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Feliz por nada

O que é ser feliz hoje? Uma foto sorrindo no Instagram, uma viagem, uma comidinha bem gostosa, grana, um match incrível no Tinder? Sinceramente não sei.

Ao ver uma foto do perfil no meu WhatsApp, meu pai carinhosamente comentou “Adorei a foto! Você é um foco de felicidade e energia, filha”. Agradeci. Na foto estou toda descabelada, rindo bem leve, gozadora da situação e da vida. Quem tirou a foto me conhece por demais: Gabi, minha amiga desde que temos 10 anos. Estamos com 25, hoje.

A foto foi tirada no muro do Paço Alfândega, um shopping que fica na parte mais antiga do Recife, minha cidade, e de frente pro rio Capibaribe que tanto amo e tanto faz parte da minha história. A foto reflete tudo isso: eu, gabi, amizade, Recife, rio, passado, presente.

Mas há um fator em especial que a foto reflete: minha mãe. Estou bem parecida com mainha, ela até comentou isso comigo. Talvez por isso meu pai tenha dito que sou um “foco de felicidade e energia”. Eu e mainha temos o mesmo sorriso que quebra qualquer gelo, encandeia um ambiente. Sério. Não tô me achando, e se estiver, quem me ensinou a ter noção do meu poder foi principalmente minha mãe.

No mesmo fim de semana da foto, conversava com Gabi sobre o que as pessoas pensam sobre a gente. O que elas concluem? Gabi me confessa que muitas pessoas chegam pra ela dizendo que ela está “sempre feliz”. “Até parece que eu estou sempre feliz”, dizia em tom sincero e íntimo para mim. Em alguns aspectos, Gabi me lembra minha mãe. Em especial por lidar com os problemas de forma muito madura, não fugindo deles, e por procurar compartilhar com os outros o que ela tem de melhor, o que ela tem para acrescentar. Isso é lindo.

Naquela mesma conversa, falei para ela que já escutei e escuto muitos amigos e conhecidos afirmando que me vêem como essa pessoa que está sempre feliz, feliz por nada. Na verdade como uma pessoa que não tem muitos problemas e não tem com o que se preocupar nem do que reclamar, por causa de dois fatores principais: ter uma ótima mãe e não demonstrar sofrer grandes crises financeiras. Mas minha vida não se resume à minha mãe e à aparente estabilidade financeira do meu núcleo familiar. Se todos os problemas do mundo fossem resolvidos por mães ótimas e algum dinheiro, estava tudo resolvido.

Paralelo a isso, os mesmos amigos e amigas que me considera(va)m uma pessoa sempre feliz e privilegiada, toda vez que se encontravam só faziam reclamar: de si, da casa, de tudo. Parecia uma competição de quem era mais fudido, mais depressivo, mais ansioso, quem precisava tomar mais remédios, quem tinha os piores boys, os piores pais, quem merecia ir numa psicóloga mais que os outros, quem estava mais perdido na vida, quem quem quem quem. Basta.

Enquanto eu, a garota privilegiada, a que tem uma mãe ótima, a que vive sorrindo, a que não é ou não está pobre, eu mesma não podia reclamar da vida pois os problemas desses meus amigos eram sempre piores que os meus. O buraco era sempre mais embaixo, segundo eles. Mas vejam que situação tóxica: além de ser rotulada como a pessoa que não pode reclamar de nada, como a pessoa que está sempre bem e feliz, eu ainda tinha que conviver com essa roda de auto-ajuda, que de ajuda não tinha nada, na qual todo mundo estava na merda. Como diria minha avó: sai pra lá, Jaraguá.

Esses amigos, em sua maioria, buscaram alguma ajuda fora daquele grupo. Outros não. Há quem não esteja mais na minha rede de pessoas como amizade, até. Coisas do tempo. Peneiragem da vida.

Gabi já sabe de tudo isso. Ela sabe do meu afastamento dessa situação em que eu era “muito feliz” pros outros e não podia reclamar, ela sabe da fase baixo-astral desses amigos, ela sabe das minhas fases baixo-astral, mais discretas e não menos intensas que a dos amigos “mais fudidos” que eu. Gabi sabe que frequento psicóloga, não por ter problemas demais, mas por querer me ajudar e me entender cada vez mais.

Gabi sabe que faço yoga, já fiz meditação. Gabi sabe que escrevo; ela lê, ela escreve pra mim às vezes. Gabi sabe quem é minha mãe, meu pai, minha família, meus problemas financeiros, afetivos, internos. 15 anos de amizade, né. Gabi concordou comigo quando falei que, quando estou mal, prefiro evitar levar o baixo astral ao sair com meus amigos pra me divertir. Hora de ficar mal é hora de ficar mal. Hora de se divertir, de rir, de jogar conversa fora, é hora de se divertir, de rir, de jogar conversa fora.

