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Parei de ir atrás do que me para

Se escuta o silêncio na sala da terapia. O que ela tem a concluir é revelador para ela mesma e ao mesmo tempo não é novidade. O que ela tem a dizer deixa a psicóloga atenta, sem palavras, reflexiva de sua própria caminhada/experiência.

A resposta daquela questão está nela mesma: quando a única coisa que o outro tem a nos oferecer é a certeza da dúvida, é porque algo está caminhando errado. A garantia da dúvida, neste caso, estava paralisando ela, e se tem uma coisa que ela detesta é estar parada, congelada, guardada para ser usada depois.

Não ter certeza do futuro é a única certeza que se tem nesta vida. Para todo mundo, em qualquer lugar, o que ainda vai acontecer tem sempre alguma porcentagem de chance de não sair como o planejado e nos surpreender.

Já escrevi algumas cartas ou recados de amor, amor de paixão. Amor de amizade acho que venho escrevendo desde sempre. Numa das cartas de amor, falei “eu adoro surpresas, e você foi uma grande surpresa que me aconteceu”.

Apesar de adorar surpresas, tenho que me apoiar em certezas, mesmo que elas mudem amanhã. Quando se está sentindo perdido, mirar numa dúvida no horizonte é a pior coisa que existe. A gente merece mirar numa certezinha, um achismo que seja, mas não a dúvida. Quando você se sente sem chão, não existe benefício em mirar na dúvida daquilo que ainda nem aconteceu.  

Ter a confirmação da dúvida de alguém que você já amou apaixonadamente é um conforto extremamente desconfortável. Porque você fica pensando em quando essa dúvida vai acabar – acabar acabando ou acabar reiniciando – e não sabe ao certo se quer que ela acabe.

Você não tem como controlar o outro, ou a relação do outro com os outros. Você não tem como controlar as dúvidas, as reticências e os pontos finais do outro em relação a ele mesmo e a você. Mas você tem como contar consigo para pontuar e começar outro capítulo. Ou outro livro.

Finalizar é uma palavra que me assusta. Mas preciso dela. Pontos finais, o que são, afinal, se não um pisada firme em algo que a gente não aguenta mais? Preciso aprender a por pontos finais, ainda que o dia de amanhã seja eternamente uma surpresa. E eu acho, tenho quase certeza, que acabei de por um pra fora.


Escrito em junho de 2016


Arte: Manifesto das Mina; Texto inspirado nesta frase que dá título à crônica 


Escute: Tristeza não, interpretada por Metá Metá; Composição: Itamar Assumpção e Alice Ruiz


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Nada menos que isso

O primeiro cara por quem me apaixonei é 10 anos mais velho que eu. Eu tinha 15 anos na época, era bv, virgem e não menos libidinosa que qualquer adolescente de quinze anos com namoradinhos e peguetes.

Ele era mais velho e deve ser um dos caras mais bonitos que já vi, por fora e por dentro. Despadronizem suas imaginações: ele não parecia com nenhum Brad Pitt (ainda é sinônimo de “gato”?), George Clooney (sempre gato), Cauã Reymond (quero) ou um hipster ctrl C + ctrl V (not today, Satan). Ele era uma mistura do boy de Mulan com aquele ator Freddie Prinze Jr no fim dos anos 1990 e começo dos 2000.

Para além de muito do bonito, o rapaz era doce, era educado. Era meio leso. Riso fácil, sorriso largo. Brincalhão, humor juvenil. Sem frescura. Atencioso, super atencioso! Suficientemente alto. Olhar jovem e simpático. Voz suave, gostosa, forte, de abrir as pernas de qualquer ser vivo, homem ou mulher. Sotaque: por-tu-guês. Sotaque português, quando compreensível, pode ser bem sexy. Aos quinze anos de idade, ninguém precisa de tantas razões assim pra se apaixonar ou pra ficar molhada lá embaixo. Ele era, portanto, um amor adolescente entregue de bandeja.

Não me considero exigente, mas não fui de me apaixonar muito na escola. Eu me apaixonava por um e vivia aquele amor platônico durante anos. Nada acontecia, nada aconteceu. Eu era intensa e fiel nas minhas paixonites infantis. Não tinha capacidade pra pagar de piriguete mirim, porém admirava quem era assim. Tinha amigas que mudavam de “amor da vida” a cada mês. Eu não conseguia, e sofria como uma Bridget Jones menor de idade por causa disso.

O cara por quem me apaixonei quando tinha quinze anos talvez tenha norteado o tipo de pessoa que realmente me interessava e me interessa. Na prática foram muitos completamente o contrário daquela primeira paixão, a começar pelo meu primeiro namorado. No fundo, tudo é processo: o que é bom e o que é ruim. Mas como diz a senhora minha mãe, tem coisa que a gente faz que nem é coisa “de gente jovem”, e sim de “gente burra mesmo”. Vivendo e aprendendo.

Dias atrás, enquanto escutava alguma música de Céu, lembrei dele, daquele cara por quem me apaixonei perdidamente quando tinha quinze anos. Sorri. Ele era e é, de fato, uma pessoa linda. Pensando nele e na sensação boa que pensar nele me proporciona, lembrei do meu atual “ele”, meu namorado, companheiro, amante. Meu homem – sem medo de dizer isso, porém ciente dos possíveis olhares tortos de quem acha errado feio absurdo careta antigo brega, tanto a expressão quanto a sensação. Tô feliz. Né isso que importa?

Ali, escutando Céu e lembrando de um passado bom, me senti ótima por estar com alguém tão massa quanto minha primeira paixão parecia ser, alguém que me merece e a quem eu consigo olhar e pensar “Finalmente”.

Eu sabia o que valia mais a pena aos quinze anos de idade do que aos vinte. Não acho ruim ficar com pessoas nada a ver, mas é que um dia a gente cansa. Houve sim um ou outro cara muito massa, especial de verdade, mas que não tivemos a oportunidade e o timing de ser mais do que fomos. Não me arrependo de nenhuma putaria, aventura, Tinder, amor platônico, paixão fudida, boy sem futuro. Hoje está tudo bem, devem estar todos bem, espero que estejam todos bem – e melhores. Mas uma dose de “já deu” é bom de vez em quando.

Não sei para onde vou com meu atual relacionamento nem quanto tempo vai durar esse ajuntamento, esse namoro, esse bem querer. Não importa. O que importa é que ficar com os certos faz muito bem pra saúde, para cútis, para o respirar, para acordar nesse mundo muitas vezes intragável.

O que importa é que, sabe, como diz meu amigo Diógenes: tô véa. É tão mais suave viver com quem nos faz bem, é tão mais gostoso estar com alguém com quem o sexo é de altíssima qualidade, é tão mais saudável estar com alguém saudável de cabeça (até então), é tão feliz estar com alguém que me faz feliz, é tão mais humano começar um relacionamento com alguém que não mede elogios, que não evita discar meu número, que não compete comigo, que não é babaca, que não age feito um moleque, que me trata bem, que me ouve, que não tem medo de mulher, que não tem medo de ser homem, que não é perfeito nem tenta ser,  que não se incomoda com menstruação, depilação, que lava minhas calcinhas, que é leve ou tenta ser leve apesar da bagagem pesada.

É bom estar com alguém que me faz sentir mulher, e não menina. Mulher, e não mãe dele. Mulher, e não filha. Mulher, e não buceta. Mulher e não bróder. Mulher, e não terapeuta. Mulher, e não irmã. Mulher, e não babá. Mulher, a mulher, não “mais uma”. É bom estar com alguém que me faz sentir gente, e eu não mereço nada menos que isso.


Escrito entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017


Imagem: fotografia do videoclipe Perfume do Invisível, feita por mim com o celular | Intérprete e protagonista: Céu | Direção: Esmir Filho


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Intimidade

Beijar é bom, transar é uma delícia, mas compartilhar nossa intimidade com alguém vai além. Intimidade não é com qualquer um. Intimidade – com amizades, com gente da família, com amores e desamores – não acontece sempre, não acontece todo dia e quando acontece, a gente sabe do que se trata. Intimidade intimida?

Intimidade é uma coisa tão linda, tão delicada e tão intensa que é encontrada nas sutilezas de uma relação, seja ela qual for. Intimidade é vivenciar um silêncio sem constrangimentos, assim como soltar um pum na frente do outro. Intimidade é ter a liberdade de falar pro outro do nosso íntimo, da nossa verdade, ou até nem falar e o outro entender. Intimidade vem com o tempo e com a sintonia. Intimidade pode tanto estar presente numa amizade que vem desde a infância quanto numa amizade que nasceu na vida adulta, num momento de conflito e transformação. Intimidade é uma das vivências mais preciosas que uma pessoa pode um dia sentir. Intimidade é para ser sentida.

