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Beija Eu

Quando eu era pequena, Marisa Monte era a Anitta dos anos 90: tocava em todas as rádios, trilhas, shows. A gente tinha alguns CDs dela em casa, mas não sei que fim deram a eles. Nunca mais apareceu outra Marisa Monte no mundo da música brasileira. Apareceram Vanessas Da Mata, Céus, Tulipas Ruiz da vida. Mas outra Marisa, jamais.

Neste texto, dentre tantas músicas preferidas cantadas por Marisa, eu escolhi falar de  “Beija Eu”.  Não havia prestado atenção nos outros versos da música para além do refrão, que diz, pasme, “beija eu/ beija eu, beija eu/me beija”. A música é quase que somente esse mantra do beijo.

Mas tem uma parte, parte esta que agora me chamou a atenção, que diz assim: “Seja eu, seja eu, deixa que eu seja eu, e aceita o que seja seu, então deita e aceita eu”. E é aí, nesse verso tão lindo e tão real, que mora o problema, a solução e a razão de eu estar escrevendo este texto.

Talvez seja só comigo, mas eu acho que não, hein. O que acontece é que cada vez mais sinto que encontrar um cara massa (do meu ponto de vista e do que escuto por aí) nos dias de hoje é um desafio. Será que nas gerações anteriores as mulheres faziam a mesma reclamação?

Estar morando na cidade de João Pessoa, capital paraibana, é o cenário ideal para refletir sobre vida amorosa e relacionamentos. Porque? Porque aqui a coisa complica, pelo menos para mulheres heterossexuais. Amigos homossexuais concordam, sob o ponto de vista deles. Não sei a opinião dos homens heterossexuais. Sempre acho que pra vocês está tudo muito bem, as mulheres são massa (sim), lindas (sim) e interessantes (sim!). Sempre acho que, do ponto de vista masculino e heterossexual, uma quantidade confortável de nós, mulheres massa, lindas e interessantes, está atrás de vocês ou sempre disponível. É assim mesmo, gente?

Generalizar eu não posso nem devo, mas quero um pouquinho. Vejamos bem, eu não convivo ou circulo em ambientes considerados de playboy, tipo boate, bar que toca forró estilizado, coisa do tipo. Então realmente fica muito delicado eu chegar aqui, generalizar e dizer que é um desafio para to-das as mulheres hétero (ou bi) de João Pessoa em encontrar uns caras legais pra trocar uma ideias, dar uns beijos, trepar, sair às vezes e o que tiver de ser, será.

Eu espero ler este texto daqui a vários anos e rir da minha cara como alguns devem estar fazendo. Por enquanto que isso não acontece, a preocupação ainda existe.

Tenho medo de cair nos clichês que a gente vê acontecer ou que dizem pra gente que vão acontecer. Clichês tais como “homem não gosta de mulher com personalidade” “homem não gosta de mulher que diz o que pensa” “homem não gosta de mulher que fala palavrão” “homem é tudo machista” “homem não vale nada” “homem não gosta de discutir relação” “não se mostre 100% para não assustar ele” “ignore que ele volta/te procura” “faça joguinho que só assim ele vai se importar com você” “nunca fale do seu ex no primeiro encontro” “escove os dentes antes que ele acorde” “homem é assim mesmo”.

Poxa. Mas que tipo de relacionamentos e que tipo de homens e mulheres são esses, se é que esses clichês são verdadeiros? Tenho medo de me prender a eles porque tenho medo de que sejam verdade. Se eu acreditar em todos esses pré-requisitos, como vou me deixar ficar interessada por novos caras? Vou acabar tendo receio até do despertar de um interesse, e não quero viver com mais esse medo na minha vida.

De um jeito ou de outro, as histórias que me contam – seja da minha avó ou vindas de um filme de comédia romântica – reforçam aquela história de que homem não gosta de mulher com personalidade forte ou com qualquer personalidade que afronte ele, que o faça repensar, que o cutuque, que o surpreenda, que mostre pra ele que uma mulher é capaz de opinar sobre uma roupa como também sobre questões políticas. Ou sobre música. Ou sobre futebol. Sobre o que for. Que mostre a ele que ela existe. Lá no fundo, ainda me assombra aquela voz irritante e aguda que diz:

– Siga tal modelo de mulher para ter um homem ao seu lado.

“Deixa, eu me deixo”, canta uma Marisa que tenta nos lembrar do desprendimento com regras, jogos, certo e errado na conquista, no enlaçar de corpos, no amor. 