Há momentos em que, mesmo saindo pra se divertir, a gente acaba descendo a ladeira do baixo astral novamente. Nessas horas eu peço licença e chamo um Uber, tento pegar carona com quem vai voltar pra casa mais cedo, me afasto, nem saio. Me permito estar triste sem necessariamente envolver todo mundo naquilo. Sem promover uma roda das lamentações.

Tive que chegar a me sentir essa menina super privilegiada que não pode reclamar de nada, a menina que está “sempre feliz”, para perceber que aquela situação na qual a auto-depreciação era cool e pré-requisito para ter o direito à fala não fazia parte de mim e da minha história.

Saí do status de pessoa que não pode reclamar de nada para pessoa que confessa seus problemas para quem está disposto a ouvi-los. Hoje, quando procuro um ombro e ouvidos amigos, não peço ajuda a qualquer pessoa. Meus pedidos de ajuda estão mais sóbrios, e minha intimidade – não as dos textos, a da vida mesmo – tem sido compartilhada de forma um pouco mais madura.

Em todos os trancos e barrancos que a vida me trouxe ou em que eu já me meti, sempre lembro da minha mãe. Mainha é uma pessoa que escolheu ser feliz em todas as suas ações, em todas as suas quedas e apesar de todo o baixo-astral do mundo. Não, mainha não é tapada como muita gente conclui sobre as pessoas que fazem questão de serem felizes. Mas ela não perde tempo na tristeza.

A tristeza e os problemas existem, estão sempre lá. Mas a força dela, que não está em força física, em raiva, em textão no Facebook, a força da minha mãe transforma qualquer situação ou pessoa baixo-astral em uma coisa bem pequenininha, quase nula. Minha mãe, nem sei como, não deixa que os problemas da vida fiquem maiores do que ela, do que a sua força. Minha mãe é uma dessas pessoas que está sempre sorrindo, assim como eu na foto, assim como Gabi. Assim como as pessoas que dão gosto de ter por perto.

Sei que a moda agora é achar bonito estar na merda. A merda, aliás, é poética desde os tempos de outrora. A gente só tá resgatando essa poesia toda e transformando em meme tudo que é auto-depreciativo, tudo que é baixo-astral. Ser bitch, mau-humorada, triste, a mais triste, e postar uma selfie sendo fudida e sensual, isso sim é mais in. Chuva de likes. Sei que ser feliz e elevado o tempo todo também está na moda. Gratidão, etc e tal. Namastê pra cá, let it go pra lá.

Infelizmente, sei que pessoas como mainha, que escolheram a felicidade apesar de terem consciência plena de seus problemas e tristezas, não estão na moda. Fico me perguntando para onde vão as pessoas normais nessa regra do “ou fudido ou pleno”. Aquelas que não são totalmente lascadas nem totalmente felizes demais. Mainha não está na moda, e se filha de peixe, peixinha é, eu tô é mais out que nunca.

Martha Medeiros, uma cronista que sou fã, tem um livro publicado chamado “Feliz por nada”, que dá título a este texto. No Dia das Mães do ano passado presenteei minha mãe com ele. Na orelha do livro, uma carta dos editores, em que dizem: (…) Feliz por nada, afirma Martha Medeiros, é fazer a opção por uma vida conscientemente vivida, mais leve, mas nem por isso menos visceral.

Não tenho medo da tristeza. Preciso dela para me entender, para ficar quietinha, para florescer. Sei ser triste, sei chorar, sei o que é passar o dia/semana/mês trancada no quarto. Sei me preservar, sei viver uma fossa, sei pedir pra sair quando é preciso. Sei o que é me foder, sei meus erros, sei o que é estar mal, mal MESMO. Sei o que é me humilhar. Sei o que é um fora, o que é passar dificuldade financeira (acreditem), sei o que é ter que correr atrás das coisas, sei o que é a preguiça, sei o que é desistir, sei o que é ansiedade, o que é falhar.

Sei sofrer, tropeçar, escorregar, cair, ter que segurar o choro, me arrepender. Eu sei muito de perto o que é depressão, o que é ter uma doença grave, o que é conviver com a morte de uma pessoa querida. Apesar de saber o que é a tristeza, não nego a felicidade. Se tem uma coisa que minha mãe me ensinou durante todos esses anos em que tive o privilégio de ser sua filha, foi a escolher ser feliz apesar do mundo. E a isso e a tudo sou grata sempre, todos os dias, em cada tristeza, em cada felicidade, em cada viver.

Obrigada, mainha, por sempre incentivar o meu encontro pessoal com a felicidade, quer seja na foto do WhatsApp, quer seja neste texto, quer seja na vida.  


Escrito em maio de 2017


Imagem: Fotografia por Gabriela L’Amour com iPhone 5 


Camisa: Camisas Lunáticaz [Recife – PE]


Reflexões, elogios, sugestões e críticas maduras são sempre bem-vindas. Deixe sua impressão sobre o texto e/ou tema na caixa de comentários para fazer uma escritora feliz =)


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Porque as Pessoas Cortam os Cabelos

Escrito em outubro de 2015

Recentemente cortei o cabelo. Tosei mesmo. Ele estava grande e agora está bem pequeno. Penteio os cabelos com um passar de mãos na cabeça, enquanto que com ele grande demorava de 15 a 20 minutos para tirar todos os nós.   