Quando mais nova, acho que eu queria mais era experimentar, me jogar, saber como e por que. Me saciava com pegações, rapidinhas (ainda gosto), coisa e tal. De uns tempos pra cá o babado mudou. De uns tempos pra cá, me vi querendo o algo mais. Só não sabia nem onde nem como achar.

Lembro da primeira vez em que marquei de me encontrar com Pedro, uma pessoa com quem tenho ficado há uns meses e que me fez pensar sobre
intimidade. Quando marcamos esse encontro, já havíamos ficado e etc em outra ocasião mais inusitada, mas havia sido numa noite muito louca (e sem o uso do Tinder). Quando a gente marcou de se encontrar oficialmente, Pedro me ligou. O fato dele ter li-ga-do e não ter mandado mensagem me fez falar um “eita” em voz alta. Eita, isso é bom. Falar no telefone é bom. Escutar a voz. Saber mais ou menos a reação da pessoa quando a gente fala alguma coisa. Interpretar WhatsApp não é comigo: acho horrível, acho doloroso. Então nos falamos. Ele propôs um vinho, mas no final acabamos tomando umas cervejas mesmo. Só de ter proposto um vinho, também achei bom. Sejam mais criativos, rapazes. Vale a pena.

Com Pedro não tenho um relacionamento sério nem sei se teremos um dia. No momento, pensar muito sobre status de relacionamento mais complica do que ajuda. Mas com Pedro eu tenho intimidade: intimidade pra falar quando eu quero, intimidade pra não falar também. Intimidade pra dizer “ei, não gostei disso não”. Intimidade para não ter medo de mim com ele, nem medo de que ele pense que eu sou doida e não me queira mais. Cresci ouvindo que mulher é tudo doida, temperamental, ciumenta. Queria tudo isso longe de mim! Não queria nunca ser essa mulher, nem acho que eu seja. Mas acho que, para os homens, nós todas somos. Nem sei porque penso isso.

O sexo que tenho com Pedro é o melhor que já tive, disparado. Não teve uma vezinha sequer que tenha sido meio morno, meio qualquer coisa. O nosso encontro sexual antecedeu a construção da nossa intimidade e, com a intimidade que foi nascendo na rotina, na frequência com que nos víamos e até em viagem, o meu sexo com ele se tornou mais quente de afeto. Dormir com ele ficou mais gostoso, acordar com ele ficou mais gostoso, ficarmos abraçadinhos fez sentido.

Nem sei se tenho muito a ver com Pedro. Acho que não. A gente não tem as mesmas origens sociais, a gente não tem a mesma idade de jeito nenhum, a gente não tem histórias nem vidas parecidas e a gente só frequenta os mesmos lugares em João Pessoa porque é o que tem pra hoje por aqui. Mas intimidade não é necessariamente construída a partir de semelhanças, e sim de encontros: encontro do meu eu com o teu.

Eu e Pedro não somos um casal, apesar de estarmos juntos por aí vez ou outra, apesar de darmos as mãos quando nos sentimos à vontade. Eu e Pedro não vivemos num conto de fadas nem quero isso, gente. Eu fico de mal de Pedro; eu às vezes altero a voz – e ele diz “calma, não se altere” – mesmo ele nunca ter alterado voz ou qualquer outra coisa contra mim; eu mando mensagem bêbada reclamando de algo que me incomodou e a gente discute sobre isso sóbrios e pessoalmente. Eu às vezes me arrependo de ter desculpado ele, e depois penso “mas é tão bom quando a gente tá junto…”. Eu me engano também. Nada é perfeito. É um vai e volta, um liga, manda mensagem, um se ver sempre e outras vezes dar um tempo disso.   

Pedro tem um passado mais longo que o meu: ele é 12 anos mais velho que eu. Pois é, pois é. Ele tem um presente muito diferente do meu. Eu busco umas coisas, ele busca outras, sonhamos diferente, vivemos diferente. A Pedro, digo como estou me sentindo em relação a nós mais cedo ou mais tarde. Ele me pergunta isso frequentemente também. O outro mostrar abertura para tal coisa ajuda e muito. 

Pedro já me disse, lá no início do que temos hoje: “Sou carreira solo com participações especiais”. Mais para a frente eu disse a Pedro: “Essa sua frase de efeito, além de brega, te impede e me impede de estarmos abertos às possibilidades”. Conversamos, discutimos, refletimos, transamos sobre esse assunto e acredito que não tenhamos chegado a uma conclusão em comum. Mas isso foi conversado. Talvez ele tenha entendido o meu lado e eu tenha entendido o lado dele. De qualquer forma, essa frase é péssima, Pedrinho, não diga isso para as próximas.

Eu quero namorar. Eu quero me casar: uma, duas, três vezes. Eu quero ter filhos. Mas só um dia, quando todas essas coisas fizerem sentido (e, no caso dos filhos, quando eu tiver grana e tempo o suficiente). Não agora. Na verdade gostaria sim de estar namorando. Poxa, é tão bom… Não por querer repetir meus outros relacionamentos, mas porque quero viver um novo namoro, de boa, leve, intenso, gostoso, quero me apaixonar sem medo.

O fato de eu estar ficando com Pedro não significa que em breve vocês verão meu status do Facebook mudar para “relacionamento sério”, e eu vou sambar na cara da sociedade com o meu mais novo boy, e todos aqueles que não conseguem me ver namorando (de novo) vão pensar “Ohhh”. Calma, galera, ainda não é hora de preparar o bolão da minha vida amorosa e de quanto tempo dura a minha não solteirice.

Estar com Pedro não é um pré-namoro, nem sei se será. Nós ficamos com outras pessoas, ele até mais do que eu. Não estou mais usando o Tinder, mas ninguém sabe do dia de amanhã né. Não morri, não casei, não sou cega, não parei de me interessar por outras pessoas e meu tesão ainda está aqui.

Quando vi, pela primeira vez, Pedro acompanhado de outra mulher na minha frente, fiquei puta, fechei a cara, fiquei mal e mandei a real pra ele. Eu não gostei e não guardei aquele incômodo dentro de mim, eu compartilhei aquele incômodo, e acreditem: isso foi um grande passo para mim, uma mulher que evitava tocar em determinados assuntos por receio de parecer cobrança, coisa de gente controladora. A partir dali, determinamos algumas coisas na nossa relação que não precisam ser reveladas neste texto. Semanas depois eu que fiquei com outra pessoa e, nossa, foi incrível. Até cheguei a esquecer um pouquinho de Pedro, é bem verdade. Pena que o cara está em São Paulo mas enfim, fica o contato, né.

Até o dia em que escrevo o que vocês estão lendo, ainda estou com Pedro. Estamos juntos e quando nos juntamos, é lindo. Não sei se amanhã ou se depois deste texto ainda estaremos assim. Não sei mesmo. Eu posso me interessar um pouco mais por outro, podemos abusar um da cara do outro, Pedro pode até começar a namorar com outra pessoa (ah meu Deus, será?). Sei lá, tudo é possível né não. “Amanhã tudo pode acontecer, hoje a nossa vida é pequena”, diria o querido Fagner na música Cartaz. Adoro essa música, que inclusive diz que “Você me dá prazer, você me dá cartaz e tudo que eu preciso/ Se você vem comigo eu não choro mais”, que tem tudo a ver com o que temos a dois.

Independente do dia de amanhã, a intimidade que construí a partir da minha relação com Pedro vai ficar como uma lembrança das boas. Intimidade é também troca, e só fui ter segurança nessa troca com ele, até então. Depois de Pedro, não tenho mais medo de mim com um outro. De ser eu com um outro. De dizer o que penso pro outro. Quando você está numa relação em que tem medo de dizer algo porque tem medo que o outro queira acabar a relação – seja ela qual for – contigo só por você ter se expressado, é porque você está se podando, se medindo. E isso não é bom. Já estive nessa relação, já pisei em ovos por medo e insegurança, já fui essa pessoa ansiosa e triste ao mesmo tempo. Espero que não mais.

Não, Pedro não me libertou de mim mesma. Mas encontrei na nossa relação uma oportunidade de ser íntima, mais íntima do que eu já havia sido anteriormente com um outro alguém e isso foi acontecendo naturalmente, o que é ainda mais legal. Quero outras intimidades, quero muito mais. Não vai ser com todo mundo, não vai ser de propósito, calculado, não vai ser sempre bom. Não vai ser um conto de fadas mas sei que quando for para ser, quero que seja intimidade. Intimidade mais do que status, intimidade mais do que fotos, intimidade mais do que pros outros, intimidade mais para um nós: eu e tu, tu e eu. A intimidade, essa sim liberta.


