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A Faxina

Ilustração: Guilherme Lira

Escrito em março de 2016


Cheguei à conclusão de que minha pepeca anda mais exigente que minha cabeça. Quando saio à noite tento convencê-la de ser atirada, de demonstrar interesse pelas pessoas, de querer competir com as pepecas amigas, e ela nada. O caso não é de falta de libido nem de falta de vontade. O caso é de falta de alguém que acenda nela a libido e a vontade.

Se você me viu por aí olhando pra baixo como se procurasse alguma coisa, você não está louca(o); provavelmente eu estava tendo uma DR com minha vagina, e ela ganhou. Ela costuma ganhar, mesmo quando no final das contas quem perde sou eu.

Já ouvi falar de que sexo, mesmo quando é ruim, é bom. Minha pepeca era dessas. Para ela, era sempre bom. Algumas vezes, nos tais dos dias seguintes, eu olhava pra minha pepeca e dizia “gata, tem certeza que valeu a pena?”, e ela sempre tinha mais certeza do que eu. Agora, amigos, o jogo virou. De tão certa, talvez minha pepeca estivesse errada. Mas vou dar um desconto chamado maturidade, que era coisa que ela não tinha.

Podem achar que é mentira, mas vou dizer que é verdade porque 70% do que vou dizer é verdade mesmo: tenho invejado as amigas que tem feito merda na vida amorosa-sexual. Era tão bom fazer merda. Eu era jovem, feliz, inconsequente e selvagem. Eu pensava que DST e gravidez era coisa que acontecia com os outros. Aliás, nem pensava nisso assim seriamente, e meu santo foi forte o suficiente pra evitar que qualquer tragédia acontecesse.

Quando minha pepeca dizia sim com frequência, eu não tava nem aí pro que os outros iam achar. Os outros sempre serão os outros, independente do assunto e da vítima. Também não vou chegar aqui e dizer que sou uma mulher de zero arrependimentos no assunto “homens”. Tenho arrependimentos sim, mas faz parte. Talvez seja isso. Os arrependimentos – ou aprendizados – me fizeram mais exigente, ou menos “num tem tu, vai tu mesmo”, sabe? Nem eu sei.

Independente de pepeca exigente, o vibrador se faz presente. Ele é o melhor contato do zap zap, até porque nem zap ele tem e sempre está disponível. Ele não faz joguinho nem quer que eu faça. Ele nunca amolece nem tem problema de ereção. Ele vibra em dez velocidades e dá espaço para a imaginação. Se existisse um perfil desse no Tinder, eu daria um superlike. A invenção do vibrador não foi à toa, minha gente. Vamos aplaudir esse bem para a humanidade, essa tocha da liberdade sexual, esse totem da siririca. Amém. 

A exigência que minha pepeca tem dado para picas novas e antigas tem sido proporcional à exigência que ela dá para outras pepecas. Costumo dizer que a cada várias mulheres, me interesso por uma e nem sei ao certo o que fazer com isso. É o que está acontecendo com os caras. Ô inferno. Poucos meses atrás – meses!!! – eu ainda tava topando me divertir, mesmo que fosse com alguém bem mais ou menos ou que eu fosse me foder no final (no mal sentido). Me foder tanto por me arrepender de ter perdido tempo com alguém nada a ver ou por estar gostando mais do cara do que ele de mim. 

Daí baixou um santo do “só me interesso por gente que aparente ser do bem/que me faça bem/que me dê bom dia ao invés de ir direto ao ponto/que tope um cinema sem confundir o convite para um filme com um pedido de casamento”. Bateu uma onda forte de “não sou obrigada” que tem sido interessante de se observar.

Quem me lê pode chegar a pensar que os textos que escrevo não tem serventia pra ninguém, mas pelo menos pra mim tem. Recentemente escrevi um texto sobre padrões bem nada a ver que nós, mulheres, nos submetemos. Não falei exatamente de padrões de beleza (ninguém aguenta mais isso), mas de comportamento, de existência. E no texto eu mostrava como esses padrões são do mal, são enfiados goela abaixo e às vezes a gente nem se dá conta. Acreditem se quiserem, mas depois desse texto me senti quilos do que não presta mais leve. Me senti assim, sem grandes preocupações em relação a como eu deveria ser, sabe. Não diria que me senti mais livre, mas me senti mais leve, porque padrões pesam, e a gente gasta muito tempo e energia com eles. Se eu fosse tatuar esse momento da minha vida, tatuaria um “foda-se” na testa.

Às vezes fico com medo da exigência mental e pepecal ter chegado como consequência de traumas e situações desagradáveis que já passei. Nem foram tantas, foram poucas. Eu poderia fazer textão sobre cada uma delas. Eu poderia ganhar mais popularidade em cima de pautas quentes do feminismo como ghosting, essa coisa de mulher pra trepar versus mulher pra namorar, caras que não aceitam “não” como resposta. Escolhi não falar sobre isso agora, ou falar sobre isso depois, ou falar só pros mais íntimos mesmo. É que quando uma coisa ruim acontece, anula três muito boas. Isso acontece com tudo nessa vida, e deveria ser o contrário.

Administrar uma pepeca exigente e inteligente tem sido difícil porque eu gosto de pessoas, gosto de conhecer pessoas, gosto de beijar pessoas, de trepar com pessoas, de fazer amor com as pessoas que amo. Pessoas me dão tesão de ser uma pessoa também. Mas também enjôo das pessoas, pego abuso, crio nojo, as pessoas mudam, as pessoas se disfarçam, as pessoas sentem inveja, eu também sou uma pessoa. O horóscopo da minha pepeca deve estar mais ou menos assim “em estado meditativo acerca das picas que aqui estiveram, e abrindo portas para melhores picas (quiçá pepecas) que estão por vir”.

Uma pessoa que me ama muito recentemente me disse que talvez eu esteja passando por uma fase de faxina. Adorei essa palavra.

Recentemente também comecei a praticar meditação, com professor e tudo. Coincidentemente o professor de meditação falou que, através do ato de meditar, a gente também passa por uma fase de faxina. Ele disse que meditação não seria quase dormir e ficar fazendo “Ommmm”. Meditação é despertar, é acordar para coisas que a gente adormece quando vive no automático. Todos nós vivemos no automático em algum momento. E nesse despertar, muita poeira que estava debaixo do tapete das nossas vidas pode surgir, pode levantar e afetar alérgicos como eu. Atingir a fase em que se sobrevive à poeira e se consegue ver tudo com mais clareza seria uma consequência da consciência meditativa.

Ainda não sei se a palavra certa para definir essa fase em que estou passando seria “encalhada” ou “fazendo faxina dessa vida”. Chamem-me de encalhada, que eu direi “será? então tá”. Também não boto fé que, após essa fase, tudo serão flores e um príncipe ou princesa vai bater na minha porta e seremos felizes para sempre. Ainda tenho três casamentos, filhos, perrengue, paz, caos, alegrias, viagens, pobreza, riqueza, três divórcios, muitos namorados(as?) e faxina pela frente.

Faxinas são feitas de tempos em tempos. Todo mundo tem sua fase de sujar, de acumular, de espirrar, de tomar um anti-alérgico, de limpar e de ser feliz. Nas faxinas, descobrimos aquela foto daquele dia, aquele papel de bombom atrás do sofá. Com as faxinas, descobrimos que ali existe uma casa que deve ser cuidada. Faxinas são mais que necessárias. Elas deixam a casa bonita e habitável para quem mora ali e para quem for convidado a entrar.

– FIM –

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