No mesmo dia em que cortei o cabelo, o salão no qual eu fiz o corte postou no Facebook uma foto do antes e do depois. Quando vi a foto, percebi o quão drástica havia sido a mudança. Uma amiga enviou mensagem “Isso é real?”, o outro enviou em caps lock “AMIGA TU TOSOU???”, entre tantas outras mensagens que recebi. Não estava nos meus planos postar foto para fazer um balanço da satisfação (ou não) facebookiana do meu novo look, mas toda vez que olho a tal da foto, eu entendo a surpresa de todo mundo.   

Cheguei lá para cortar o cabelo dizendo “Olha, já fiz muita coisa nesse cabelo: fiquei loira, mais loira ainda, depois mel, meio ruiva, cobre, enfim… Desgastou ele todo e já aproveitei o que tinha de aproveitar nesse cabelão”. Daí meu cabeleireiro, que é a melhor pessoa do mundo, fez um corte melhor do que eu pensava e estou linda.

Mas a real razão de eu ter cortado o cabelo não foi essa.

Se você já leu algum outro texto meu ou me conhece um pouco, deve saber que morei um ano e alguma coisa na Austrália entre 2013 e 2014. Morei, do passado “não moro mais e nem sei se um dia volto pra visitar, porém gostaria muito”. Antes da Austrália eu estava usando meu cabelo bem curtinho. Lá na Austrália deixei ele crescer, aparei as pontas uma única vez com uma tesoura de papel (minha amiga Hashi era nossa cabeleireira oficial) e voltei pro Brasil com ele enorme. Havia mantido ele grande até então.

Até que um belo dia eu estava saindo da aula de Yoga e uma moça, que é massagista, estava falando sobre cabelos. No meio da conversa, ela disse “… Porque cabelo guarda energia, né, vocês sabem”. Não lembro o que ela falou depois, sei que na hora me veio um estalo. Poxa, Marina, tu já sabia disso. Tua tia sempre fala sobre essas coisas, mas só agora tu lembrou desse babado.

Aquele cabelo – ou aquela energia, aquelas lembranças, aquela época – não fazia mais parte de mim. Aliás, fazia parte, mas não era o meu eu inteiro. Eu andava pra lá e pra cá com toda uma Austrália pendurada em mim: prendia essa Austrália, penteava essa Austrália, pintava, hidratava, era elogiada por essa Austrália. Mas essa Austrália não me representava mais. Eu me olhava no espelho e estranhava. Não reconhecia mais aquela pessoa do cabelão.

Após a yoga, fui pra casa com a certeza de que ia cortar o cabelo bem curtinho o quanto antes. Na semana seguinte, liguei pro salão e falei “marque aí pé, mão e um corte”. E cortei.

Conversando com dois amigos, uma disse “Amiga, tu nem avisou que ia cortar o cabelo!”. Eu respondi “Oxente, e agora precisa avisar, é?”. Meu amigo comentou “Marina, às vezes tu pede opinião até pra uma roupa, é natural a gente estranhar que tu não tenha comentado que ia cortar o cabelo”. É natural mesmo.

Esse amigo do último comentário adorou o novo corte e disse que eu estava mais forte, com mais personalidade com ele. Concordo. Chega uma etapa do look cabelão em que eu viro meu cabelo e esqueço da dona dele. Não aguentava mais carregar isso comigo. A Austrália estava pesando mais que eu.

Lendo um livro de Martha Medeiros me deparo com uma crônica chamada “Lembranças Mal Lembradas”. Tem um trecho que diz assim:

A maioria dos nossos tormentos não vêm de fora, estão alojados na nossa mente, cravados na nossa memória. Nossa sanidade (ou insanidade) se deve basicamente à maneira como nossas lembranças são assimiladas. “As pessoas procuram tratamento psicanalítico porque o modo como estão lembrando não as libera para esquecer.” Frase do psicanalista Adam Philips, publicada no livro O Flerte. (…) Nossas lembranças do passado precisam de eixo, correção de rota, dimensão exata, avaliação fria – pena que nada disso seja fácil. Costumamos lembrar com fúria, saudade, vergonha, lembramos com gosto pelo épico e pelo exagero. Sorte de quem lembra direito.  

Falam que quando mulher termina relacionamento, ela corta o cabelo. Não sei se isso é verdade, mas acho que faz parte. Os homens também deviam mudar de look aos términos de relacionamento. Aliás, todo mundo devia mudar o cabelo em fins de relacionamentos, seja esse relacionamento com uma pessoa, várias pessoas, um emprego, um lugar. Uma mudança de visual pode servir como um impulso para mudanças futuras ou representar uma mudança que já vinha ocorrendo há muito tempo, e só então ela é mostrada para o público.

Cortem os cabelos, minha gente. Cabelo: cresce. O tempo passa. E voa.

 

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