Escrito em setembro de 2016
Ilustração emprestada da artista Inès Longevial encontrada aqui.


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Preciso dizer que te amo

Eu preciso dizer que te amo… Tanto. Mas quem será você? Quem você será? Mais difícil que te encontrar, é talvez saber que posso nunca te conhecer. Sei lá. Vai que era pra gente ter pego o mesmo ônibus João Pessoa – Recife naquele feriadão. Vai que, se eu tivesse ficado mais um dia em Barcelona, nossas vidas teriam se cruzado.

Você já existe? Você já existiu em minha vida? Você ainda vai existir? Por quantos e quantas eu ainda tenho que passar pra te conhecer? Será que a gente já se conhece? Acho improvável. Seria muito How I Met Your Mother da minha parte.

Você gosta de séries? Vai ser com você que terei os filhos que tanto sonho, num futuro um tanto distante da minha realidade? Ou você vai aparecer depois, já com seus filhos e eu com os meus, e a gente vai juntar todo mundo e ser feliz?

Espero que meus amigos gostem de você. Meus amigos são muito importantes pra mim. E você, tem amigos do peito? Tens amigos pra contar histórias lindas e constrangedoras sobre você?

Morar na mesma casa, será que rola pra gente? Queria que você falasse a minha língua, mas não precisa ser brasileiro não. Queria que você entendesse meu sotaque, visse. Ou que pelo menos achasse fofo meu jeito recifense de me expressar. Queria que você quisesse conhecer a minha infância: ela foi linda e emocionante. Conhecer a minha infância é também conhecer a minha rua, a do Chacon, em Recife. É minha mesmo, minha e da minha família. Hoje em dia os novos ricos do bairro vão dizer que não, mas eles não sabem o que dizem; chegaram depois com seus carrões e carões.

Espero que você goste de cachorros. Eu adoro cachorros! Sempre tive vários! Espero que você me ensine a gostar do frio, ou que compartilhe o amor pelo calor comigo. Vamos à praia, vamos! Praia de nudismo acompanhada: eu sempre quis. Uma prima minha tem uma pousada em Porto de Galinhas que eu vou desde criança e tenho vontade de te levar lá. A pousada é ao mesmo tempo família e romântica. Acho que você vai gostar.

Tenho medo de que você não goste do que eu escrevo, ou até pior: não queira ficar comigo porque escrevo. Aliás, se você não quiser ficar comigo porque escrevo, você não é você, e sim tantos outros. Sabia que um namorado que tive já me impediu de postar um texto? Foi, foi. Desde então me preocupo em escrever e acabar perdendo ou deixar de ganhar pessoas que gosto. Sei que no fundo eu não deveria me preocupar com isso. Sabe Érick, aquele meu amigo que se parece com Paulinho da Viola? Então, ele já me disse pra não noiar com isso. Ele até disse para eu postar o texto que esse meu ex namorado tinha impedido, mas eu não postei não. Acho que ainda era apaixonada por ele, infelizmente. Na verdade quem me impediu de postar o tal do texto fui eu.  O que esse ex namorado fez foi dizer “Não quero que você poste”, e eu, de burra e apaixonada, não postei. Que loucura. 

Será, rapaz, que você vai gostar de escrever também? Será que vamos escrever juntos? Ah, aí já é pedir demais, né não. Precisa mandar um homem desse não, Seu Deus. Um que não se incomode com o fato de eu escrever já tá de bom tamanho.

Gosto de quem me desafia. Você vai me desafiar? Sei que desafio pode ser confundido com competição ou com machucar o outro. Peço-te que não me machuque, por gentileza. Eu sofro muito, apesar de não parecer. Considero brigas, discussões, conversas, tudo isso aí necessário e saudável. Mas brigar por brigar não. Não tenho saco para isso, e acredite: ganho brigas como ninguém. É que uma coisa é o casal brigar, discutir e depois cada um ficar pensativo, tentar refletir e chegar numa solução juntos (nem precisa ser no mesmo dia). Outra coisa, meu querido, é um ficar ofendendo o outro de graça. Detesto ofensas. Não me ofenda, please. Se você pensou em me chamar de puta como ofensa, está errando em dobro: primeiro, porque sou puta MESMO. Segundo, porque se você acha “puta” uma ofensa, é porque não temos MESMO nada a ver.

Será que você é homem? Será que você é mulher? Será que vamos nos preocupar com isso?

Não precisa entrar pra grupo feminista no Facebook pra ficar comigo. Não precisa saber usar a palavra sororidade. Não precisa, meu amor, problematizar tudo. Só precisa me respeitar, respeitar minhas ideologias, respeitar meu caminho, minha história. Que o interesse pelas minhas bandeiras venha da forma mais natural que for possível pra ti.

Não precisa abrir a porta – do carro, da casa, do banco, do bar – pra mim e nem ficarei ofendida se você o fizer. Acho legal, acho delicado. Eu também abro portas para as outras pessoas. Eu também vou querer abrir portas para ti.

Gosto de museus, exposições, das caretas até as mais livres e contemporâneas. E tu, gostas? Adoro viajar. Vamos viajar juntos?! Gosto de ficar em casa também, sozinha ou acompanhada. Você me acompanha no meu tédio?

Olha, uma coisa que gosto mesmo é de mesa de bar. Se você tiver afim de me acompanhar, então, estamos feitos. Imagina eu e tu, tu e eu, numa sexta-feira pós trabalho, cansados e ao mesmo tempo animados com o primeiro gole de cerveja, rodeados de amigos queridos – meus, seus, nossos. Imagina, meu amor, como seremos felizes nessa sexta-feira.

Não precisamos estar sempre grudados. Grude é bom às vezes, mas lembra que sou de aquário. Você pode até nem acreditar em astrologia, mas sua amada aqui acredita e assina embaixo. Gosto de estar sozinha, e estar sozinha não significa estar solteira, disponível e à procura. Significa estar comigo mesma. Me deixe comigo que eu me resolvo.

Sabe uma coisa que adoro? Lin-ge-rie. Ah, Mas isso você já deve saber. Todo dia é um conjuntinho diferente, né não? Pode me dar lingerie, não vou me ofender. Gosto de me vestir assim pra você e pra mim também. Hoje em dia visto G embaixo e sutiã 46. É tudo grande mesmo, menos a cinturinha. Se eu estiver mais magra, é M embaixo e sutiã 44. A cinturinha permanece.

Você tem problemas com peso? Digo, não com o seu peso, mas com o meu. Eu não. Na verdade verdadeira, nunca ouvi nenhuma reclamação sequer partindo de alguém com quem já estive amorosamente e/ou sexualmente acerca do meu peso. De amigos gays e amigas mulheres já, centenas de vezes. Até que eles e elas perceberam que eu era firme nesse assunto e não ia me deixar abater pelos padrões alheios.

É, meu amor, sou uma pessoa bastante firme em alguns aspectos. Talvez por isso você goste de mim, assim espero. Não quero que você desconstrua meu lado empoderado, mas se quiser trazer leveza a ele, estou de braços abertos. Acho até que preciso.

Quero que você me leve para conhecer o seu mundo. Adoro conhecer outros mundos pelos olhos de quem os vive. Quero muito te apresentar aos meus amigos: eles também são minha família. Falando em família… Olha, a minha é um pouco grande. E barulhenta. Vovó até hoje bebe. Vovó vai querer conversar horas e horas contigo, mas eu te ajudo a dar uma escapulida dela. Vovó me ama muito. Você precisa entender isso, que sou neta criada por vó. Mainha precisa gostar de você. Mainha é a melhor pessoa do mundo, e se ela gostar de você, vai te tratar bem até demais. Tu precisa conhecer Milah, minha irmã mais nova. Ela é a Ivete Sangalo da família. Ela é uma figura. Ela também tem que gostar de você, porque ela me ama muito e eu amo muito ela.

Será que vamos votar na mesma pessoa? Será que você concorda que (Michel) Temer na presidência foi golpe? Será?

Sabe qual o sentimento que quero ter por você? Eu quero te olhar e dizer “PUTA QUE PARIU”, de tanto amor que vou sentir por tu. De tão massa pra mim e pra gente que tu vai ser. Eu quero ser massa pra tu também. Eu quero que tu me olhe hoje como tu me olhou da primeira vez: com sede, com surpresa, com intensidade. Mas agora com amor. Carinho. Paz. Eu quero paz! Eu quero sentir paz por alguém. É tão bom isso, né. Eu quero ser tua paz e tua euforia. Quero te deixar com saudade e ao mesmo tempo com segurança em mim. Não quero te provocar ciúmes, não. Mas isso não depende só de mim, depende de você também.

