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Fica

Escrito em maio de 2015


“Você sai e não explica

Onde vai e a gente fica

Sem saber se vai voltar” (Fica, por Chico Buarque de Hollanda)

Ficar talvez seja algo mais corajoso do que casar. Eu falo isso porque não tenho ideia do que é estar num casamento, e sim alguns ideais do que é ficar. Hoje.

O conceito de “ficar” acredito que possa variar entre trocar uns beijos, fazer sexo e fazer sexo com frequência com uma determinada pessoa. Para mim, beiçar é beiçar e sexar é sexar. Quando eu digo “fiquei ou to ficando com fulano” é porque já passamos do nível boca-a-boca. Sendo bem sincera, nunca tive muita paciência para ficar só nos beijinhos: quando chego a essa etapa, é porque muito provavelmente chegarei aos outros níveis do jogo. Também passei da fase “vou pegar geral na festa”. Na verdade essa fase nunca me atraiu, e não lembro de ter ficado com mais de uma pessoa num lugar público.

O conceito de “ficar” que vou desenvolver aqui é outro. Estou falando de “ficar” no sentido de “chegar e não ir embora, pelo menos não agora”.

Não acho a vida de solteira(o) uma maravilha, tampouco a solução ou a origem dos meus problemas e dos problemas do mundo. Acho, sim, sem dúvidas, que aprender a ficar consigo mesma(o) é a solução para a grande maioria esmagadora das  questões dos solteiros, dos casados e dos enrolados. Ser solteira sempre combinou muito comigo porque eu aprendi que a solterice está ligada à liberdade, e isso é algo que eu devo desaprender.

Também não relaciono a vida em casal a algo superior à vida de solteira(o). Entre todos os casais de amigos que estão atualmente juntos, conto nos dedos de uma mão aqueles em que eu me espelho, aplaudo, valorizo e assino embaixo. Não está fácil para ninguém.

Feita esta introdução não muito breve, já posso assumir que tenho na bagagem uma pluralidade de machos e situações. Pluralidade no sentido de variedade, e não necessariamente de quantidade. A partir das minhas experiências com esses caras, eu pude descobrir – e tenho descoberto – o que me atrai nas pessoas, o que eu abomino nas pessoas, qual a posição sexual mais prazerosa para os envolvidos, o que eu espero de um relacionamento e o que eu desejo de uma noite e da manhã que se sucede.

A arte do desapego é uma constante na vida dos solteiros e solteiras. Equilibrar a vontade de “dar só uma trepadinha” com a curiosidade – e risco –  de conhecer aquela pessoa melhor é um desafio. A gente não sabe até que ponto é “normal” mandar mensagem, trocar nudes, dar likes no Facebook e Instagram alheios, falar da família, dos boys e boyzinhas anteriores, transar no primeiro encontro, não transar no primeiro encontro e manter contato. Eu até hoje não sei, e continuo conhecendo gente nova e fingindo que mal conheço gente que já passou por mim.

Quando eu era mais nova, ouvia dizer que estar solteira era massa. Hoje em dia o que mais escuto, leio e vejo é que está muito difícil encontrar alguém massa: homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais e todos os etceteras que envolvem orientação, gênero, gosto, momento.

Talvez o que esteja ocorrendo é o que dizem que ocorre em guarda-roupa de mulher: de tantas opções, achamos que nenhuma seja a ideal. O meu guarda-roupa já foi assim.

Se eu abrir a boca para dizer que “tá faltando homem no mundo”, acabarei me engasgando. Assim como discordo de que “tá sobrando mulher”. Não é porque a mulher está solteira que ela está disponível para você, e não é porque “todos os homens interessantes estão namorando/casando” que não exista um solteiro massa em algum lugar para além do Tinder.

Existe, minha gente. Existe. Eles e elas existem. Nós existimos. O problema é que nem sempre essas pessoas ficam (na cama, na casa, na vida).

Ficar não quer dizer “casa comigo”. Ficar pode ser um “fica mais um pouquinho”.

Já sofri muito com a distância. Deixei para trás alguns boys massa que ficaram eternizados numa noite ou num relacionamento por causa dela. Eu sei que existe a chance de uns lerem este texto, mas não sei se os caras interessantes em questão vão entender que eles são os caras em questão. Eu espero que os que dominam a língua portuguesa se reconheçam.

Tenho a (in)felicidade de constatar que fiquei com algumas pessoas que eu queria ter ficado um pouco mais, ficar ficando, ficar abraçadinha, ficar para conhecer pai e mãe. Algumas ficaram no passado, outras ficaram nos países em que as conheci, e outras seguiram viagem.

Tive um cara que me pediu para ficar mesmo sabendo que eu iria de qualquer jeito, e eu fui com o coração na mão. Tive outro, em especial, que enquanto eu me vestia para ir embora me puxou de volta para a cama e disse “fica, você não tem compromisso hoje”, e o meu compromisso era o de não querer ficar, mas eu acabei querendo e mesmo assim eu fui. Esses quereres me perturbam até hoje.

Ficar talvez seja algo mais corajoso do que casar. Quem se atreve a tamanha bravura?

“Quem sabe um dia

Por descuido ou poesia

Você goste de ficar”

 

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