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Instagram

Era meio do carnaval. Eu estava em casa, na cama, à noite, morta de Olinda e me resguardando para o dia seguinte. Cansada, mas sem sono e entediada. Meu namorado dormia, quase roncava, ainda cheirando à cerveja e qualquer outra coisa alcoólica. Pensei em acordá-lo para transar. Olho pro lado, pra boca aberta e olhos pedrados de tanto cansaço e desisto. Foi então que resolvi ativar a internet do meu celular e abrir o Instagram.

Nesse carnaval, um amigo que ia se hospedar lá em casa não pode ir, por falta de grana e acho que por falta de organização e planejamento também. Ele adora carnaval. Por ele e por outros não terem ido, fiquei com receio de postar fotos e vídeos e coisas carnavalescas no Facebook e Instagram pra não ajudar na bad. Depois fiquei sabendo que ele nem teve bad e eu tenho que, mais uma vez, parar de me preocupar com os outros nessas situações – ou de me preocupar mais com os outros do que com meus quereres medíocres e completamente plausíveis.

Me poupei de postar fotos do carnaval durante o carnaval também por preguiça e falta de wifi. Mas naquela noite em meio ao carnaval pernambucano, cansada e entediada, ouvindo os barulhos que meu namorado fazia enquanto hibernava, apelei para o Instagram pra me distrair, como sempre faço.

Abro o danado e lá aparece uma enxurrada das danadas: as fotos do carnaval. Entre muito glitter (o nome mais descolado para a famigerada e tradicional purpurina), fantasias e multidão, comecei a me sentir mal: por não estar postando fotos também, por estar deitada na cama quando poderia estar em algum lugar da cidade curtindo até meu pé esfolar, por não parecer estar curtindo aqueles dias tanto quanto os outros pareciam estar curtindo em suas fotos.

Numa ou noutra imagem, pensava “Eita, eu tava aí também! Como não encontrei fulaninho?”. Fulaninho estava tão lá quanto eu, tão fantasiado quanto eu, tão carnavalesco quanto eu, mas não era eu na foto carnavalizando. Pensei “será que tenho algum problema?”. Devo ter. Sempre penso que tenho, e depois fico feliz por não ser igual a todo mundo e depois quero ser igual a todo mundo pra sofrer menos, e acompanhada.

Naquela noite não passei mais que dez minutos no Instagram assistindo o carnaval dos outros. Meus olhos pediam para serem fechados, minhas pernas queriam ficar na horizontal o tempo todo, ou pra cima pra fazer o sangue circular. Meu namorado emitia sons que me lembravam que eu também tinha que dormir. As fotos eram distintas, mas se repetiam no tema, nas poses, na intenção. Comecei a sentir sono e preguiça: sono do dia, preguiça do carnaval dos outros e de mim enquanto platéia. Saí do Instagram, desliguei a internet e fui dormir.

Seria eu O Grinch do carnaval, só que dentro dele? Segui meus dias de ladeiras, blocos e sol. Tirei várias fotos. Pedi para me fotografarem, fotografei os outros. Não abri mais o Instagram. Acaba o carnaval, volto para a cidade onde moro, adoeço, descanso. Me permito finalmente postar minhas fotos. Elas não são mais notícias de última hora, são lembranças recentes. Agora todo mundo vai saber que também tive carnaval, que também me fantasiei, que também estava com uma galera e encontrei pessoas. Tá tudo lá no Instagram.


Escrito em março de 2017


Ilustração: Gabriela L’Amour

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Categories: Reticências

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Bloco da Saudade

“Quem me vê sempre parado,
Distante garante que eu não sei sambar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”

“Eu tenho tanta alegria, adiada,
Abafada, quem dera gritar…
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”

[Trecho de Quando o Carnaval Chegar – Chico Buarque]

Que coisa mais deliciosa.
Essa música, essa letra, essa composição, som, sensação, talvez seja uma das minhas favoritas. O top one do meu top five. Escuta.

Ela me lembra um barulho de trem prestes a andar nos trilhos, um coração batendo antes de uma grande emoção, ou até de uma parada geral. Chico tá cantando quietinho, “mufino”, mineirinho, gostosinho. A letra diz isso, com um recado único: me aguardem no Carnaval.