Será que a gente vai ter grana? Será que vai ser um perrengue só? Em que momento das nossas vidas nós vamos nos encontrar? Se a gente tivesse se conhecido antes, a gente seria? E depois, teríamos tempo de sermos quem somos? A gente já é o fim de nós mesmos?

Queria te ver envelhecendo, mas não sei quando seremos um pro outro. Queria ver tuas primeiras rugas, queria te causar rugas, queria que tu achasse as minhas rugas bonitas. Me elogia. Me elogia, vai! Não precisa ser sempre. Não precisa ser uma declaração de Facebook. Não precisa ser aquelas coisas de novela. Vamos acompanhar uma novela juntos? Uma das seis, que tal? Uma de época, bem romântica e brega. Vamos a um show de brega! Bora mesmo. Vai ser massa.

Espero que tu goste de Recife. É minha cidade, tu sabe. Espero que tu curta João Pessoa. A gente vai pra lá de vez em quando, ok? Espero que tu goste tanto de silêncio quanto de falar. Espero que tu goste de escutar também.

Penso em adoção, você não? Vamos conversar sobre isso. Quero muito ficar grávida, com barrigão, acho lindo. Engravida comigo. Teremos filhos lindos, ou então só um tá bom. Mas não agora, meu amor. Agora eu tenho que me criar, para depois poder criar um filho contigo. 

Quero poder te olhar e rir de todos aqueles que não foram. Quero poder te olhar e saber que você é o cara. Ou a mulher. Ou sei lá. Quero achar que você não é você, mas vocês. Não é possível que só tenhamos um grande amor na vida. Será mesmo, amor? É viver para crer. Quero sentir que você é você, tu é tu, nós somos nós.

Queria que você existisse, assim ou assado, e que a gente se encontrasse de um jeito ou de outro, por aí ou por aqui. E que então, nesse momento do começo de nossas vidas enquanto nós, eu olhasse pra tu, tu olhasse pra mim, e a gente dissesse (só pra gente mesmo): finalmente te conheci, meu amor. Porque demorasse tanto tempo?


Escrito em setembro de 2016
Ilustração feita especialmente para este texto: Gabriela L’amour.
Sugestão de trilha sonora para o texto, pós-texto e qualquer pretexto de amor: Eu Preciso Dizer que Te Amo, por Dé, Bebel e Cazuza.

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A Faxina

Ilustração: Guilherme Lira

Escrito em março de 2016


Cheguei à conclusão de que minha pepeca anda mais exigente que minha cabeça. Quando saio à noite tento convencê-la de ser atirada, de demonstrar interesse pelas pessoas, de querer competir com as pepecas amigas, e ela nada. O caso não é de falta de libido nem de falta de vontade. O caso é de falta de alguém que acenda nela a libido e a vontade.

Se você me viu por aí olhando pra baixo como se procurasse alguma coisa, você não está louca(o); provavelmente eu estava tendo uma DR com minha vagina, e ela ganhou. Ela costuma ganhar, mesmo quando no final das contas quem perde sou eu.

Já ouvi falar de que sexo, mesmo quando é ruim, é bom. Minha pepeca era dessas. Para ela, era sempre bom. Algumas vezes, nos tais dos dias seguintes, eu olhava pra minha pepeca e dizia “gata, tem certeza que valeu a pena?”, e ela sempre tinha mais certeza do que eu. Agora, amigos, o jogo virou. De tão certa, talvez minha pepeca estivesse errada. Mas vou dar um desconto chamado maturidade, que era coisa que ela não tinha.

Podem achar que é mentira, mas vou dizer que é verdade porque 70% do que vou dizer é verdade mesmo: tenho invejado as amigas que tem feito merda na vida amorosa-sexual. Era tão bom fazer merda. Eu era jovem, feliz, inconsequente e selvagem. Eu pensava que DST e gravidez era coisa que acontecia com os outros. Aliás, nem pensava nisso assim seriamente, e meu santo foi forte o suficiente pra evitar que qualquer tragédia acontecesse.

Quando minha pepeca dizia sim com frequência, eu não tava nem aí pro que os outros iam achar. Os outros sempre serão os outros, independente do assunto e da vítima. Também não vou chegar aqui e dizer que sou uma mulher de zero arrependimentos no assunto “homens”. Tenho arrependimentos sim, mas faz parte. Talvez seja isso. Os arrependimentos – ou aprendizados – me fizeram mais exigente, ou menos “num tem tu, vai tu mesmo”, sabe? Nem eu sei.

Independente de pepeca exigente, o vibrador se faz presente. Ele é o melhor contato do zap zap, até porque nem zap ele tem e sempre está disponível. Ele não faz joguinho nem quer que eu faça. Ele nunca amolece nem tem problema de ereção. Ele vibra em dez velocidades e dá espaço para a imaginação. Se existisse um perfil desse no Tinder, eu daria um superlike. A invenção do vibrador não foi à toa, minha gente. Vamos aplaudir esse bem para a humanidade, essa tocha da liberdade sexual, esse totem da siririca. Amém. 

A exigência que minha pepeca tem dado para picas novas e antigas tem sido proporcional à exigência que ela dá para outras pepecas. Costumo dizer que a cada várias mulheres, me interesso por uma e nem sei ao certo o que fazer com isso. É o que está acontecendo com os caras. Ô inferno. Poucos meses atrás – meses!!! – eu ainda tava topando me divertir, mesmo que fosse com alguém bem mais ou menos ou que eu fosse me foder no final (no mal sentido). Me foder tanto por me arrepender de ter perdido tempo com alguém nada a ver ou por estar gostando mais do cara do que ele de mim. 

Daí baixou um santo do “só me interesso por gente que aparente ser do bem/que me faça bem/que me dê bom dia ao invés de ir direto ao ponto/que tope um cinema sem confundir o convite para um filme com um pedido de casamento”. Bateu uma onda forte de “não sou obrigada” que tem sido interessante de se observar.

Quem me lê pode chegar a pensar que os textos que escrevo não tem serventia pra ninguém, mas pelo menos pra mim tem. Recentemente escrevi um texto sobre padrões bem nada a ver que nós, mulheres, nos submetemos. Não falei exatamente de padrões de beleza (ninguém aguenta mais isso), mas de comportamento, de existência. E no texto eu mostrava como esses padrões são do mal, são enfiados goela abaixo e às vezes a gente nem se dá conta. Acreditem se quiserem, mas depois desse texto me senti quilos do que não presta mais leve. Me senti assim, sem grandes preocupações em relação a como eu deveria ser, sabe. Não diria que me senti mais livre, mas me senti mais leve, porque padrões pesam, e a gente gasta muito tempo e energia com eles. Se eu fosse tatuar esse momento da minha vida, tatuaria um “foda-se” na testa.

Às vezes fico com medo da exigência mental e pepecal ter chegado como consequência de traumas e situações desagradáveis que já passei. Nem foram tantas, foram poucas. Eu poderia fazer textão sobre cada uma delas. Eu poderia ganhar mais popularidade em cima de pautas quentes do feminismo como ghosting, essa coisa de mulher pra trepar versus mulher pra namorar, caras que não aceitam “não” como resposta. Escolhi não falar sobre isso agora, ou falar sobre isso depois, ou falar só pros mais íntimos mesmo. É que quando uma coisa ruim acontece, anula três muito boas. Isso acontece com tudo nessa vida, e deveria ser o contrário.

Administrar uma pepeca exigente e inteligente tem sido difícil porque eu gosto de pessoas, gosto de conhecer pessoas, gosto de beijar pessoas, de trepar com pessoas, de fazer amor com as pessoas que amo. Pessoas me dão tesão de ser uma pessoa também. Mas também enjôo das pessoas, pego abuso, crio nojo, as pessoas mudam, as pessoas se disfarçam, as pessoas sentem inveja, eu também sou uma pessoa. O horóscopo da minha pepeca deve estar mais ou menos assim “em estado meditativo acerca das picas que aqui estiveram, e abrindo portas para melhores picas (quiçá pepecas) que estão por vir”.

Uma pessoa que me ama muito recentemente me disse que talvez eu esteja passando por uma fase de faxina. Adorei essa palavra.

Recentemente também comecei a praticar meditação, com professor e tudo. Coincidentemente o professor de meditação falou que, através do ato de meditar, a gente também passa por uma fase de faxina. Ele disse que meditação não seria quase dormir e ficar fazendo “Ommmm”. Meditação é despertar, é acordar para coisas que a gente adormece quando vive no automático. Todos nós vivemos no automático em algum momento. E nesse despertar, muita poeira que estava debaixo do tapete das nossas vidas pode surgir, pode levantar e afetar alérgicos como eu. Atingir a fase em que se sobrevive à poeira e se consegue ver tudo com mais clareza seria uma consequência da consciência meditativa.

