. Essas palavras me representam, ou pelo menos representam o sentido de liberdade que faz sentido para mim. E de feminismo também. E de amor. E de respeito próprio.

Essa noção de que liberdade é ser quem nós somos, com todos os detalhes, contradições e ambiguidades que cada um possui, essa sim me representa.

Ficar sozinha ou estar acompanhada; usar roupa pra chocar a sociedade ou um look básico; beber ou não beber; usar drogas ou não usar drogas; se depilar ou não se depilar; fazer parte de alguma organização feminista ou não fazer; ler e se informar somente sobre questões ligadas às minorias sociais ou não ler nada; ser genderless no guarda-roupa, gênero e sexualidade fluidos, gostar e se interessar por todo mundo, ou se identificar e se interessar com o que for interessante pra vo-cê, seja aquele arroz com feijão de sempre ou um sanduíche de tudo que tem na geladeira. E não se envergonhar por isso, minha gente!

Muita gente – inclusive eu – confunde liberdade com libertinagem, ou com a expressão “qualquer coisa”. Não é porque me sinto livre para, por exemplo, fazer sexo casual, que vou fazer sexo casual com todo mundo e para o resto da minha vida, ou que nunca vou me dar a liberdade de sentir ciúmes, de me apaixonar, de me interessar por alguém. Não é porque já fiz ménage que vou fazer ménage toda vez que transar. Não é porque não tenho problemas com a nudez que vou fazer topless em marchas feministas, e não é porque não faço topless nessas horas que tenho problemas com a nudez. Não é porque já fiquei uma vez perdida e já me interessei por meninas, que agora me interesso por todo mundo a toda hora.

Me pego me podando, às vezes. To ficando com um cara, tá massa e tudo mais, mas não posso passar desse estágio da relação porque, afinal, sou livre e prezo pela liberdade, né. Isso é uma grande pegadinha. Porque ser livre é também se sentir livre para sentir o que tiver de sentir. O medo, ele bate toda vez. Ele bate até quando a pessoa com quem estou ficando demonstra um carinho a mais, quer fazer programas mais “quero te conhecer” do que “quero te comer”. Ando reeducando minha cabecinha e meu coração para a noção de que existem pessoas legais no mundo, que não vão me coibir de ser quem eu sou ou de sentir o que eu sinto, e que eu posso sim ser quem eu sou e sentir o que eu sinto. É um trabalho lento, mas que tem dado alguns resultados.

Talvez ser quem se é, sem medo, assuste um pouquinho os outros. Ou muitinho. Tem gente que é mais quieta, menos expansiva, menos tarada também, e tem gente que é bem mais do que eu. Personalidade nunca foi meu problema, e talvez eu receba o diagnóstico de “excesso de personalidade”. Como minha mãe um dia me aconselhou, não posso exigir que o outro tenha uma personalidade tão forte quanto a minha, porque as pessoas são diferentes.

Não vou mentir: fazer da liberdade de ser quem eu sou – ou quiser ser – um imperativo na minha vida tem um lado muito delicado, que é o de não agradar todo mundo, e por todo mundo eu digo família, amigos, boys em potencial. Não que eu queira agradar todo mundo, mas também ser desagradável não é uma ideia muito agradável pra mim. Ninguém precisa engolir minhas verdades e certezas incertas. Nem eu preciso viver de acordo com as verdades do outro.

Uma coisa que percebo é que viver a liberdade de ser quem se é conquista o respeito. Porque ser propriedade da gente mesma(o) é algo admirável, e preservar nossa liberdade particular é também demonstrar respeito próprio, e quem aprende a se respeitar aprende que o outro também é digno de respeito, e porque não de liberdade.

No caminho de me libertar até do que eu achava que era ou que deveria ser, agir, pensar, me encontrei me amando ainda mais, tendo noção dos meus limites e das fronteiras que eu queria enfrentar, me deixando ser quem eu fosse naquele momento. Sentir e viver a liberdade de ser só minha propriedade me ensina a ser inteira, nem mais nem menos que a pessoa com quem eu estiver, encontrando no respeito próprio a maior prova de amor que já fiz a mim mesma. Experimentem!

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