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Preciso dizer que te amo

Eu preciso dizer que te amo… Tanto. Mas quem será você? Quem você será? Mais difícil que te encontrar, é talvez saber que posso nunca te conhecer. Sei lá. Vai que era pra gente ter pego o mesmo ônibus João Pessoa – Recife naquele feriadão. Vai que, se eu tivesse ficado mais um dia em Barcelona, nossas vidas teriam se cruzado.

Você já existe? Você já existiu em minha vida? Você ainda vai existir? Por quantos e quantas eu ainda tenho que passar pra te conhecer? Será que a gente já se conhece? Acho improvável. Seria muito How I Met Your Mother da minha parte.

Você gosta de séries? Vai ser com você que terei os filhos que tanto sonho, num futuro um tanto distante da minha realidade? Ou você vai aparecer depois, já com seus filhos e eu com os meus, e a gente vai juntar todo mundo e ser feliz?

Espero que meus amigos gostem de você. Meus amigos são muito importantes pra mim. E você, tem amigos do peito? Tens amigos pra contar histórias lindas e constrangedoras sobre você?

Morar na mesma casa, será que rola pra gente? Queria que você falasse a minha língua, mas não precisa ser brasileiro não. Queria que você entendesse meu sotaque, visse. Ou que pelo menos achasse fofo meu jeito recifense de me expressar. Queria que você quisesse conhecer a minha infância: ela foi linda e emocionante. Conhecer a minha infância é também conhecer a minha rua, a do Chacon, em Recife. É minha mesmo, minha e da minha família. Hoje em dia os novos ricos do bairro vão dizer que não, mas eles não sabem o que dizem; chegaram depois com seus carrões e carões.

Espero que você goste de cachorros. Eu adoro cachorros! Sempre tive vários! Espero que você me ensine a gostar do frio, ou que compartilhe o amor pelo calor comigo. Vamos à praia, vamos! Praia de nudismo acompanhada: eu sempre quis. Uma prima minha tem uma pousada em Porto de Galinhas que eu vou desde criança e tenho vontade de te levar lá. A pousada é ao mesmo tempo família e romântica. Acho que você vai gostar.

Tenho medo de que você não goste do que eu escrevo, ou até pior: não queira ficar comigo porque escrevo. Aliás, se você não quiser ficar comigo porque escrevo, você não é você, e sim tantos outros. Sabia que um namorado que tive já me impediu de postar um texto? Foi, foi. Desde então me preocupo em escrever e acabar perdendo ou deixar de ganhar pessoas que gosto. Sei que no fundo eu não deveria me preocupar com isso. Sabe Érick, aquele meu amigo que se parece com Paulinho da Viola? Então, ele já me disse pra não noiar com isso. Ele até disse para eu postar o texto que esse meu ex namorado tinha impedido, mas eu não postei não. Acho que ainda era apaixonada por ele, infelizmente. Na verdade quem me impediu de postar o tal do texto fui eu.  O que esse ex namorado fez foi dizer “Não quero que você poste”, e eu, de burra e apaixonada, não postei. Que loucura. 

Será, rapaz, que você vai gostar de escrever também? Será que vamos escrever juntos? Ah, aí já é pedir demais, né não. Precisa mandar um homem desse não, Seu Deus. Um que não se incomode com o fato de eu escrever já tá de bom tamanho.

Gosto de quem me desafia. Você vai me desafiar? Sei que desafio pode ser confundido com competição ou com machucar o outro. Peço-te que não me machuque, por gentileza. Eu sofro muito, apesar de não parecer. Considero brigas, discussões, conversas, tudo isso aí necessário e saudável. Mas brigar por brigar não. Não tenho saco para isso, e acredite: ganho brigas como ninguém. É que uma coisa é o casal brigar, discutir e depois cada um ficar pensativo, tentar refletir e chegar numa solução juntos (nem precisa ser no mesmo dia). Outra coisa, meu querido, é um ficar ofendendo o outro de graça. Detesto ofensas. Não me ofenda, please. Se você pensou em me chamar de puta como ofensa, está errando em dobro: primeiro, porque sou puta MESMO. Segundo, porque se você acha “puta” uma ofensa, é porque não temos MESMO nada a ver.

Será que você é homem? Será que você é mulher? Será que vamos nos preocupar com isso?

Não precisa entrar pra grupo feminista no Facebook pra ficar comigo. Não precisa saber usar a palavra sororidade. Não precisa, meu amor, problematizar tudo. Só precisa me respeitar, respeitar minhas ideologias, respeitar meu caminho, minha história. Que o interesse pelas minhas bandeiras venha da forma mais natural que for possível pra ti.

Não precisa abrir a porta – do carro, da casa, do banco, do bar – pra mim e nem ficarei ofendida se você o fizer. Acho legal, acho delicado. Eu também abro portas para as outras pessoas. Eu também vou querer abrir portas para ti.

Gosto de museus, exposições, das caretas até as mais livres e contemporâneas. E tu, gostas? Adoro viajar. Vamos viajar juntos?! Gosto de ficar em casa também, sozinha ou acompanhada. Você me acompanha no meu tédio?

Olha, uma coisa que gosto mesmo é de mesa de bar. Se você tiver afim de me acompanhar, então, estamos feitos. Imagina eu e tu, tu e eu, numa sexta-feira pós trabalho, cansados e ao mesmo tempo animados com o primeiro gole de cerveja, rodeados de amigos queridos – meus, seus, nossos. Imagina, meu amor, como seremos felizes nessa sexta-feira.