Minha avó insiste, toda vez que lembra do relacionamento complicado e machista dela com o meu avô, de que ninguém é dono de mim, de que eu tenho que ser autêntica e seguir meu próprio caminho. Minha mãe fez isso com a vida dela inteirinha. Minha irmã mais nova é a personalidade e a autenticidade em pessoa. Minhas amigas são todas maravilhosas e complexas e contraditórias, muito fortes e também muito frágeis.

Mas a realidade me faz crer que todo cara pode ser o (péssimo) marido que meu avô foi pra vovó, que provavelmente o pai do meu filho (se tiver um pai) pode ser tão pai quanto o meu nunca foi, que quase todo cara é babaca, que ninguém vai gostar de mim pelo que eu sou porque eu tenho que suavizar a Marina que tenho sido e construído. 

Todas essas afirmações me assombram, por mais que eu insista em assustá-las e mandá-las para bem longe. Essas afirmações também entram em conflito com alguns caras ótimos que cruzaram minha vida. Ou que me elogiavam para além da questão física. Ou que são meus amigos sem nunca terem tentado algo a mais. Ou que tentaram e foi muito bom. Esses caras estão longe de serem perfeitos. Eu também estou distante da perfeição, ou do que eles consideram perfeito.

Marisa ainda lembra, cantando, que é lindo quando temos a liberdade de sermos a gente e de nos entregarmos da nossa forma: “Deixa que eu seja o céu, e receba o que seja seu”. Não posso negar as coisas boas que já vivi e tenho vivido. Por causa delas, tento me apegar à ideia de que, em um lugar muito distante como a Austrália ou nem tão distante assim, como João Pessoa, tanto eu quanto minhas amadas amigas (solteiras ou não) teremos encontros – de alma, de corpo, de ideias – muito bons ao longo das nossas vidas, que vão superar todos os caras nada a ver pelos quais a gente já teve que conhecer, aturar e se relacionar.

E a gente vai poder ser a gente sem se preocupar em ser menos nós ou em oferecer mais do que podemos, só porque o outro só recebe o que quer e aceita um padrão do que a gente deveria ser. Vai chegar um dia em que a gente vai ser a gente, e o outro vai aceitar e abraçar quem realmente somos. Vai chegar um dia em que a música de Marisa Monte vai fazer todo o sentido, e seremos beijadas de verdade por sermos nós mesmas.


Escrito em Junho de 2016


Ilustração: Gabriela Amorim


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Categories: Na Cama com Marina, Reticências

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Nada menos que isso

O primeiro cara por quem me apaixonei é 10 anos mais velho que eu. Eu tinha 15 anos na época, era bv, virgem e não menos libidinosa que qualquer adolescente de quinze anos com namoradinhos e peguetes.

Ele era mais velho e deve ser um dos caras mais bonitos que já vi, por fora e por dentro. Despadronizem suas imaginações: ele não parecia com nenhum Brad Pitt (ainda é sinônimo de “gato”?), George Clooney (sempre gato), Cauã Reymond (quero) ou um hipster ctrl C + ctrl V (not today, Satan). Ele era uma mistura do boy de Mulan com aquele ator Freddie Prinze Jr no fim dos anos 1990 e começo dos 2000.

Para além de muito do bonito, o rapaz era doce, era educado. Era meio leso. Riso fácil, sorriso largo. Brincalhão, humor juvenil. Sem frescura. Atencioso, super atencioso! Suficientemente alto. Olhar jovem e simpático. Voz suave, gostosa, forte, de abrir as pernas de qualquer ser vivo, homem ou mulher. Sotaque: por-tu-guês. Sotaque português, quando compreensível, pode ser bem sexy. Aos quinze anos de idade, ninguém precisa de tantas razões assim pra se apaixonar ou pra ficar molhada lá embaixo. Ele era, portanto, um amor adolescente entregue de bandeja.

Não me considero exigente, mas não fui de me apaixonar muito na escola. Eu me apaixonava por um e vivia aquele amor platônico durante anos. Nada acontecia, nada aconteceu. Eu era intensa e fiel nas minhas paixonites infantis. Não tinha capacidade pra pagar de piriguete mirim, porém admirava quem era assim. Tinha amigas que mudavam de “amor da vida” a cada mês. Eu não conseguia, e sofria como uma Bridget Jones menor de idade por causa disso.

