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Beija Eu

Quando eu era pequena, Marisa Monte era a Anitta dos anos 90: tocava em todas as rádios, trilhas, shows. A gente tinha alguns CDs dela em casa, mas não sei que fim deram a eles. Nunca mais apareceu outra Marisa Monte no mundo da música brasileira. Apareceram Vanessas Da Mata, Céus, Tulipas Ruiz da vida. Mas outra Marisa, jamais.

Neste texto, dentre tantas músicas preferidas cantadas por Marisa, eu escolhi falar de  “Beija Eu”.  Não havia prestado atenção nos outros versos da música para além do refrão, que diz, pasme, “beija eu/ beija eu, beija eu/me beija”. A música é quase que somente esse mantra do beijo.

Mas tem uma parte, parte esta que agora me chamou a atenção, que diz assim: “Seja eu, seja eu, deixa que eu seja eu, e aceita o que seja seu, então deita e aceita eu”. E é aí, nesse verso tão lindo e tão real, que mora o problema, a solução e a razão de eu estar escrevendo este texto.

Talvez seja só comigo, mas eu acho que não, hein. O que acontece é que cada vez mais sinto que encontrar um cara massa (do meu ponto de vista e do que escuto por aí) nos dias de hoje é um desafio. Será que nas gerações anteriores as mulheres faziam a mesma reclamação?

Estar morando na cidade de João Pessoa, capital paraibana, é o cenário ideal para refletir sobre vida amorosa e relacionamentos. Porque? Porque aqui a coisa complica, pelo menos para mulheres heterossexuais. Amigos homossexuais concordam, sob o ponto de vista deles. Não sei a opinião dos homens heterossexuais. Sempre acho que pra vocês está tudo muito bem, as mulheres são massa (sim), lindas (sim) e interessantes (sim!). Sempre acho que, do ponto de vista masculino e heterossexual, uma quantidade confortável de nós, mulheres massa, lindas e interessantes, está atrás de vocês ou sempre disponível. É assim mesmo, gente?

Generalizar eu não posso nem devo, mas quero um pouquinho. Vejamos bem, eu não convivo ou circulo em ambientes considerados de playboy, tipo boate, bar que toca forró estilizado, coisa do tipo. Então realmente fica muito delicado eu chegar aqui, generalizar e dizer que é um desafio para to-das as mulheres hétero (ou bi) de João Pessoa em encontrar uns caras legais pra trocar uma ideias, dar uns beijos, trepar, sair às vezes e o que tiver de ser, será.

Eu espero ler este texto daqui a vários anos e rir da minha cara como alguns devem estar fazendo. Por enquanto que isso não acontece, a preocupação ainda existe.

Tenho medo de cair nos clichês que a gente vê acontecer ou que dizem pra gente que vão acontecer. Clichês tais como “homem não gosta de mulher com personalidade” “homem não gosta de mulher que diz o que pensa” “homem não gosta de mulher que fala palavrão” “homem é tudo machista” “homem não vale nada” “homem não gosta de discutir relação” “não se mostre 100% para não assustar ele” “ignore que ele volta/te procura” “faça joguinho que só assim ele vai se importar com você” “nunca fale do seu ex no primeiro encontro” “escove os dentes antes que ele acorde” “homem é assim mesmo”.

Poxa. Mas que tipo de relacionamentos e que tipo de homens e mulheres são esses, se é que esses clichês são verdadeiros? Tenho medo de me prender a eles porque tenho medo de que sejam verdade. Se eu acreditar em todos esses pré-requisitos, como vou me deixar ficar interessada por novos caras? Vou acabar tendo receio até do despertar de um interesse, e não quero viver com mais esse medo na minha vida.

De um jeito ou de outro, as histórias que me contam – seja da minha avó ou vindas de um filme de comédia romântica – reforçam aquela história de que homem não gosta de mulher com personalidade forte ou com qualquer personalidade que afronte ele, que o faça repensar, que o cutuque, que o surpreenda, que mostre pra ele que uma mulher é capaz de opinar sobre uma roupa como também sobre questões políticas. Ou sobre música. Ou sobre futebol. Sobre o que for. Que mostre a ele que ela existe. Lá no fundo, ainda me assombra aquela voz irritante e aguda que diz:

– Siga tal modelo de mulher para ter um homem ao seu lado.

