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Minha Vida, Suas Regras (até quando?)

Escrito em fevereiro de 2016

Uso Tinder desde 2014. Já deixei de usar por meses, vez ou outra volto, vez ou outra deleto minha conta.

Tinder é uma ferramenta ótima para os(as) tímidos(as), preguiçosos(as), pra quem prefere ficar assistindo Netflix num sábado à noite e também pra sondar quem tá solteiro(a) na cidade e quem tá botando gaia em quem.

Não demonizo o Tinder; acho o aplicativo uma invenção que combina com o nosso tempo, que faz sentido, que pode dar muito certo e que pode dar muito errado, assim como a vida real. Fico de saco cheio do Tinder mais do que faço uso dele, mas é só viajar pra qualquer lugar que não seja João Pessoa – e que eu passe um tempo curto – para eu me reapaixonar pelo Tinder e reacender a sua necessidade no meu coração e na minha pepeca.

Estava no Tinder esses dias selecionando fotos pra colocar no meu perfil.

“Essa já tá velha… Essa tá sexy demais… Essa tem que ficar, porque tenho que mostrar meu sorriso… Essa… Essa tá muito de Humanas, os caras que não são de Humanas vão achar muito de Humanas… Essa é boa: estou de biquíni mas sem mostrar muito… Será que vão pensar que sou gorda? Aliás, estou gorda, mas será que vão pensar, nesta foto, que sou gorda demais?”.

Entre um match (combinação com a pessoa que você deu um “like”/curtiu) e outro, comecei a falar com um cara. Eu que puxei o papo.

“Será que ele vai pensar que sou oferecida demais? Eu deveria me preocupar em ser oferecida demais? Eu sou oferecida demais? O que é, neste ano de 2016, na cidade de João Pessoa – PB – Brasil, ser oferecida demais? Marina, você não é oferecida demais, você é Marina demais, vá em frente, bicha!”.

Ele respondeu. E a gente continuou a conversar besteira e trivialidades do tipo “o que você faz?”, “mora onde?”, “curte o que?”. Nessas horas, as experiências dos meus amigos gays nos aplicativos do mundo gay parecem bem mais divertidas. Eles contam que a pergunta “passivo ou ativo?” é constante, e a troca de nudes é natural. Já troquei várias nudes no mundo hétero, e hoje em dia fico com receio porque o mundo hétero, pra mim, é tipo o Brasil: meu lugar, porém tenho medo.

Daí, depois de trocar informações básicas com esse boy do Tinder, ele parou de responder – ou de acessar o aplicativo, ou enjoou da minha cara, ou tinha mais o que fazer. Não importa. A conversa tá lá em aberto e ele pode responder amanhã ou em 2018. E eu posso deletar a nossa conversa do Tinder e ele da minha vida a qualquer momento. E posso também fazer isso com caras que me desinteressam, ou que me assustam ou que revelam qualquer coisa que eu não aprecio; ou eu posso simplesmente arrumar coisa melhor pra fazer.

Quando ele parou de responder, lá fui eu novamente ver minhas fotos do perfil no Tinder.

“Será que esta imagem fez ele pensar que eu era decidida demais? Será que nessa outra aqui eu estou feliz além da conta? Será que nessa meu bronze ficou estranho? Será que eu preciso emagrecer pra tirar fotos de corpo inteiro? Não, não, foto de corpo inteiro tem que ser muito bem pensada porque posso ultrapassar a linha do sexy e chegar no vulgar. Será que eu deveria colocar meu signo no meu perfil? Os caras não ligam pra signo. As gays sim. Se houvesse um Tinder “encontre sua gay” eu ia dar match com todo mundo, ia ser lindo e íamos todos(as) viver felizes para sempre. É melhor eu deletar meu Tinder – novamente – e dar um tempinho disso… Mas em João Pessoa os caras são moles demais, vou ficar na seca se partir pra investidas reais…”.

Ave Maria Madalena, me ajude a ser puta nessa cidade, porque não está sendo fácil. Ou será que só sou eu? Ah meu Deus, o problema sou eu mesma… Será que mudando essa foto aqui…

Porra.

Sério que eu, EU, logo eu entrei nessa nóia? Sério que me dei a autorização para me submeter a esse tipo de insegurança? Sim. Noiada sim, insegura sim. O que fazer agora, que assumi essa fragilidade para mim mesma?