Ainda não sei se a palavra certa para definir essa fase em que estou passando seria “encalhada” ou “fazendo faxina dessa vida”. Chamem-me de encalhada, que eu direi “será? então tá”. Também não boto fé que, após essa fase, tudo serão flores e um príncipe ou princesa vai bater na minha porta e seremos felizes para sempre. Ainda tenho três casamentos, filhos, perrengue, paz, caos, alegrias, viagens, pobreza, riqueza, três divórcios, muitos namorados(as?) e faxina pela frente.

Faxinas são feitas de tempos em tempos. Todo mundo tem sua fase de sujar, de acumular, de espirrar, de tomar um anti-alérgico, de limpar e de ser feliz. Nas faxinas, descobrimos aquela foto daquele dia, aquele papel de bombom atrás do sofá. Com as faxinas, descobrimos que ali existe uma casa que deve ser cuidada. Faxinas são mais que necessárias. Elas deixam a casa bonita e habitável para quem mora ali e para quem for convidado a entrar.

– FIM –

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Minha Vida, Suas Regras (até quando?)

Escrito em fevereiro de 2016

Uso Tinder desde 2014. Já deixei de usar por meses, vez ou outra volto, vez ou outra deleto minha conta.

Tinder é uma ferramenta ótima para os(as) tímidos(as), preguiçosos(as), pra quem prefere ficar assistindo Netflix num sábado à noite e também pra sondar quem tá solteiro(a) na cidade e quem tá botando gaia em quem.

Não demonizo o Tinder; acho o aplicativo uma invenção que combina com o nosso tempo, que faz sentido, que pode dar muito certo e que pode dar muito errado, assim como a vida real. Fico de saco cheio do Tinder mais do que faço uso dele, mas é só viajar pra qualquer lugar que não seja João Pessoa – e que eu passe um tempo curto – para eu me reapaixonar pelo Tinder e reacender a sua necessidade no meu coração e na minha pepeca.

Estava no Tinder esses dias selecionando fotos pra colocar no meu perfil.

“Essa já tá velha… Essa tá sexy demais… Essa tem que ficar, porque tenho que mostrar meu sorriso… Essa… Essa tá muito de Humanas, os caras que não são de Humanas vão achar muito de Humanas… Essa é boa: estou de biquíni mas sem mostrar muito… Será que vão pensar que sou gorda? Aliás, estou gorda, mas será que vão pensar, nesta foto, que sou gorda demais?”.

Entre um match (combinação com a pessoa que você deu um “like”/curtiu) e outro, comecei a falar com um cara. Eu que puxei o papo.

“Será que ele vai pensar que sou oferecida demais? Eu deveria me preocupar em ser oferecida demais? Eu sou oferecida demais? O que é, neste ano de 2016, na cidade de João Pessoa – PB – Brasil, ser oferecida demais? Marina, você não é oferecida demais, você é Marina demais, vá em frente, bicha!”.

Ele respondeu. E a gente continuou a conversar besteira e trivialidades do tipo “o que você faz?”, “mora onde?”, “curte o que?”. Nessas horas, as experiências dos meus amigos gays nos aplicativos do mundo gay parecem bem mais divertidas. Eles contam que a pergunta “passivo ou ativo?” é constante, e a troca de nudes é natural. Já troquei várias nudes no mundo hétero, e hoje em dia fico com receio porque o mundo hétero, pra mim, é tipo o Brasil: meu lugar, porém tenho medo.

Daí, depois de trocar informações básicas com esse boy do Tinder, ele parou de responder – ou de acessar o aplicativo, ou enjoou da minha cara, ou tinha mais o que fazer. Não importa. A conversa tá lá em aberto e ele pode responder amanhã ou em 2018. E eu posso deletar a nossa conversa do Tinder e ele da minha vida a qualquer momento. E posso também fazer isso com caras que me desinteressam, ou que me assustam ou que revelam qualquer coisa que eu não aprecio; ou eu posso simplesmente arrumar coisa melhor pra fazer.

Quando ele parou de responder, lá fui eu novamente ver minhas fotos do perfil no Tinder.

“Será que esta imagem fez ele pensar que eu era decidida demais? Será que nessa outra aqui eu estou feliz além da conta? Será que nessa meu bronze ficou estranho? Será que eu preciso emagrecer pra tirar fotos de corpo inteiro? Não, não, foto de corpo inteiro tem que ser muito bem pensada porque posso ultrapassar a linha do sexy e chegar no vulgar. Será que eu deveria colocar meu signo no meu perfil? Os caras não ligam pra signo. As gays sim. Se houvesse um Tinder “encontre sua gay” eu ia dar match com todo mundo, ia ser lindo e íamos todos(as) viver felizes para sempre. É melhor eu deletar meu Tinder – novamente – e dar um tempinho disso… Mas em João Pessoa os caras são moles demais, vou ficar na seca se partir pra investidas reais…”.

Ave Maria Madalena, me ajude a ser puta nessa cidade, porque não está sendo fácil. Ou será que só sou eu? Ah meu Deus, o problema sou eu mesma… Será que mudando essa foto aqui…

Porra.

Sério que eu, EU, logo eu entrei nessa nóia? Sério que me dei a autorização para me submeter a esse tipo de insegurança? Sim. Noiada sim, insegura sim. O que fazer agora, que assumi essa fragilidade para mim mesma?

Passam-se os dias e posto no meu mural do Facebook uma crônica que li na Folha de São Paulo sobre feminismo e desunião entre as mulheres. O texto tinha em destaque a seguinte frase de efeito: “sua vida, suas regras”, uma ótima releitura da atualmente clichê e sempre necessária “meu corpo, minhas regras”. Um colega homem curtiu e comentou minha postagem. Ele relatou que durante a leitura da crônica em questão, lembrou de que muitas vezes nós mulheres julgamos umas às outras através dos olhos de um homem (namorado, peguete, entre outros), propagando machismos e alimentando essa danada da comparação, o que gera a nossa velha amiga: a competição.

Um insight me veio na hora. Valeu, André!

Ele não falou novidade nenhuma. Todo mundo sabe disso. Eu sabia mas havia esquecido, ou então escolhi esquecer. Não é apenas comum da gente que é mulher julgar e analisar outras mulheres através do ponto de vista masculino, por muitas vezes machista, como é mais comum ainda julgarmos e analisarmos nós mesmas pelo ponto de vista dos caras e/ou do machismo, ou do que a gente acha que os caras e o machismo vão achar da gente. Queremos tanto agradar os homens (quem são esses homens???), que acabamos pensando como um na hora de nos agradarmos.

Isso. É. Muito. Preocupante.

Todo animal, de qualquer espécie, sabe que na tal da dança do acasalamento, um se exibe pro outro com o que tem, com o que pode. Em algumas espécies, a fêmea vai atrás do macho, em outras, a fêmea fica lá de boa e o macho vai atrás dela, todo exibido. Na nossa espécie, machos vão atrás de machos, fêmeas atrás de fêmeas, e na relação macho/fêmea uma lei superior e vinda do além diz que “a melhor fêmea é aquela que se arruma pensando no que o macho vai pensar dela, ao mesmo tempo em que deve aguardar o macho chegar nela”. E o macho que chega lá e a conquista é o tal do príncipe encantado.

Olha, se existe uma lei que merece ser abolida, seria essa do modelo de mulher que nós, mulheres, devemos seguir.

Em qualquer relacionamento, ao menos nos mais comuns, a gente quer agradar o nosso par – trio, quarteto etc – e também quer ser agradado de volta. Isso é massa, isso é saudável, isso é natural.

Tenho uma amiga que me criticava por eu comprar e usar lingerie lá nos meus 18 anos. Nem era lingerie, eram só umas calcinhas mais fininhas, na época. Eu usava pra mim, e se por acaso rolava um boy no dia, usava pra mim e com o boy. Nunca me senti mal por isso, mas essa amiga tentava, através do seu julgamento, me fazer sentir culpada ou envergonhada. Coitada. Anos depois, vejam só, a mesma amiga veio me perguntar onde que eu comprava minhas lingeries (a nível de curiosidade, era na Marisa).

A gente não tem que se culpar por se amar ou por querer se exibir pro outro. Faz parte! Mas existe aquela linha tênue, que é a do limite do “não sou obrigada”.

Tive um boy na época em que fazia intercâmbio na Austrália que se depilava 100% (pernas, axila, área genital, tudo) e queria que eu me depilasse 100% também. Eu estava sempre me depilando e deixando os pentelhos no modelo “bigodinho de Hitler”. Um belo dia ele me falou que queria que eu ficasse lisinha, sem nada lá embaixo. Acontece que eu não queria. Cheguei na casa dele e ele falou “Ah, mas você não se depilou?….”, fazendo cara de desolado. Eu falei “Me depilei sim, esta é a minha depilação íntima”. Se ele não me quisesse mais, o problema era dele. Eu iria pra casa e ponto final. Tchau. Mas ele quis, claro, e ponto final também porque essa história fica pra outro texto.