“Deixa, eu me deixo”, canta uma Marisa que tenta nos lembrar do desprendimento com regras, jogos, certo e errado na conquista, no enlaçar de corpos, no amor. 


Minha avó insiste, toda vez que lembra do relacionamento complicado e machista dela com o meu avô, de que ninguém é dono de mim, de que eu tenho que ser autêntica e seguir meu próprio caminho. Minha mãe fez isso com a vida dela inteirinha. Minha irmã mais nova é a personalidade e a autenticidade em pessoa. Minhas amigas são todas maravilhosas e complexas e contraditórias, muito fortes e também muito frágeis.

Mas a realidade me faz crer que todo cara pode ser o (péssimo) marido que meu avô foi pra vovó, que provavelmente o pai do meu filho (se tiver um pai) pode ser tão pai quanto o meu nunca foi, que quase todo cara é babaca, que ninguém vai gostar de mim pelo que eu sou porque eu tenho que suavizar a Marina que tenho sido e construído. 

Todas essas afirmações me assombram, por mais que eu insista em assustá-las e mandá-las para bem longe. Essas afirmações também entram em conflito com alguns caras ótimos que cruzaram minha vida. Ou que me elogiavam para além da questão física. Ou que são meus amigos sem nunca terem tentado algo a mais. Ou que tentaram e foi muito bom. Esses caras estão longe de serem perfeitos. Eu também estou distante da perfeição, ou do que eles consideram perfeito.

Marisa ainda lembra, cantando, que é lindo quando temos a liberdade de sermos a gente e de nos entregarmos da nossa forma: “Deixa que eu seja o céu, e receba o que seja seu”. Não posso negar as coisas boas que já vivi e tenho vivido. Por causa delas, tento me apegar à ideia de que, em um lugar muito distante como a Austrália ou nem tão distante assim, como João Pessoa, tanto eu quanto minhas amadas amigas (solteiras ou não) teremos encontros – de alma, de corpo, de ideias – muito bons ao longo das nossas vidas, que vão superar todos os caras nada a ver pelos quais a gente já teve que conhecer, aturar e se relacionar.

E a gente vai poder ser a gente sem se preocupar em ser menos nós ou em oferecer mais do que podemos, só porque o outro só recebe o que quer e aceita um padrão do que a gente deveria ser. Vai chegar um dia em que a gente vai ser a gente, e o outro vai aceitar e abraçar quem realmente somos. Vai chegar um dia em que a música de Marisa Monte vai fazer todo o sentido, e seremos beijadas de verdade por sermos nós mesmas.


Escrito em Junho de 2016


Ilustração: Gabriela Amorim


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Categories: Na Cama com Marina, Reticências

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Não era intercâmbio, era cilada!

Escrito em outubro de 2013

Vamos falar de um assunto polêmico. Vamos falar de relacionamentos em tempos de intercâmbio.

Você que está aí no Brasil, namorando, solteiro(a), se querendo, se amando, se odiando, se encontrando, noivando aos 19, tendo filho aos 15. Você, independente do sexo, orientação sexual, pulga atrás da orelha, situação econômica e social, você que está esperando a novela das 9 começar enquanto come cuscuz com leite, você que está se preparando para mais uma noitada com “azamigues”, pronta para arrasar, você que está traindo seu namorado, você que pensa que está sendo traído, você que pretende mudar de cidade para ver se consegue um novo bofe que te deseje tanto quanto o bofe da webcam te deseja, você que diz que está feliz mas está na pior, e até você, a quem admiro muitíssimo, que não precisa dizer a ninguém que está assim ou assado para sentir-se completo.

Você está aí pensando que não existe coisa melhor ou pior do que seu atual estado e status de relacionamento, não é mesmo? Sinto dizer que existe, e chama-se intercâmbio. O meu é de 16 meses, então já julgo que virarei guru de relacionamentos ou então sairei do desembarque paraibano direto pro divã da minha querida antiga psicóloga, e ela prontamente me recomendará para um psiquiatra. Rivotril já tenho como conseguir, vamos aguardar o diagnóstico então.

Pois bem, como alguns já sabem por conviverem pertinho de mim no Brasil ou através de fofoca, eu saí daí namorando. Não, pera. Eu saí solteira, mas estava namorando quando estava no Brasil. Enfim, cheguei em solo australiano solteira e pronta para arrasar. Mentira! Tá, vou parar com esse couro de pica porque até eu estou me confundindo agora.