Passam-se os dias e posto no meu mural do Facebook uma crônica que li na Folha de São Paulo sobre feminismo e desunião entre as mulheres. O texto tinha em destaque a seguinte frase de efeito: “sua vida, suas regras”, uma ótima releitura da atualmente clichê e sempre necessária “meu corpo, minhas regras”. Um colega homem curtiu e comentou minha postagem. Ele relatou que durante a leitura da crônica em questão, lembrou de que muitas vezes nós mulheres julgamos umas às outras através dos olhos de um homem (namorado, peguete, entre outros), propagando machismos e alimentando essa danada da comparação, o que gera a nossa velha amiga: a competição.

Um insight me veio na hora. Valeu, André!

Ele não falou novidade nenhuma. Todo mundo sabe disso. Eu sabia mas havia esquecido, ou então escolhi esquecer. Não é apenas comum da gente que é mulher julgar e analisar outras mulheres através do ponto de vista masculino, por muitas vezes machista, como é mais comum ainda julgarmos e analisarmos nós mesmas pelo ponto de vista dos caras e/ou do machismo, ou do que a gente acha que os caras e o machismo vão achar da gente. Queremos tanto agradar os homens (quem são esses homens???), que acabamos pensando como um na hora de nos agradarmos.

Isso. É. Muito. Preocupante.

Todo animal, de qualquer espécie, sabe que na tal da dança do acasalamento, um se exibe pro outro com o que tem, com o que pode. Em algumas espécies, a fêmea vai atrás do macho, em outras, a fêmea fica lá de boa e o macho vai atrás dela, todo exibido. Na nossa espécie, machos vão atrás de machos, fêmeas atrás de fêmeas, e na relação macho/fêmea uma lei superior e vinda do além diz que “a melhor fêmea é aquela que se arruma pensando no que o macho vai pensar dela, ao mesmo tempo em que deve aguardar o macho chegar nela”. E o macho que chega lá e a conquista é o tal do príncipe encantado.

Olha, se existe uma lei que merece ser abolida, seria essa do modelo de mulher que nós, mulheres, devemos seguir.

Em qualquer relacionamento, ao menos nos mais comuns, a gente quer agradar o nosso par – trio, quarteto etc – e também quer ser agradado de volta. Isso é massa, isso é saudável, isso é natural.

Tenho uma amiga que me criticava por eu comprar e usar lingerie lá nos meus 18 anos. Nem era lingerie, eram só umas calcinhas mais fininhas, na época. Eu usava pra mim, e se por acaso rolava um boy no dia, usava pra mim e com o boy. Nunca me senti mal por isso, mas essa amiga tentava, através do seu julgamento, me fazer sentir culpada ou envergonhada. Coitada. Anos depois, vejam só, a mesma amiga veio me perguntar onde que eu comprava minhas lingeries (a nível de curiosidade, era na Marisa).

A gente não tem que se culpar por se amar ou por querer se exibir pro outro. Faz parte! Mas existe aquela linha tênue, que é a do limite do “não sou obrigada”.

Tive um boy na época em que fazia intercâmbio na Austrália que se depilava 100% (pernas, axila, área genital, tudo) e queria que eu me depilasse 100% também. Eu estava sempre me depilando e deixando os pentelhos no modelo “bigodinho de Hitler”. Um belo dia ele me falou que queria que eu ficasse lisinha, sem nada lá embaixo. Acontece que eu não queria. Cheguei na casa dele e ele falou “Ah, mas você não se depilou?….”, fazendo cara de desolado. Eu falei “Me depilei sim, esta é a minha depilação íntima”. Se ele não me quisesse mais, o problema era dele. Eu iria pra casa e ponto final. Tchau. Mas ele quis, claro, e ponto final também porque essa história fica pra outro texto.

O que quero dizer é que, neste momento em que eu e o boy discutimos a minha depilação/nossa relação, limites foram impostos e eu não me submeti a essa exigência dele. Imagina terminar qualquer coisa que a gente tinha por causa de uma depilação.

Mas não é sempre que funciono sendo dona de mim. É uma corda-bamba conseguir equilibrar o que a gente acha legal, bonito, interessante do que o que a gente pensa que os caras vão achar legal, bonito, interessante.

