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aquarela marina_guilherme

Bloco da Saudade

“Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”

“Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”

[Trecho de Quando o Carnaval Chegar – Chico Buarque]

Que coisa mais deliciosa.
Essa música, essa letra, essa composição, som, sensação, talvez seja uma das minhas favoritas. O top one do meu top five. Escuta.

Ela me lembra um barulho de trem prestes a andar nos trilhos, um coração batendo antes de uma grande emoção, ou até de uma parada geral. Chico tá cantando quietinho, “mufino”, mineirinho, gostosinho. A letra diz isso, com um recado único: me aguardem no Carnaval.

Parece aquela respiração profuuunda que às vezes a gente dá ao se deparar com as pedras nos meios dos caminhos que a vida – e a gente mesmo – coloca. Parece aquele sentimento de quando a gente tá perdidamente enlouquecido por alguém, mas não diz. E quando diz: ai que delícia que é a festa da carne!

Minha primeira lembrança de carnaval vem da prateleira de CDs lá de casa, em Recife. Mês de fevereiro. Enquanto Salvador anuncia suas atrações nos trios elétricos cheios de axé e cordão de isolamento; enquanto o Rio da Rede Globo se prepara para as comissões de frente, bateria e alegorias, é hora de limpar a poeira do CD “Saudade vai Passar”, do saudoso Bloco da Saudade. Vovó Cecinha abre sua cervejinha, oferece às empregadas, aos pedreiros, às visitas.

A casa de Recife estava sempre em obras. O verão era a época propícia para reformas, puxadinhos, cerâmica nova e reboco. Vovó dá o play no CD e naquele mesmo lugar, em meio a poeira de cimento, criança correndo e familiares foliões, ali mesmo começou o que hoje chamo de Carnaval.

Não nasci fazendo passo de frevo, mas logo pequenininha mainha me levava pro Eu Acho é Pouquinho, uma versão infantil do olindense e vermelho bloco do Eu Acho é Pouco. Durante anos os adultos da família juntavam todos os meus primos no bloco da Ala Ursa (ou seria A La Ursa?). A gente saía pelo bairro cantando “Ala Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”. Pirangueiro significa mão-de-vaca no Nordeste, e com as moedinhas dos bondosos comprávamos sorvete pra espantar o calor.

Um pouco mais velha assisti, da varanda do prédio de um hotel, o Galo da Madrugada, conhecido como o maior bloco de rua do mundo, e quem disser o contrário leva uma pisada no pé de quem é de fato bom pernambucano.

Posso dizer que eu cresci com o carnaval.

Aprendi o que é ressaca e ressurreição brincando carnaval, aprendi a me perder e a me encontrar nele também. Aprendi a me soltar nas ladeiras de Olinda, a limpar suor com mais suor, a andar em multidões, a fazer e desfazer amizades e viver paixões passageiras. Aprendi que jovem não sou eu, e sim a terceira idade que se reúne em blocos e vai com todo o gás que já nem tem, serpenteando as ruas do Recife Antigo. Esses sabem viver.

Como forma de presente de aniversário online, uma amiga me dedicou um texto. Ela é uma espécie de fã e editora de tudo que escrevo (publicado ou não), e receber um presente desses logo dela me deixou toda abestalhada.

Ela abre o texto dizendo que “Falar de Marina é fácil porque me lembra o Carnaval, que consequentemente me lembra: intensidade, alegria e saudade. De quando a gente tinha 12 anos e o Recife Antigo tava começando a se esquentar para a festa mais bonita do ano, a gente ia pros ensaios do maracatu da minha mãe e quando a época chegava a gente se contentava com uma latinha de refrigerante, a rua do Bom Jesus e os desfiles passando. E assim como os desfiles, a vida também anda e a gente andou com ela…”

A gente andou e mais parece que correu de boato de arrastão em plena ladeira da Sé de Olinda. O susto foi tão grande que tropecei e vou passar meu Carnaval na puta que pariu. Palavreado pesado para uma distância sem medidas.

Talvez faça parte do meu relacionamento sério com o danado do Carnaval testar distâncias. “Bora ver se tu é fiel a mim mesmo, estando assim soltinha do outro lado do mundo”, ele diz. Talvez faça parte mesmo. E não é que ele quase me escapa da lembrança? Tenho estado tão ocupada nessa vida que ele ia passar batido sem bater no meu coração. Mas o que bateu agora foi a saudade, e com ela todo um bloco de “tô me guardando pra quando no Brasil chegar”.


Originalmente publicado em março de 2014 no primeiro blog que tive, da rede Sem Réis


Ilustração feita por Guilherme Lira, amigo querido e designer, como presente de aniversário em 2014


Trilha sonora para o texto e para momentos de saudade e expectativa pelo carnaval: Quando o Carnaval Chegar, Chico Buarque


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