O cara por quem me apaixonei quando tinha quinze anos talvez tenha norteado o tipo de pessoa que realmente me interessava e me interessa. Na prática foram muitos completamente o contrário daquela primeira paixão, a começar pelo meu primeiro namorado. No fundo, tudo é processo: o que é bom e o que é ruim. Mas como diz a senhora minha mãe, tem coisa que a gente faz que nem é coisa “de gente jovem”, e sim de “gente burra mesmo”. Vivendo e aprendendo.

Dias atrás, enquanto escutava alguma música de Céu, lembrei dele, daquele cara por quem me apaixonei perdidamente quando tinha quinze anos. Sorri. Ele era e é, de fato, uma pessoa linda. Pensando nele e na sensação boa que pensar nele me proporciona, lembrei do meu atual “ele”, meu namorado, companheiro, amante. Meu homem – sem medo de dizer isso, porém ciente dos possíveis olhares tortos de quem acha errado feio absurdo careta antigo brega, tanto a expressão quanto a sensação. Tô feliz. Né isso que importa?

Ali, escutando Céu e lembrando de um passado bom, me senti ótima por estar com alguém tão massa quanto minha primeira paixão parecia ser, alguém que me merece e a quem eu consigo olhar e pensar “Finalmente”.

Eu sabia o que valia mais a pena aos quinze anos de idade do que aos vinte. Não acho ruim ficar com pessoas nada a ver, mas é que um dia a gente cansa. Houve sim um ou outro cara muito massa, especial de verdade, mas que não tivemos a oportunidade e o timing de ser mais do que fomos. Não me arrependo de nenhuma putaria, aventura, Tinder, amor platônico, paixão fudida, boy sem futuro. Hoje está tudo bem, devem estar todos bem, espero que estejam todos bem – e melhores. Mas uma dose de “já deu” é bom de vez em quando.

Não sei para onde vou com meu atual relacionamento nem quanto tempo vai durar esse ajuntamento, esse namoro, esse bem querer. Não importa. O que importa é que ficar com os certos faz muito bem pra saúde, para cútis, para o respirar, para acordar nesse mundo muitas vezes intragável.

O que importa é que, sabe, como diz meu amigo Diógenes: tô véa. É tão mais suave viver com quem nos faz bem, é tão mais gostoso estar com alguém com quem o sexo é de altíssima qualidade, é tão mais saudável estar com alguém saudável de cabeça (até então), é tão feliz estar com alguém que me faz feliz, é tão mais humano começar um relacionamento com alguém que não mede elogios, que não evita discar meu número, que não compete comigo, que não é babaca, que não age feito um moleque, que me trata bem, que me ouve, que não tem medo de mulher, que não tem medo de ser homem, que não é perfeito nem tenta ser,  que não se incomoda com menstruação, depilação, que lava minhas calcinhas, que é leve ou tenta ser leve apesar da bagagem pesada.

É bom estar com alguém que me faz sentir mulher, e não menina. Mulher, e não mãe dele. Mulher, e não filha. Mulher, e não buceta. Mulher e não bróder. Mulher, e não terapeuta. Mulher, e não irmã. Mulher, e não babá. Mulher, a mulher, não “mais uma”. É bom estar com alguém que me faz sentir gente, e eu não mereço nada menos que isso.


Escrito entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017


Imagem: fotografia do videoclipe Perfume do Invisível, feita por mim com o celular | Intérprete e protagonista: Céu | Direção: Esmir Filho


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Categories: Reticências

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Preciso dizer que te amo

Eu preciso dizer que te amo… Tanto. Mas quem será você? Quem você será? Mais difícil que te encontrar, é talvez saber que posso nunca te conhecer. Sei lá. Vai que era pra gente ter pego o mesmo ônibus João Pessoa – Recife naquele feriadão. Vai que, se eu tivesse ficado mais um dia em Barcelona, nossas vidas teriam se cruzado.

Você já existe? Você já existiu em minha vida? Você ainda vai existir? Por quantos e quantas eu ainda tenho que passar pra te conhecer? Será que a gente já se conhece? Acho improvável. Seria muito How I Met Your Mother da minha parte.

Você gosta de séries? Vai ser com você que terei os filhos que tanto sonho, num futuro um tanto distante da minha realidade? Ou você vai aparecer depois, já com seus filhos e eu com os meus, e a gente vai juntar todo mundo e ser feliz?

Espero que meus amigos gostem de você. Meus amigos são muito importantes pra mim. E você, tem amigos do peito? Tens amigos pra contar histórias lindas e constrangedoras sobre você?