Sempre tive plena noção de que não sou a tal da mulher perfeita, aquela mulher perfeita que dizem pra gente que existe por aí. Já escutei algumas vezes que eu seria essa mulher perfeita sim. Sabe quais itens entravam na lista dessa perfeição? Ser gostosa, bem-humorada, vaidosa, sem frescura e gostar de sexo. Sim, essa sou eu, e não, não sou só isso. E às vezes não quero ser nada disso. E estou longe de alcançar outros combos de ideais que dizem que a gente tem que ser meiga e sensual, maternal e um furacão na cama, sensível e determinada. Esses ideais existem, nem sempre são explicitados e o implícito é o mais preocupante e perigoso. Aquelas regras que todo mundo sabe, mas nem todo mundo confessa. Isso é uma merda porque alimentamos isso, nos comparamos com isso, vivemos para isso.

Até hoje não sei porque é considerado normal olharmos para nós mesmas com os olhos desse homem que a gente criou (ou que impuseram para nós).

Dizem que homem gosta de mulher que tem carne, que tem onde pegar; mas tem homem que acha a coisa mais linda do mundo uma magrinha, uma toda retinha. Dizem que as mulheres gordas estão acima do peso e devem emagrecer pra ficarem bonitas e socialmente aceitas (e, como consequência, atrair os homens). Mas tem homem que não liga pra isso, ou liga tanto que prefere as gordinhas, cheinhas, gordas. Dizem que mulher sem maquiagem é sinal de descuido e que ela deve “se cuidar”. Dizem também que usar batom vermelho assusta os caras porque 1. a mulher fica com cara de decidida/dona de si 2. o cara não vai querer beijá-la e ficar com a boca cheia de batom. Dizem que devemos ser delicadas e flertar bastante somente à distância, aguardando o rapaz ir falar com a gente; mas tem cara que adora mulher que chega nele e mostra a que veio. Dizem que mulher de salto é sempre melhor, mas também dizem que mulher mais alta que o homem não pode.

Dizem tanta coisa e a gente aceita tanta coisa e reproduz mais ainda, e esse ciclo vicioso do mal não acaba nunca porque a gente tá nele, girando girando e girando e tentando ser sexy sem ser vulgar, inteligente sem ser inteligente demais, líder sem ser durona, mãe sem ser só mãe, fofa sem ser frígida, puta na cama sem ser puta na vida, emagrecer sem ficar esquelética, engordar sem ficar gorda, falar sem gritar, usar roupa curta sem mostrar a calcinha, ser engraçada sem ser muito irônica, empoderada sem ser grosseira, gostar de sexo e se envergonhar por gostar de sexo, não gostar de sexo e se envergonhar por não gostar de sexo, sonhar com o grande amor da vida sem poder assumir que está sim sonhando com o grande amor da vida, ter filhos e não ficar acabada demais, não ter filhos e não ficar acabada demais, beber mas não ficar bêbada… Basta! Que saco ter que ser assim. Que saco ter que aceitar as coisas assim só porque a tal da sociedade diz que é pra ser assim. Que saco, em pleno 2016, século XXI, eu me noiar desse jeito, e ter noiado outras mulheres, e me deixar ser noiada também.

Está mais do que óbvio que essa “sociedade”, esse “dizem que”, esse “eles”… Esse “eles” é um cara, esse “eles” é aquele cara que infelizmente existe, aquele cara que a gente criou e bota fé nele, alimenta ele, escuta ele, assina embaixo tudo o que ele diz. Esse cara é um monstro. Nós estamos, há séculos, criando monstros. Não quero mais criar monstros em mim, ou projetar monstros nos outros, ou aceitar a monstruosidade alheia.

O que falei neste texto não parte de achismos, e sim de coisas que vi e vivi ao longo dos anos. O que falei neste texto é baseado em testes da Revista Capricho durante minha adolescência, em términos de namoro, em conversas com minhas amigas, em conversas com boys, em desabafos de Facebook, em comédias-românticas norte-americanas, em novelas brasileiras, em inseguranças minhas, em certezas minhas, em inseguranças de pessoas que amo e de pessoas que não amo. O que falei neste texto é tão cotidiano quanto escolher foto pra colocar no perfil do Tinder e tão sério quanto se submeter aos monstros que a sociedade criou e que a gente ainda dá de mamar.

 

– Sugestão de trilha para o texto ou para o pós-texto ou para aqueles momentos de “foda-se” mais que necessários, porém cheios de estilo: Fuck You, por Lily Allen –

 

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