Parece aquela respiração profuuunda que às vezes a gente dá ao se deparar com as pedras nos meios dos caminhos que a vida – e a gente mesmo – coloca. Parece aquele sentimento de quando a gente tá perdidamente enlouquecido por alguém, mas não diz. E quando diz: ai que delícia que é a festa da carne!

Minha primeira lembrança de carnaval vem da prateleira de CDs lá de casa, em Recife. Mês de fevereiro. Enquanto Salvador anuncia suas atrações nos trios elétricos cheios de axé e cordão de isolamento; enquanto o Rio da Rede Globo se prepara para as comissões de frente, bateria e alegorias, é hora de limpar a poeira do CD “Saudade vai Passar”, do saudoso Bloco da Saudade. Vovó Cecinha abre sua cervejinha, oferece às empregadas, aos pedreiros, às visitas.

A casa de Recife estava sempre em obras. O verão era a época propícia para reformas, puxadinhos, cerâmica nova e reboco. Vovó dá o play no CD e naquele mesmo lugar, em meio a poeira de cimento, criança correndo e familiares foliões, ali mesmo começou o que hoje chamo de Carnaval.

Não nasci fazendo passo de frevo, mas logo pequenininha mainha me levava pro Eu Acho é Pouquinho, uma versão infantil do olindense e vermelho bloco do Eu Acho é Pouco. Durante anos os adultos da família juntavam todos os meus primos no bloco da Ala Ursa (ou seria A La Ursa?). A gente saía pelo bairro cantando “Ala Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”. Pirangueiro significa mão-de-vaca no Nordeste, e com as moedinhas dos bondosos comprávamos sorvete pra espantar o calor.

Um pouco mais velha assisti, da varanda do prédio de um hotel, o Galo da Madrugada, conhecido como o maior bloco de rua do mundo, e quem disser o contrário leva uma pisada no pé de quem é de fato bom pernambucano.

Posso dizer que eu cresci com o carnaval.

Aprendi o que é ressaca e ressurreição brincando carnaval, aprendi a me perder e a me encontrar nele também. Aprendi a me soltar nas ladeiras de Olinda, a limpar suor com mais suor, a andar em multidões, a fazer e desfazer amizades e viver paixões passageiras. Aprendi que jovem não sou eu, e sim a terceira idade que se reúne em blocos e vai com todo o gás que já nem tem, serpenteando as ruas do Recife Antigo. Esses sabem viver.

Como forma de presente de aniversário online, uma amiga me dedicou um texto. Ela é uma espécie de fã e editora de tudo que escrevo (publicado ou não), e receber um presente desses logo dela me deixou toda abestalhada.

Ela abre o texto dizendo que “Falar de Marina é fácil porque me lembra o Carnaval, que consequentemente me lembra: intensidade, alegria e saudade. De quando a gente tinha 12 anos e o Recife Antigo tava começando a se esquentar para a festa mais bonita do ano, a gente ia pros ensaios do maracatu da minha mãe e quando a época chegava a gente se contentava com uma latinha de refrigerante, a rua do Bom Jesus e os desfiles passando. E assim como os desfiles, a vida também anda e a gente andou com ela…”

A gente andou e mais parece que correu de boato de arrastão em plena ladeira da Sé de Olinda. O susto foi tão grande que tropecei e vou passar meu Carnaval na puta que pariu. Palavreado pesado para uma distância sem medidas.

Talvez faça parte do meu relacionamento sério com o danado do Carnaval testar distâncias. “Bora ver se tu é fiel a mim mesmo, estando assim soltinha do outro lado do mundo”, ele diz. Talvez faça parte mesmo. E não é que ele quase me escapa da lembrança? Tenho estado tão ocupada nessa vida que ele ia passar batido sem bater no meu coração. Mas o que bateu agora foi a saudade, e com ela todo um bloco de “tô me guardando pra quando no Brasil chegar”.


Originalmente publicado em março de 2014 no primeiro blog que tive, da rede Sem Réis


Ilustração feita por Guilherme Lira, amigo querido e designer, como presente de aniversário em 2014


Trilha sonora para o texto e para momentos de saudade e expectativa pelo carnaval: Quando o Carnaval Chegar, Chico Buarque


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Categories: Made in Austrália, Reticências