O que quero dizer é que, neste momento em que eu e o boy discutimos a minha depilação/nossa relação, limites foram impostos e eu não me submeti a essa exigência dele. Imagina terminar qualquer coisa que a gente tinha por causa de uma depilação.

Mas não é sempre que funciono sendo dona de mim. É uma corda-bamba conseguir equilibrar o que a gente acha legal, bonito, interessante do que o que a gente pensa que os caras vão achar legal, bonito, interessante.

Sempre tive plena noção de que não sou a tal da mulher perfeita, aquela mulher perfeita que dizem pra gente que existe por aí. Já escutei algumas vezes que eu seria essa mulher perfeita sim. Sabe quais itens entravam na lista dessa perfeição? Ser gostosa, bem-humorada, vaidosa, sem frescura e gostar de sexo. Sim, essa sou eu, e não, não sou só isso. E às vezes não quero ser nada disso. E estou longe de alcançar outros combos de ideais que dizem que a gente tem que ser meiga e sensual, maternal e um furacão na cama, sensível e determinada. Esses ideais existem, nem sempre são explicitados e o implícito é o mais preocupante e perigoso. Aquelas regras que todo mundo sabe, mas nem todo mundo confessa. Isso é uma merda porque alimentamos isso, nos comparamos com isso, vivemos para isso.

Até hoje não sei porque é considerado normal olharmos para nós mesmas com os olhos desse homem que a gente criou (ou que impuseram para nós).

Dizem que homem gosta de mulher que tem carne, que tem onde pegar; mas tem homem que acha a coisa mais linda do mundo uma magrinha, uma toda retinha. Dizem que as mulheres gordas estão acima do peso e devem emagrecer pra ficarem bonitas e socialmente aceitas (e, como consequência, atrair os homens). Mas tem homem que não liga pra isso, ou liga tanto que prefere as gordinhas, cheinhas, gordas. Dizem que mulher sem maquiagem é sinal de descuido e que ela deve “se cuidar”. Dizem também que usar batom vermelho assusta os caras porque 1. a mulher fica com cara de decidida/dona de si 2. o cara não vai querer beijá-la e ficar com a boca cheia de batom. Dizem que devemos ser delicadas e flertar bastante somente à distância, aguardando o rapaz ir falar com a gente; mas tem cara que adora mulher que chega nele e mostra a que veio. Dizem que mulher de salto é sempre melhor, mas também dizem que mulher mais alta que o homem não pode.

Dizem tanta coisa e a gente aceita tanta coisa e reproduz mais ainda, e esse ciclo vicioso do mal não acaba nunca porque a gente tá nele, girando girando e girando e tentando ser sexy sem ser vulgar, inteligente sem ser inteligente demais, líder sem ser durona, mãe sem ser só mãe, fofa sem ser frígida, puta na cama sem ser puta na vida, emagrecer sem ficar esquelética, engordar sem ficar gorda, falar sem gritar, usar roupa curta sem mostrar a calcinha, ser engraçada sem ser muito irônica, empoderada sem ser grosseira, gostar de sexo e se envergonhar por gostar de sexo, não gostar de sexo e se envergonhar por não gostar de sexo, sonhar com o grande amor da vida sem poder assumir que está sim sonhando com o grande amor da vida, ter filhos e não ficar acabada demais, não ter filhos e não ficar acabada demais, beber mas não ficar bêbada… Basta! Que saco ter que ser assim. Que saco ter que aceitar as coisas assim só porque a tal da sociedade diz que é pra ser assim. Que saco, em pleno 2016, século XXI, eu me noiar desse jeito, e ter noiado outras mulheres, e me deixar ser noiada também.

Está mais do que óbvio que essa “sociedade”, esse “dizem que”, esse “eles”… Esse “eles” é um cara, esse “eles” é aquele cara que infelizmente existe, aquele cara que a gente criou e bota fé nele, alimenta ele, escuta ele, assina embaixo tudo o que ele diz. Esse cara é um monstro. Nós estamos, há séculos, criando monstros. Não quero mais criar monstros em mim, ou projetar monstros nos outros, ou aceitar a monstruosidade alheia.

O que falei neste texto não parte de achismos, e sim de coisas que vi e vivi ao longo dos anos. O que falei neste texto é baseado em testes da Revista Capricho durante minha adolescência, em términos de namoro, em conversas com minhas amigas, em conversas com boys, em desabafos de Facebook, em comédias-românticas norte-americanas, em novelas brasileiras, em inseguranças minhas, em certezas minhas, em inseguranças de pessoas que amo e de pessoas que não amo. O que falei neste texto é tão cotidiano quanto escolher foto pra colocar no perfil do Tinder e tão sério quanto se submeter aos monstros que a sociedade criou e que a gente ainda dá de mamar.

 

– Sugestão de trilha para o texto ou para o pós-texto ou para aqueles momentos de “foda-se” mais que necessários, porém cheios de estilo: Fuck You, por Lily Allen –

 

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Fica

Escrito em maio de 2015


“Você sai e não explica

Onde vai e a gente fica

Sem saber se vai voltar” (Fica, por Chico Buarque de Hollanda)

Ficar talvez seja algo mais corajoso do que casar. Eu falo isso porque não tenho ideia do que é estar num casamento, e sim alguns ideais do que é ficar. Hoje.

O conceito de “ficar” acredito que possa variar entre trocar uns beijos, fazer sexo e fazer sexo com frequência com uma determinada pessoa. Para mim, beiçar é beiçar e sexar é sexar. Quando eu digo “fiquei ou to ficando com fulano” é porque já passamos do nível boca-a-boca. Sendo bem sincera, nunca tive muita paciência para ficar só nos beijinhos: quando chego a essa etapa, é porque muito provavelmente chegarei aos outros níveis do jogo. Também passei da fase “vou pegar geral na festa”. Na verdade essa fase nunca me atraiu, e não lembro de ter ficado com mais de uma pessoa num lugar público.

O conceito de “ficar” que vou desenvolver aqui é outro. Estou falando de “ficar” no sentido de “chegar e não ir embora, pelo menos não agora”.

Não acho a vida de solteira(o) uma maravilha, tampouco a solução ou a origem dos meus problemas e dos problemas do mundo. Acho, sim, sem dúvidas, que aprender a ficar consigo mesma(o) é a solução para a grande maioria esmagadora das  questões dos solteiros, dos casados e dos enrolados. Ser solteira sempre combinou muito comigo porque eu aprendi que a solterice está ligada à liberdade, e isso é algo que eu devo desaprender.

Também não relaciono a vida em casal a algo superior à vida de solteira(o). Entre todos os casais de amigos que estão atualmente juntos, conto nos dedos de uma mão aqueles em que eu me espelho, aplaudo, valorizo e assino embaixo. Não está fácil para ninguém.

Feita esta introdução não muito breve, já posso assumir que tenho na bagagem uma pluralidade de machos e situações. Pluralidade no sentido de variedade, e não necessariamente de quantidade. A partir das minhas experiências com esses caras, eu pude descobrir – e tenho descoberto – o que me atrai nas pessoas, o que eu abomino nas pessoas, qual a posição sexual mais prazerosa para os envolvidos, o que eu espero de um relacionamento e o que eu desejo de uma noite e da manhã que se sucede.

A arte do desapego é uma constante na vida dos solteiros e solteiras. Equilibrar a vontade de “dar só uma trepadinha” com a curiosidade – e risco –  de conhecer aquela pessoa melhor é um desafio. A gente não sabe até que ponto é “normal” mandar mensagem, trocar nudes, dar likes no Facebook e Instagram alheios, falar da família, dos boys e boyzinhas anteriores, transar no primeiro encontro, não transar no primeiro encontro e manter contato. Eu até hoje não sei, e continuo conhecendo gente nova e fingindo que mal conheço gente que já passou por mim.

Quando eu era mais nova, ouvia dizer que estar solteira era massa. Hoje em dia o que mais escuto, leio e vejo é que está muito difícil encontrar alguém massa: homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais e todos os etceteras que envolvem orientação, gênero, gosto, momento.

Talvez o que esteja ocorrendo é o que dizem que ocorre em guarda-roupa de mulher: de tantas opções, achamos que nenhuma seja a ideal. O meu guarda-roupa já foi assim.

Se eu abrir a boca para dizer que “tá faltando homem no mundo”, acabarei me engasgando. Assim como discordo de que “tá sobrando mulher”. Não é porque a mulher está solteira que ela está disponível para você, e não é porque “todos os homens interessantes estão namorando/casando” que não exista um solteiro massa em algum lugar para além do Tinder.