Sim, cheguei na Austrália solteira na vida e no Facebook, mas não, não estava pronta para arrasar, e arrasava mesmo assim.

Chegando nestas terras que hoje em dia vivo, conheci todo tipo de gente e de status de relacionamento: solteira(o) na pista, namorando e traindo, relacionamento aberto declarado, namorando e querendo casar, namorando e querendo acabar, solteira(o) querendo casar, até casal de namorados que vieram juntos do Brasil conheci (e invejei, confesso), e eu, solteira, ainda apaixonada pelo que deixei no Brasil e com o fogo do Nordeste entre as pernas.

Bem, quem me conhece me conhece. E quem não me conhece a esse ponto, calminha no julgamento: eu sou normal, apenas tenho um desprendimento sexual (tanto para falar sobre quanto para ter curiosidade sobre) que ainda não entendo de onde surgiu. Além disso sou jovem, brasileira, vacinada, tomo meu anticoncepcional religiosamente, ando com camisinha na bolsa, tenho abertura para falar com minha família do assunto e faço a maior graça das minhas experiências até o momento que vos falo.

Mas então, eu estava falando dos relacionamentos que fui apresentada assim que cheguei.

Agora já estou na metade do intercâmbio e constato para mim, para meus amigos e agora aqui: absolutamente todos esses relacionamentos mudaram. Se não mudaram o status, modificaram-se ao menos no funcionamento, na engrenagem do coração. Se não acabaram até que a volta os reuna novamente, foram reciclados e muitas vezes intensificados.

Sim, graças aos deuses há ainda aqueles em que a mocinha e o mocinho amam-se mais que nunca, chegaram até a se encontrar aqui nesta terra de cangurus vivendo seu próprio conto de fadas contemporâneo. Há também aqueles que pela simples e sincera questão do tempo e dinheiro não puderam se rever durante esse período.

Apenas no meu edital mais de 150 estudantes vieram para Melbourne (esse é o número de participantes no grupo do Facebook). Não conheço e muito menos irei conhecer todas essas pessoas e suas histórias de relacionamentos conturbados.Mas o que vivo – diariamente – ao lado dos meus amigos e ao lado das minhas diversas personalidades é pesado.

Quantas vezes já não chorei no meu travesseiro de penas de ganso australiano, e quantas tantas, meu Deus do céu, já não consolei e servi de mãe/psicóloga/irmã para os que em mim confiam?! É barra-pesada, gente.

Tenho uma amiga queridíssima cujo nome não citarei, mas que irá sacar que é dela que estou falando, que disse “Marina, é pior pra quem fica”.

Que pior pra quem fica, menina! Tá louca! Cheguei sozinha sem amigos e família, no último pau-de-arara, e eu que sofro menos?

“Sim”, ela disse. E ela tem propriedade para tal afirmação. Ela já vivenciou os dois lados: o de quem fica e o de quem vai.

Ela é uma danada, linda, poderosíssima. E discreta. Ela não fala desse assunto com qualquer um, e me sinto honrada em saber que ela conta comigo.

Minha panelinha – de pressão – de amigos daqui tem esse costume de me pedir conselhos, ou de ao menos virem contar preocupações, dúvidas, certezas, sem que eu tenha que responder. Não sei porque eles fazem isso. Saibam que sou mais complicada que todos vocês juntos.

Minha primeira relação sexual aqui foi boa, mas ao mesmo tempo uma bosta. Foi segura, com um cara ok e serviu como um pontapé para eu iniciar meu desprendimento do Brasil. Para os que ainda não sabem, liguei depois para o meu então ex-namorado morta, triste, dizendo “eu dei, mas não foi amor o que fiz, foi sexo blablablá”. Rapaz, eu fui sincera. E completamente louca! Como alguém liga pro ex depois de fazer sexo? Como? Mais um assunto para minha querida psicóloga.

Após essa pisada de bola com ele, comigo, com nosso relacionamento de amizade/namoro duvidoso, repeti a dose algumas outras vezes. Até que demos um basta nessa situação de um ficar contando detalhes que só fazem literalmente foder um com a vida do outro.

