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Soneto de Fidelidade (comigo mesma)

Escrito em janeiro de 2015

 

Dizer “não”é uma virtude. Virtude esta que venho testando e falhando e vencendo há algum tempo.
Dizer “não” para os outros parece ser mais fácil que dizer “não” para nós mesmos.

– Olha, não vou sair hoje, fulano, to sem paciência para a noite.

E depois se remoer por dentro: poxa, eu devia ter saído mesmo sem vontade. Sabe-se lá o que poderia acontecer de novidade…

Às vezes dizer “não” para os outros significa dizer “sim” para nós mesmos.

Dizer não para um vício;
Dizer não para uma pessoa;
Dizer não para o vício numa pessoa.

Neste momento da minha vida um amigo está tentando dizer não para o vício no cigarro. Nem tenho acompanhado para saber se está dando certo, mas até onde vi, ele disse: Fui acender um e tive nojo.
Neste momento da minha vida, duas amigas terminaram relacionamentos de muito tempo.

No caso de uma, aquilo já havia se tornado um vício. Sonho com o dia em que ela (e ele) digam: Fui acender e tive nojo. Eu e nossos amigos já dissemos: Apaga esse fogo!
No caso da outra amiga, ela disse não para ela mesma e ele disse não para os dois. Mesmo sabendo que ela, ele e eu também confabulamos um possível futuro, não muito próximo, mas com as certezas de um sim.
Ah! Ainda tenho outra amiga geograficamente mais longe que as outras duas, mas que me preocupo tanto quanto, que fingia que destilava “nãos” e “talvezes”, mas que no fundo sempre disse sim, e agora o rapaz disse não, e ouvir este “não” foi avassalador para ela.

Aliás, tanto no caso do amigo que tenta largar o cigarro quanto das outras moças lindas a quem chamo de amigas, o “não” definitivo foi um fator externo.

E eu, apesar de não saber lidar da melhor forma com a situação dele e delas, disse um “Graças aos deuses” por esses “nãos” terem chegado mais cedo ou mais tarde. O que importa é que, um dia, eles chegaram.

Sou uma grande adepta do “talvez”, infelizmente.
Detesto ficar em cima do muro, mas detesto mais ainda fechar todas as portas e janelas, e achar que sempre encontrarei uma chaminé, uma outra saída. Prefiro ficar ao sabor do vento, e isso me fode muitas vezes.

Todo o mundo sabe que viajei para morar na Austrália cerca de dois anos atrás. Se não sabe, está sabendo agora. Pois é, já faz esse tempo todo. Passou que nem percebi. A Austrália foi um “talvez” que deu mais certo que qualquer “com certeza”.

Olho para trás e mais parece que foi ontem que eu estava tomando rivotril para conseguir entrar no avião da ida. E sofrendo nos primeiros meses, e amando nos seguintes.

Olho para trás e mais parece que já se passaram uns 5 anos também. Me sinto velha, e ainda estou nas vésperas de completar 23 anos. Sou jovem. Uma jovem mulher que está aprendendo a dizer “não” com os “talvez” que carrega.

Acredito que o “não” impõe respeito. Nem sempre, mas muitas vezes sim.

Voltei da Austrália em agosto de 2014, após umas férias bem aproveitadas e cheias de “e porque não?”. Assim que voltei, distribuí vários “sims”:

– O intercâmbio valeu a pena?
– Sim!

– Fazia frio?
– Sim!

– Viajou muito?
– Mas é claro que sim!

– Quer voltar para lá?
– Sim, mas não agora.

– A gente poderia estar junto agora.
– Não.

Esse último diálogo não foi uma pergunta seguida de uma resposta, e sim uma afirmação com direito a réplica.

Uma afirmação com direito ao meu “não”. Agora não. Eu não faria, eu não quero, eu não vou. Eu disse “não” a um certo ele e “não” a uma certa Marina que diria “sim”, com certeza. Mas esse “sim” já passou. Eu já disse “sim” em outro momento, e fomos dois “sims” muito felizes enquanto durou.

Este “não” foi um dos melhores “sims” que já disse para mim mesma. Este “não” foi surpreendente para ambos.

De fato, como diria Chico Buarque, é desconcertante rever (o) um grande amor.
“Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz ao sentir que sem você eu passo bem demais”

O próprio Chico disse numa entrevista: isso é uma punhalada!

Nunca pensei que poderia cantarolar essa música com alguma propriedade algum dia, mas ela caiu direitinho na minha situação.

O meu “não” não nega o nosso passado. Muito pelo contrário. Mas o meu “não” me dá um novo leque de “sims”, que podem acontecer agora ou demorar bastante para valerem a pena.

Esse meu “não” é um soneto de fidelidade comigo mesma.
E que ele seja infinito enquanto dure.

 

| Trilha sonora do texto: a atriz Camila Morgado declamando “Soneto de Fidelidade”, no documentário “Vinicius” |

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