Existe, minha gente. Existe. Eles e elas existem. Nós existimos. O problema é que nem sempre essas pessoas ficam (na cama, na casa, na vida).

Ficar não quer dizer “casa comigo”. Ficar pode ser um “fica mais um pouquinho”.

Já sofri muito com a distância. Deixei para trás alguns boys massa que ficaram eternizados numa noite ou num relacionamento por causa dela. Eu sei que existe a chance de uns lerem este texto, mas não sei se os caras interessantes em questão vão entender que eles são os caras em questão. Eu espero que os que dominam a língua portuguesa se reconheçam.

Tenho a (in)felicidade de constatar que fiquei com algumas pessoas que eu queria ter ficado um pouco mais, ficar ficando, ficar abraçadinha, ficar para conhecer pai e mãe. Algumas ficaram no passado, outras ficaram nos países em que as conheci, e outras seguiram viagem.

Tive um cara que me pediu para ficar mesmo sabendo que eu iria de qualquer jeito, e eu fui com o coração na mão. Tive outro, em especial, que enquanto eu me vestia para ir embora me puxou de volta para a cama e disse “fica, você não tem compromisso hoje”, e o meu compromisso era o de não querer ficar, mas eu acabei querendo e mesmo assim eu fui. Esses quereres me perturbam até hoje.

Ficar talvez seja algo mais corajoso do que casar. Quem se atreve a tamanha bravura?

“Quem sabe um dia

Por descuido ou poesia

Você goste de ficar”

 

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O Jogo

Escrito em outubro de 2015

Ilustração: Gabriela Amorim.

 

Eu sei que ser amada(o) é bom demais. Mas olhando para trás e para o presente, sinto que também faz bem a gente se envolver, se apaixonar e até chegar a amar sozinha(o). Reciprocidade é um dos sentimentos mais confortáveis que já senti, mas se jogar num sentimento que cabe na imensidão que a gente guarda lá dentro é libertador.

Como medir uma paixão, um amor, uma entrega? Não fabricaram ainda fita métrica que seja capaz de tamanha precisão e ousadia.

Eu observo muito as amigas e pessoas conhecidas que pulam de um relacionamento para outro, sem grandes interrupções. Me perguntei váááárias vezes: sou eu que amo menos, ou sou amada de menos, ou escolho demais, ou me jogo menos, ou me preocupo de menos, ou sou menos que elas, ou, na verdade, sou demais para alguns?

Nunca esteve nos meus planos chegar aos 23 anos dizendo “já namorei com 5 pessoas diferentes, num total de 10 anos sendo namorada de alguém”. Muito menos chegar aos 23 anos dizendo “namoro com o mesmo cara há 8 anos, até perdi a virgindade com ele; atualmente estamos noivos”. Não me reconheço em ambas as afirmações.

Eu sei que a forma de contabilizar relacionamentos nos dias de hoje – ano de 2015 – Brasil – Mundo, é pelo status do Facebook. É sim. É sim. É sim. É sim, e ponto. É sim que a gente atualiza, curte, comenta, julga, manda inbox, fica desiludida(o), fica feliz. A gente vive o relacionamento dos outros e também convida os outros para viverem (ou seria “assistirem”) os nossos.

Acho in-crí-vel quem manda indireta amorosa/sexual pelas redes sociais. Simplesmente sou fã porque eu nunca fiz isso nem acredito que seria capaz. Uma menina maravilhosa chamada Kristyellen virou celebridade da internet ano passado ao postar o seguinte tweet:

“ñ quis mim beja na 5a serie e agora vem aki em casa pedi pra compra sacole fiado parese que o jogo virou ñ eh msm” 

O que eu tenho a dizer sobre essa menina é: parabéns.

Mas trazendo para a vida real, de carne e osso e decepções, essa nóia do jogo virar é, olha, uma bosta, viu. Não sei como, mas cheguei numa fase que deve durar uns 3 anos, por aí, em que eu comemoro mais quando eu fico interessada em alguém do que o inverso. E isso não contribui em nada para meus status do Facebook ou para “o jogo virar”. 

O jogo vira quando a gente não precisa mais jogá-lo. Acho que essa frase de efeito resume o que eu estou tentando dizer com este texto.

No início deste ano conheci um boy (boy = rapaz que a gente se interessa por razões que podem ser físicas e/ou intelectuais; um ficante, um namorado, um cara com quem a gente esteja em determinada época) que nitidamente jogava com ele mesmo. Talvez ele jogasse contra ele mesmo. Contra deve ser a palavra correta. E um belo dia eu perguntei: – Mas com que finalidade tu vai ficar jogando teu próprio jogo? A troco de quê?

Ele tinha ou tem sede por experiências, por quantidade, por diversidade, por mulheres e por muitos plurais. Eu já fui esse cara, mas num nível mais leve. Sou bastante curiosa e felizmente não me sinto envergonhada em assumir que, assim como muita gente nesse mundo, eu gosto de sexo. Na verdade me envergonha saber que o assunto ainda cause tanta vergonha.

Ao mesmo tempo, penso que com o tempo a gente enjoa de ficar com um monte de gente, ter uma lista de contatos mornos no Whatsapp, usar Tinder e companhia, sair e encontrar com todos os ex-boys de 2012 na mesma festa.

Jogar esse jogo cansa. E eu entendo que, por essas e outras, existem pessoas que se relacionam com o mesmo par para o resto da vida ou até com vários pares sem parar – sem nunca ter um tempinho para respirar, ficar quietinha, solteira, sozinha – pelo cansaço que é entrar para o jogo. Eu entendo mesmo e espero nunca ser assim: ou uma relação eterna ou uma atrás da outra, fugindo da palavra “solteira”. Se eu seguir essas regras, estarei abrindo mão de algo tão importante quanto se relacionar com o outro: o meu relacionamento comigo mesma, e, (in)felizmente, eu tenho sido bem fiel a esse status. Eu sei que é suicídio amoroso da minha parte. “Mas Marina, que vida triste é essa que você valoriza tanto estar só?”. Isso sou eu perguntando a mim mesma, ok? Ok.

Comecei este texto com uma questão em mente: a gente precisa estar namorando/casando para estar envolvida(o)? A partir dela, lembrei das vezes em que me apaixonei enlouquecidamente, ou me envolvi emocionalmente com pessoas que nem sempre correspondiam ao que eu sentia dentro de mim (ou nem souberam). Não foram tantos assim, vai. Eu sou novinha, dizem. Mas valorizo esses momentos, essas fases, esses sentimentos. Era verdadeiro, eu estava lá para provar. E foi muito bom.

Quando acaba um relacionamento, uma grande paixão, um amor, eu sempre ativo meu lado novela mexicana e penso “Ó, céus, nunca mais sentirei isso por ninguém na minha vida”. Eu sofro só de não estar mais gostando de alguém, porque gostar das pessoas é bom demais, vocês não acham? Claro que quando é recíproco, é tipo ganhar na loteria. Mas gostaria de reacender a chama da “jogação”, do gosto em gostar por gostar, e não porque a pessoa gostou da gente primeiro. Se não der certo, não deu, partimos para outros e outras. Por mais que o “jogo não vire”, por mais que o status do Facebook não mude. Sei que dói, mas existe todo um mundo para além de uma atualização pública de status de relacionamento.

Uma amiga minha não se envolvia emocionalmente com ninguém desde o último namorado e então começou a gostar de um cara. Antes dela se declarar pra ele, ele veio com aquela sinceridade que dói, mas melhor com ela do que sem ela:

– Desculpa, mas estou em outro momento da minha vida.

Numa semana ela me disse “Fiquei feliz por ter me aberto a mim mesma e assumir que eu estava gostando dele”. Na outra ela nem o cumprimentava quando o encontrava. Dia desses ela o reencontrou, cumprimentou e depois falou “É muito bom revê-lo e ver que não sinto mais nada”. Isso é se jogar! Isso é se reinventar!

O jogo vira mesmo nessas horas em que a gente se liberta dele e sente o que tiver que sentir, sofre o que tiver que sofrer e se joga de verdade.

 

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Ilustração: Guilherme Lira

O Tamanho do Documento

Ilustração: Guilherme Lira

Escrito em abril de 2014

 

Não é de hoje que o comprimento e largura são assuntos em pauta. Homem fala sobre isso; mulher fala sobre isso; menino fala sobre isso; algumas meninas nem sabem ainda o que é isso; sua avó sabe analisar isso.

Quantos caras não se sentem um pinto no lixo quando tem seus membros avaliados com sucesso? É um prazer para eles engrandecer o seu ego sem braços. Será que é um prazer também para as portas e janelas que recebem essas visitas? O tamanho – realmente – faz diferença?

