Tag : bissexual

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Meu sonho lésbico acaba em pizza

Tive um sonho em que beijava, só beijava, uma menina desconhecida. Ela não me lembra ninguém que conheço, mas se parecia real. No sonho não saberia dizer se a gente falava a mesma língua porque a gente não parecia conversar por meio de palavras, e sim sorrisos, tchauzinho com a mão, dança. E nem era uma dança sensual do acasalamento. Era uma dança individual no meio de um monte de gente que estava dançando ou não.

Lembro que ela estava bem vestida no que diz respeito a quantidade de roupas. Parecia ser inverno ou um outono mais pesado. Onde a gente tava parecia estar quentinho, tipo um apartamento com aquecedor central. Lembro do cenário parecer coisa de fora do Brasil. Era um lugar em que nunca havia estado, mas ao mesmo tempo eu estava muito confortável em estar ali.

O sonho foi sobre algo que eu ainda não tive e com quem eu ainda nem conheci. O sonho foi sobre um encontro tão natural que nem real foi. Nada parecia forçado, forjado, não era Tinder, não era João Pessoa. Não tinha ninguém com uma prancheta preenchendo minha ficha pra ver se eu era bissexual, heterossexual ou homossexual. Não tinha ninguém me julgando, querendo saber se eu era bi de Instagram ou da vida real. Ninguém quis saber se eu sabia usar os dedinhos, a língua, se eu prefiro pau.

Era o lugar ideal para se ser o que se é: sem julgamentos, sem perguntas, sem selfies, sem ser festa hétero nem festa gay, sem rótulos, sem muita gente conhecida, sem padre, pastor, partido, bandeira, sem gente forçando a barra.

Aquele lugar parecia ser um sonho. E foi. Sei que aquele cenário e contexto se assemelham muito ao que, aqui dentro, tenho sonhado nos últimos vinte e cinco anos: conforto e liberdade. Conforto não de luxo, mas de se estar à vontade e segura numa determinada situação, lugar, pele. Liberdade não de oba-oba, mas de leveza, de “me deixa em paz”, de nem isto nem aquilo, de despreocupação. E não estou falando de orgulho lésbico ou coisa do tipo.

O beijo, que foi o ápice de “eita eita” do sonho, aconteceu de forma bem despretensiosa. Lembro que ela estava dançando no mesmo ambiente que eu e brincando com uma massa de pizza, não me perguntem o porquê. Eu ria daquela situação meio dança meio massa de pizza, e ela foi chegando perto de mim, dançando e mexendo na massa de pizza, quando de repente esticou a massa um tanto que se abriu um buraquinho no meio. Por esse buraquinho ela posicionou a boca e me roubou um beijo. Simples e esquisitinho assim. Achei fofo.

Nessa hora, os amigos que estavam observando a cena começaram a rir, sem mangar. Eles riram e continuaram a dançar, beber, conversar. Eu fiquei morta de vergonha, meio surpresa e meio curiosa, mas achei a atitude dela super criativa. Hétero ou não, meu Sol em Aquário admira investidas leves e diferentes.

Pronto. Acabou o teor lésbico daquele sonho nada erótico, a não ser pela naturalidade do desenrolar das coisas. Me senti orgulhosa por meu sonho/inconsciente não sexualizar algo que, na verdade, tinha tudo para ser sexual. Nem tornar a menina e eu objetos. Nem parecer um filme pornô roteirizado e dirigido por um cara que fantasia a relação entre duas mulheres como putaria pra macho assistir.

Quando me perguntam hoje se sou hétero, bissexual, o que for, respondo que sou o que a pessoa achar que eu seja. Cansei de ter que provar orientação sexual pra essa juventude que se diz desconstruída, mas que é mais careta que qualquer coisa. Acreditam que tenho amigos gays que sempre desconfiam da heterossexualidade masculina e ao mesmo tempo dizem ter nojo de buceta? Para eles, todo homem hétero é na verdade bi ou gay, e homem gay se reduz a ser homossexual. Que preguiça, gente.

Nesse mundo que se diz desconstruído e da paz, se eu disser que sou bissexual posso acabar ofendendo quem é lésbica. Se eu disser que sou completamente hétero, vou ofender a mim mesma. Se eu disser que sou homossexual, estarei mentindo. Sempre vai haver quem diga “Ah, bissexualidade não existe”; “Diz que é hétero mas tem vontade de ficar com fulaninha. Deus tá vendo”; “Heterossexualidade não existe”; “Só é sapatão quem fica só com sapatão”; “Essas mina hétero querem tirar nosso lugar de fala lésbico dizendo que são bi”; “Só acredito vendo”.

Tenho saudades daquele sonho. Espero um dia conhecer a menina da pizza no plano das realidades. Imagina só que maravilha viver num mundinho em que beijar garotas seja igual a beijar garotas, nem mais nem menos, e pizzas sejam um jeito criativo de conhecer pessoas interessantes e pouco preocupadas com rótulos, a não ser se é marguerita, pepperoni ou portuguesa. 


Escrito em abril de 2017


Arte emprestada deste post


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