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Uma crítica sobre STANLEY

Como fazer uma crítica cinematográfica

Fazer uma crítica sobre algo feito por outro – por muitas vezes, outros – é uma tarefa sedutora e traiçoeira. Como analisar algo que veio da cabeça de outra pessoa, se cada cabeça é um universo? Ao começar a se escrever uma crítica e ao longo de toda a escrita e justificativa da mesma, vem ao pensamento, talvez auto-crítico: quem sou eu para analisar, quem sou eu para criticar? Qual o tom certo para se usar numa crítica cinematográfica? Que palavras e abordagens, quiçá citações de autores usar para trazer credibilidade à minha análise?

Um amigo muito próximo da área do audiovisual diz que não gosta de evento de cinema porque nele todo mundo veste a carapuça de gente de cinema, e gente de cinema é chata pra caramba. Porque é crítica. Porque critica. Porque expressa com os olhos e deixa no ar o que estou tentando fazer aqui neste texto: uma crítica. Evento de cinema é que nem evento acadêmico, é que nem festa de 15 anos, é que nem posse de político: tudo pose. E se os holofotes estiverem para você, aí então é uma mistura de pose e um nervosismo filho da mãe.

Me aproximar dessa chamada gente de cinema, participar de eventos de cinema e discutir sobre cinema, em especial na Paraíba, me fez perceber duas coisas: a primeira é que cinema é trabalho em equipe, é um polvo com vários tentáculos com vida própria; a segunda é que criticar pode ser também analisar, refletir, se sensibilizar, não necessariamente julgar e apontar o dedo. Acompanhar – de longe e de perto – amigos(as) e conhecidos(as) em seus processos de reflexão, criação, produção e realização de filmes me mostrou porque tanto se discute e tanto se analisa sobre cinema: porque um filme nunca acaba quando termina, por mais fala de blockbuster norte-americano essa frase tenha soado.

Não querendo criticar, não querendo analisar, acabei o fazendo. Foi um desafio do bom. Por um lado foi difícil porque eu gostei do filme (STANLEY) ao qual me propus a analisar, e é mais fácil criticar algo que a gente não gosta tanto assim. Explicar minhas visões acerca de um filme que me fez sair da sala de cinema satisfeita é um obstáculo, porque a identificação e afeto por algo nem sempre é passível de justificativas. Mas se crítica é também análise e reflexão, se crítica parte do sensível, o caminho fica mais possível.

O Sertão em STANLEY

O curta-metragem STANLEY é o primeiro filme de ficção de Paulo Roberto, diretor paraibano que passou grande parte de sua vida em Nazarezinho, sertão da Paraíba. Nazarezinho é também cenário e personagem do enredo. STANLEY é sobre um sertão, STANLEY é sobre personagens e histórias potenciais nesse sertão, STANLEY é sobre sexualidades e como elas se desenvolvem naquele tempo e espaço. A questão da homossexualidade no interior não é novidade. Porém ainda é novidade enquanto produção cinematográfica, enquanto tema, enquanto discussão. Não apenas a questão da homossexualidade, mas especialmente a da homofobia no interior da Paraíba.

A fotografia e a arte em STANLEY são lindas para além do ponto de vista plástico,  pois retratam e refletem sobre – através das cores, da luz, dos cenários e elementos – um sertão possível, atual e menos carregado de clichês estéticos. Assim como foi dito durante o debate na estreia do filme, na sessão Assacine ocorrida em setembro no Cine Banguê (João Pessoa – PB), é importante que o cinema desconstrua padrões relacionados a estética e narratividade sertanejas, visto que não existe um único sertão, e sim multi-sertões.

O sertão é plural, e em STANLEY o público é apresentado a um sertão mais verde, cinza, com cores menos saturadas e com personagens tão críveis e prováveis quanto os retratados naqueles sertões do céu azul, sol forte, seca (de tudo) e simplicidade, um certo fundo de humor e ao mesmo tempo tristeza, próprios de produções mais mainstream, onde o sertão é pop.

Inícios

Começa o filme. Sertão. Verde, um verde meio acinzentado. Vento. Paisagem. Uma narração íntima, melancólica e um tanto saudosa dialoga com aquele cenário de tantas possibilidades. Ouve-se um barulho de bala; um barulho não, um estouro forte e seco como a morte, como o sertão e como o filme.

A sequência da cena da galinha, mostrando uma das realidades daquela cidade, ficou uma delícia de se ver. Não porque é um deleite ver uma galinha sendo morta. Na verdade, o bom dessa sequência não é sua conclusão, e sim o caminho até ela. O plano em que mostra a mulher de calcinha/shortinho amolando a faca está super erótico. Gostei que os caras do açougue não fizeram gracinha quando ela passou, talvez não pela ausência do machismo, mas porque já estavam acostumados em vê-la por ali. Ela parecia a dona do pedaço. A sequência da galinha introduz o filme, introduz uma localidade, as pessoas daquele local e uma prática talvez comum na cidade que, justamente de tão cotidiana, tenha sido explicitada.  