Estou me expondo demais? Talvez. É que acredito que já atingi uma fase de ver graça em tudo isso, e de refletir também. E sei lá, estou morando há trocentos quilômetros de distância do Brasil e me sinto à vontade para falar disso neste momento. Depois mainha me dá um carão internacional e pronto, terei o castigo que alguns desejam me dar. 

Fazer sexo nessa situação dá sim um sentimento de culpa, mas ao mesmo tempo é bom pra gente dizer “Bora aproveitar isso até o último fio de pentelho? eu digo bora”.

Vejo relacionamentos se construírem na minha frente, vejo amigas que chegaram meninas e tornaram-se mulheres, por mais “Dia de Princesa do Netinho” isso possa soar. Vejo ficadas promissoras. Vejo sofrimento que dá vontade de chorar junto. Vejo um ajudando o outro.

Vejo a menina mais linda do meu edital (não, dessa vez não sou eu) sendo ao mesmo tempo a mais insegura de todas.

Ontem, após me despedir do meu bofe aqui de manhã cedinho – por favor, solteira sim, sozinha nunca, ou vocês achavam que eu estava na pior? – vi essa minha amiga linda e insegura desabar, se acabar no choro. Sabe quando você perde a respiração de tanto chorar, fica com dor de cabeça, os olhos ficam vermelhos até a pálpebra? Eu sei, e foi assim que ela ficou.

E a razão do desespero dela era, para além da insegurança, a expectativa. Expectativa de um futuro próximo, expectativa de um futuro distante, e ela não conseguia colocar um ponto final temporário nessa ideia. Mal sabe ela, bichinha, parecendo um passarinho sem mãe chorando no meu colo, que eu me vi nela todinha.

O que falei naquele momento foi “só quem pode dar um basta nesta situação, nesta expectativa, é você”. E simultâneo a isso, dizia para mim mesma que só quem pode acabar com esses anseios que a gente mesmo constrói, talvez para ter algo ao qual se segurar nos maus e bons tempos que passamos, somos nós mesmos.

Eu vim com a expectativa de continuar o que deixei no Brasil. Acredito que todos os corações partidos por um Ciência Sem Fronteiras viveram o mesmo. Mas e agora que passou esse tempo todo, que já passaram tantos caras e meninas interessantes, tanta história pra contar que acaba nos modificando?

Essa expectativa acaba nos martirizando por dentro e influenciando o que fazemos fora de nós, e temos muita roupa pra lavar e muito trabalho da Universidade para dar contar ao invés de ficar alimentando-a. Enquanto tento organizar minhas ideias neste texto, escuto “O que foi feito, deverá”, de Milton Nascimento nos tempos do Clube da Esquina cantada por Elis Regina.Sim, sou dramática a este ponto e fã de ambos os artistas.

Ela diz assim “falo assim sem saudade, falo assim por saber, se muito vale o já feito, mais vale o que será”.

Acredito que nos nossos casos sentimos saudade sim, sempre, e muitas vezes preferimos abafá-la em forma de bebida, sexo sem amor, com amor, em forma de amigos, de viagens, de música, de um cachimbo da paz, de comida, de academia, de choro. Abafamos porque, do contrário, não vivemos o que temos para viver aqui. E quem lá sabe do futuro, dessa volta pro Brasil? Ninguém, não é mesmo? Nem nossas expectativas são capazes de anunciar o que vem por aí.

Experiência não estou perdendo, estou ganhando. Só de consolar amigos e tentar me consolar, já deu ao menos para escrever este texto e me fazer parar de chorar.

E agora vou dormir porque tenho que escrever 800 palavras sobre uma exposição, colocar – pela enésima vez – os pingos nos i’s com meu ex/amigo, e se o atual bofe me ligar tenho que comprar Gillette Venus no mercado para manter a depilação e o nosso caso em dia, até porque ele é paisagista e aprecia uma grama aparada.

Ps: eu não disse que traria solução para os seus e para os meus problemas ao final do texto. Me desculpe se te dei a expectativa errada ao início desta confissão. É que às vezes a gente muda de ideia na Austrália, no Brasil e no nosso mundinho interno.

| Originalmente publicado aqui |

| Trilha sonora do texto: “Cilada”, por Molejo |

| Trilha sonora do texto: “O que foi feito devera”, por Elis Regina e Milton Nascimento |

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Categories: Made in Austrália, Na Cama com Marina