Não precisamos estar sempre grudados. Grude é bom às vezes, mas lembra que sou de aquário. Você pode até nem acreditar em astrologia, mas sua amada aqui acredita e assina embaixo. Gosto de estar sozinha, e estar sozinha não significa estar solteira, disponível e à procura. Significa estar comigo mesma. Me deixe comigo que eu me resolvo.

Sabe uma coisa que adoro? Lin-ge-rie. Ah, Mas isso você já deve saber. Todo dia é um conjuntinho diferente, né não? Pode me dar lingerie, não vou me ofender. Gosto de me vestir assim pra você e pra mim também. Hoje em dia visto G embaixo e sutiã 46. É tudo grande mesmo, menos a cinturinha. Se eu estiver mais magra, é M embaixo e sutiã 44. A cinturinha permanece.

Você tem problemas com peso? Digo, não com o seu peso, mas com o meu. Eu não. Na verdade verdadeira, nunca ouvi nenhuma reclamação sequer partindo de alguém com quem já estive amorosamente e/ou sexualmente acerca do meu peso. De amigos gays e amigas mulheres já, centenas de vezes. Até que eles e elas perceberam que eu era firme nesse assunto e não ia me deixar abater pelos padrões alheios.

É, meu amor, sou uma pessoa bastante firme em alguns aspectos. Talvez por isso você goste de mim, assim espero. Não quero que você desconstrua meu lado empoderado, mas se quiser trazer leveza a ele, estou de braços abertos. Acho até que preciso.

Quero que você me leve para conhecer o seu mundo. Adoro conhecer outros mundos pelos olhos de quem os vive. Quero muito te apresentar aos meus amigos: eles também são minha família. Falando em família… Olha, a minha é um pouco grande. E barulhenta. Vovó até hoje bebe. Vovó vai querer conversar horas e horas contigo, mas eu te ajudo a dar uma escapulida dela. Vovó me ama muito. Você precisa entender isso, que sou neta criada por vó. Mainha precisa gostar de você. Mainha é a melhor pessoa do mundo, e se ela gostar de você, vai te tratar bem até demais. Tu precisa conhecer Milah, minha irmã mais nova. Ela é a Ivete Sangalo da família. Ela é uma figura. Ela também tem que gostar de você, porque ela me ama muito e eu amo muito ela.

Será que vamos votar na mesma pessoa? Será que você concorda que (Michel) Temer na presidência foi golpe? Será?

Sabe qual o sentimento que quero ter por você? Eu quero te olhar e dizer “PUTA QUE PARIU”, de tanto amor que vou sentir por tu. De tão massa pra mim e pra gente que tu vai ser. Eu quero ser massa pra tu também. Eu quero que tu me olhe hoje como tu me olhou da primeira vez: com sede, com surpresa, com intensidade. Mas agora com amor. Carinho. Paz. Eu quero paz! Eu quero sentir paz por alguém. É tão bom isso, né. Eu quero ser tua paz e tua euforia. Quero te deixar com saudade e ao mesmo tempo com segurança em mim. Não quero te provocar ciúmes, não. Mas isso não depende só de mim, depende de você também.

Será que a gente vai ter grana? Será que vai ser um perrengue só? Em que momento das nossas vidas nós vamos nos encontrar? Se a gente tivesse se conhecido antes, a gente seria? E depois, teríamos tempo de sermos quem somos? A gente já é o fim de nós mesmos?

Queria te ver envelhecendo, mas não sei quando seremos um pro outro. Queria ver tuas primeiras rugas, queria te causar rugas, queria que tu achasse as minhas rugas bonitas. Me elogia. Me elogia, vai! Não precisa ser sempre. Não precisa ser uma declaração de Facebook. Não precisa ser aquelas coisas de novela. Vamos acompanhar uma novela juntos? Uma das seis, que tal? Uma de época, bem romântica e brega. Vamos a um show de brega! Bora mesmo. Vai ser massa.

Espero que tu goste de Recife. É minha cidade, tu sabe. Espero que tu curta João Pessoa. A gente vai pra lá de vez em quando, ok? Espero que tu goste tanto de silêncio quanto de falar. Espero que tu goste de escutar também.

Penso em adoção, você não? Vamos conversar sobre isso. Quero muito ficar grávida, com barrigão, acho lindo. Engravida comigo. Teremos filhos lindos, ou então só um tá bom. Mas não agora, meu amor. Agora eu tenho que me criar, para depois poder criar um filho contigo. 

Quero poder te olhar e rir de todos aqueles que não foram. Quero poder te olhar e saber que você é o cara. Ou a mulher. Ou sei lá. Quero achar que você não é você, mas vocês. Não é possível que só tenhamos um grande amor na vida. Será mesmo, amor? É viver para crer. Quero sentir que você é você, tu é tu, nós somos nós.

Queria que você existisse, assim ou assado, e que a gente se encontrasse de um jeito ou de outro, por aí ou por aqui. E que então, nesse momento do começo de nossas vidas enquanto nós, eu olhasse pra tu, tu olhasse pra mim, e a gente dissesse (só pra gente mesmo): finalmente te conheci, meu amor. Porque demorasse tanto tempo?


Escrito em setembro de 2016
Ilustração feita especialmente para este texto: Gabriela L’amour.
Sugestão de trilha sonora para o texto, pós-texto e qualquer pretexto de amor: Eu Preciso Dizer que Te Amo, por Dé, Bebel e Cazuza.

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