A apresentação e inserção de Alex no filme, que é a chegada dele em casa com a roupa e mala do exército, é ótima. O quarto dele ficou incrível, mas talvez tenha reunido muitas referências de uma só vez. Lindo ver o chapéu de vaqueiro misturado com os pôsteres de bandas internacionais e desenhos aparentemente autorais.

 

Os artistas plásticos Aurora Caballero e Thiago Trapo conceberam em conjunto a pintura impressões sobre STANLEY. A peça esteve exposta no hall de entrada do Cine Bangüê para o lançamento do curta, na sessão Assacine - Atreta (28/09).

Impressões sobre STANLEY | Arte: Aurora Caballero e Thiago Trapo | A peça esteve exposta no hall de entrada do Cine Bangüê para o lançamento do curta, na sessão Assacine “Atreta” (28/09).

O Sexo e as Sexualidades

O sexo em STANLEY é franco e honesto com o público. O sexo, tanto da vida real quanto do filme, não se resume à penetração, a troca de fluidos. No filme, o sexo começa a partir da troca de olhares na festa, quase que imperceptível, rápido como uma paquera proibida, escondida. A cena de sexo em si vai além de ser tachada de uma cena de sexo entre dois homens. Em STANLEY, sexo é sexo. A gala ficou ótima, inclusive, e retratar o gozo como algo meio holístico, divino – a partir da fotografia, da luz – é interessante de ser observado. O filme não censurou a naturalidade e intensidade de uma relação sexual dentro daquele contexto. Ficou bem verossímil com o que acontece na vida, ou poderia acontecer. Ficou excitante, até. Vê-los fazendo sexo me deu vontade de fazer o mesmo, não necessariamente de estar ali no meio. Em Tatuagem (2013, de Hilton Lacerda) há uma cena de sexo homossexual entre dois homens que também achei super interessante, apesar de não ter me excitado. Talvez isso tenha ocorrido pois o contexto sexual da cena em questão em Tatuagem é de um sexo com amor, paixão, liberdade, enquanto o de STANLEY seja um sexo de urgência, de atrito. STANLEY explicita um sexo possível e, dentro de sua narratividade, faz sentido contá-lo sem censurá-lo ou usar de metáforas para mostrar que ele aconteceu.

É intrigante perceber os jeitos e trejeitos de cada um dos personagens que protagonizam os colegas e parceiros sexuais: nem estereotipados nem suavizados. Ambos os personagens fogem do perfil de homem gay assumido e homem gay enrustido, apesar de dialogarem com algumas características pré-concebidas sobre os respectivos perfis. Eles pareciam que estavam mais afim de explorar aquela situação, sem modismos e achismos sociais, o que ganha pontos para o filme. Não esteriotipá-los é massa, é sensível e deu certo em STANLEY. No geral, atores e atuações ótimos, cenas separadamente muito bonitas, interessantes. Achei um filme bonito de ser visto. Roteiro consistente.

A Violência

No filme é perceptível apontar, de alguma forma, uma relação com MALHA (2013), documentário do mesmo diretor e que antecede STANLEY. MALHA é sobre a malhação do Judas no interior da Paraíba, que é considerada um festejo popular e mistura religião e violência. Não sei se vou conseguir me explicar, mas a relação e conversa entre os dois filmes passeia por suas tramas. São propostas distintas, mas existe um olhar cru em ambas as produções que é bem interessante e semelhante. Talvez a expressão seja “olhar realista” ou “sem floreios” ou “masculino” – acho os dois filmes super masculinos, inclusive, não pelo lado pejorativo da palavra nem estou associando masculinidade à falta de sensibilidade –  que liga STANLEY a MALHA. Uma vibe meio violenta, pesada, difícil de engolir.

STANLEY não é violento, mas ao mesmo tempo é. Narra e desenvolve realidades que, de tão possíveis, são muitas vezes escondidas, omitidas, ignoradas. Escancará-las dói, pode até chocar. STANLEY também choca, também dói; STANLEY também é seco e verde como o sertão que retrata. A violência – ou seria o impacto com o real – está presente na galinha que é morta, no som do tiro, nos poucos diálogos, nos silêncios, na intensidade do sexo, na história em si, no desfecho. A sensibilidade também pode ser violenta, e no caso de STANLEY o sensível e o violento se entrelaçam e se confundem, causando impacto e beleza.


Escrito em outubro de 2016
Ilustração do texto: still de STANLEY


Ficha técnica STANLEY
Gênero: Ficção
Diretor: Paulo Roberto
Duração: 19 minutos e 37 segundos | Ano: 2016 | Formato: Digital
País: Brasil | Local de Produção: Paraíba – BR | Cor: Colorido
Sinopse: Quando eu tinha sete, oito anos… vi meu pai conversando com um amigo. Não entendia muito bem o que eles estavam falando… o que eu mais lembro era dos lábios mexendo. Fiquei com vontade de beijar a boca do amigo do meu pai!


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