A diferença já está no tamanho. Não só no comprimento mas na largura, em especial. Bem especial. Há também a diferença entre os ovos. Há também a diferença entre cores, carpete e cortina. Seja por crença, saúde ou precaução, os capacetes também são diferenciados.

E o mais importante: há a diferença de cabeça. Não a cabeça do pênis e sim o que encabeça o dono do pênis.

Você já teve o desprazer de transar com um cara imbecil? Eu já, mas mais imbecil ainda fui eu. E de transar por necessidade com um amigo no capô do carro do pai da sua amiga? E de fazer sexo numa cama king size adicionada de um sofá que agregava valor ao espaço? E com um ruivo, um judeu, um fotógrafo numa ilha, um amigo do coração? E de fazer amor? Existe coisa melhor?

A diferença entre cada um desses não estava só no tamanho.

O tamanho às vezes faz diferença no encaixe. Aliás, o tamanho faz uma grande diferença no encaixe e nem sempre encaixa. Mas encaixe não é, necessariamente, culpa do tamanho. Às vezes as pecinhas do Lego não estão casando. Em outras o divórcio vai para além da forma das pecinhas. Muitas vezes, gente, usa KY que vai.

Já me ocorreu de notar o tamanho antes de algo mais invasivo acontecer, e simplesmente dizer “amigo, não rola com essa rôla”. Já me ocorreu também de uma minhoca virar uma sucuri. Já me ocorreu de dois pintos de nacionalidades diferentes serem pau a pau, em que um tinha um par de bolas de vôlei e o outro de basquete. Haja mão-de-obra especializada.

O babado também depende do buraco que é para ser acertado, né. Tem porta de entrada mais apertada que porta dos fundos. Tem sim, acredite. Tem casa com chaminé: sempre uma opção de escape, ou seria de chegada mais rápida? Machucada, arrombada, apertada, receptiva. Cada abertura reage de uma forma diferenciada em machos e fêmeas.

Usa-se a expressão “vai tomar no c*” como algo negativo, quando na verdade deveria ser um desejo de coisa boa. Imagina parabenizar alguém com um “Te desejo muita saúde, sucesso e que você tome muito no cú ainda nessa vida”. Isso seria um verdadeiro feliz aniversário, obrigada.

Claro que este buraco em questão é meio polêmico e endeusado. Não sei pra quê, gente. Isso só traz pressão e insegurança para as passivas e passivos, além de muita expectativa para os ativos. Na verdade pressão é bom, mas vamos com calma, gentilmente, que chegamos lá.

“Nossa, dessa vez foi fácil de entrar”, disse ela, feliz.
“Você tá dizendo que meu pau é pequeno?”, disse ele, inseguro.

“Eu acho que já sou arrombada, porque ele me pediu pra apertar minha vagina!”, disse outra, preocupada.
“Pô, talvez ele quisesse um pompoarismo pra fazer uma pressão. Ou talvez tu seja arrombada mesmo”, disse a amiga jurando que estava consolando alguma coisa.

“Desculpa, não dá… É que eu acabei um namoro há pouco tempo e ainda não me sinto confortável para isso”, lamentou uma irritada com a própria combinação cabeça-buceta.
“Tudo bem, é que quando eu te vejo quero pular em você como um animal. Mas eu posso esperar”, respondeu o dono da maior tromba da savana.

Às vezes acho que tamanho é mais assunto de mesa de bar do que de real problemática na cama.

Tamanho é uma questão de centímetros, oras. Simples assim. Impressiona, decepciona, não funciona, engana, é cheio de manha. Cada um no seu quadrado e entrando no buraco que for de sua preferência e dedicação.

Piroca sempre será assunto polêmico; até em conversa mole ela aparece durinha, tinindo. O tamanho pode ser documento, claro. Mas cada qual com sua identidade e assinatura, que é isso que importa ao atravessar fronteiras.

| Originalmente postado aqui |

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Soneto de Fidelidade (comigo mesma)

Escrito em janeiro de 2015

 

Dizer “não”é uma virtude. Virtude esta que venho testando e falhando e vencendo há algum tempo.
Dizer “não” para os outros parece ser mais fácil que dizer “não” para nós mesmos.

– Olha, não vou sair hoje, fulano, to sem paciência para a noite.

E depois se remoer por dentro: poxa, eu devia ter saído mesmo sem vontade. Sabe-se lá o que poderia acontecer de novidade…

Às vezes dizer “não” para os outros significa dizer “sim” para nós mesmos.

Dizer não para um vício;
Dizer não para uma pessoa;
Dizer não para o vício numa pessoa.

Neste momento da minha vida um amigo está tentando dizer não para o vício no cigarro. Nem tenho acompanhado para saber se está dando certo, mas até onde vi, ele disse: Fui acender um e tive nojo.
Neste momento da minha vida, duas amigas terminaram relacionamentos de muito tempo.

No caso de uma, aquilo já havia se tornado um vício. Sonho com o dia em que ela (e ele) digam: Fui acender e tive nojo. Eu e nossos amigos já dissemos: Apaga esse fogo!
No caso da outra amiga, ela disse não para ela mesma e ele disse não para os dois. Mesmo sabendo que ela, ele e eu também confabulamos um possível futuro, não muito próximo, mas com as certezas de um sim.
Ah! Ainda tenho outra amiga geograficamente mais longe que as outras duas, mas que me preocupo tanto quanto, que fingia que destilava “nãos” e “talvezes”, mas que no fundo sempre disse sim, e agora o rapaz disse não, e ouvir este “não” foi avassalador para ela.

Aliás, tanto no caso do amigo que tenta largar o cigarro quanto das outras moças lindas a quem chamo de amigas, o “não” definitivo foi um fator externo.

E eu, apesar de não saber lidar da melhor forma com a situação dele e delas, disse um “Graças aos deuses” por esses “nãos” terem chegado mais cedo ou mais tarde. O que importa é que, um dia, eles chegaram.

Sou uma grande adepta do “talvez”, infelizmente.
Detesto ficar em cima do muro, mas detesto mais ainda fechar todas as portas e janelas, e achar que sempre encontrarei uma chaminé, uma outra saída. Prefiro ficar ao sabor do vento, e isso me fode muitas vezes.

Todo o mundo sabe que viajei para morar na Austrália cerca de dois anos atrás. Se não sabe, está sabendo agora. Pois é, já faz esse tempo todo. Passou que nem percebi. A Austrália foi um “talvez” que deu mais certo que qualquer “com certeza”.

Olho para trás e mais parece que foi ontem que eu estava tomando rivotril para conseguir entrar no avião da ida. E sofrendo nos primeiros meses, e amando nos seguintes.

Olho para trás e mais parece que já se passaram uns 5 anos também. Me sinto velha, e ainda estou nas vésperas de completar 23 anos. Sou jovem. Uma jovem mulher que está aprendendo a dizer “não” com os “talvez” que carrega.

Acredito que o “não” impõe respeito. Nem sempre, mas muitas vezes sim.

Voltei da Austrália em agosto de 2014, após umas férias bem aproveitadas e cheias de “e porque não?”. Assim que voltei, distribuí vários “sims”:

– O intercâmbio valeu a pena?
– Sim!

– Fazia frio?
– Sim!

– Viajou muito?
– Mas é claro que sim!

– Quer voltar para lá?
– Sim, mas não agora.

– A gente poderia estar junto agora.
– Não.

Esse último diálogo não foi uma pergunta seguida de uma resposta, e sim uma afirmação com direito a réplica.

Uma afirmação com direito ao meu “não”. Agora não. Eu não faria, eu não quero, eu não vou. Eu disse “não” a um certo ele e “não” a uma certa Marina que diria “sim”, com certeza. Mas esse “sim” já passou. Eu já disse “sim” em outro momento, e fomos dois “sims” muito felizes enquanto durou.

Este “não” foi um dos melhores “sims” que já disse para mim mesma. Este “não” foi surpreendente para ambos.

De fato, como diria Chico Buarque, é desconcertante rever (o) um grande amor.
“Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais”

O próprio Chico disse numa entrevista: isso é uma punhalada!

Nunca pensei que poderia cantarolar essa música com alguma propriedade algum dia, mas ela caiu direitinho na minha situação.

O meu “não” não nega o nosso passado. Muito pelo contrário. Mas o meu “não” me dá um novo leque de “sims”, que podem acontecer agora ou demorar bastante para valerem a pena.

Esse meu “não” é um soneto de fidelidade comigo mesma.
E que ele seja infinito enquanto dure.

 

| Trilha sonora do texto: a atriz Camila Morgado declamando “Soneto de Fidelidade”, no documentário “Vinicius” |

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