Morar na mesma casa, será que rola pra gente? Queria que você falasse a minha língua, mas não precisa ser brasileiro não. Queria que você entendesse meu sotaque, visse. Ou que pelo menos achasse fofo meu jeito recifense de me expressar. Queria que você quisesse conhecer a minha infância: ela foi linda e emocionante. Conhecer a minha infância é também conhecer a minha rua, a do Chacon, em Recife. É minha mesmo, minha e da minha família. Hoje em dia os novos ricos do bairro vão dizer que não, mas eles não sabem o que dizem; chegaram depois com seus carrões e carões.

Espero que você goste de cachorros. Eu adoro cachorros! Sempre tive vários! Espero que você me ensine a gostar do frio, ou que compartilhe o amor pelo calor comigo. Vamos à praia, vamos! Praia de nudismo acompanhada: eu sempre quis. Uma prima minha tem uma pousada em Porto de Galinhas que eu vou desde criança e tenho vontade de te levar lá. A pousada é ao mesmo tempo família e romântica. Acho que você vai gostar.

Tenho medo de que você não goste do que eu escrevo, ou até pior: não queira ficar comigo porque escrevo. Aliás, se você não quiser ficar comigo porque escrevo, você não é você, e sim tantos outros. Sabia que um namorado que tive já me impediu de postar um texto? Foi, foi. Desde então me preocupo em escrever e acabar perdendo ou deixar de ganhar pessoas que gosto. Sei que no fundo eu não deveria me preocupar com isso. Sabe Érick, aquele meu amigo que se parece com Paulinho da Viola? Então, ele já me disse pra não noiar com isso. Ele até disse para eu postar o texto que esse meu ex namorado tinha impedido, mas eu não postei não. Acho que ainda era apaixonada por ele, infelizmente. Na verdade quem me impediu de postar o tal do texto fui eu.  O que esse ex namorado fez foi dizer “Não quero que você poste”, e eu, de burra e apaixonada, não postei. Que loucura. 

Será, rapaz, que você vai gostar de escrever também? Será que vamos escrever juntos? Ah, aí já é pedir demais, né não. Precisa mandar um homem desse não, Seu Deus. Um que não se incomode com o fato de eu escrever já tá de bom tamanho.

Gosto de quem me desafia. Você vai me desafiar? Sei que desafio pode ser confundido com competição ou com machucar o outro. Peço-te que não me machuque, por gentileza. Eu sofro muito, apesar de não parecer. Considero brigas, discussões, conversas, tudo isso aí necessário e saudável. Mas brigar por brigar não. Não tenho saco para isso, e acredite: ganho brigas como ninguém. É que uma coisa é o casal brigar, discutir e depois cada um ficar pensativo, tentar refletir e chegar numa solução juntos (nem precisa ser no mesmo dia). Outra coisa, meu querido, é um ficar ofendendo o outro de graça. Detesto ofensas. Não me ofenda, please. Se você pensou em me chamar de puta como ofensa, está errando em dobro: primeiro, porque sou puta MESMO. Segundo, porque se você acha “puta” uma ofensa, é porque não temos MESMO nada a ver.

Será que você é homem? Será que você é mulher? Será que vamos nos preocupar com isso?

Não precisa entrar pra grupo feminista no Facebook pra ficar comigo. Não precisa saber usar a palavra sororidade. Não precisa, meu amor, problematizar tudo. Só precisa me respeitar, respeitar minhas ideologias, respeitar meu caminho, minha história. Que o interesse pelas minhas bandeiras venha da forma mais natural que for possível pra ti.

Não precisa abrir a porta – do carro, da casa, do banco, do bar – pra mim e nem ficarei ofendida se você o fizer. Acho legal, acho delicado. Eu também abro portas para as outras pessoas. Eu também vou querer abrir portas para ti.

Gosto de museus, exposições, das caretas até as mais livres e contemporâneas. E tu, gostas? Adoro viajar. Vamos viajar juntos?! Gosto de ficar em casa também, sozinha ou acompanhada. Você me acompanha no meu tédio?

Olha, uma coisa que gosto mesmo é de mesa de bar. Se você tiver afim de me acompanhar, então, estamos feitos. Imagina eu e tu, tu e eu, numa sexta-feira pós trabalho, cansados e ao mesmo tempo animados com o primeiro gole de cerveja, rodeados de amigos queridos – meus, seus, nossos. Imagina, meu amor, como seremos felizes nessa sexta-feira.

Não precisamos estar sempre grudados. Grude é bom às vezes, mas lembra que sou de aquário. Você pode até nem acreditar em astrologia, mas sua amada aqui acredita e assina embaixo. Gosto de estar sozinha, e estar sozinha não significa estar solteira, disponível e à procura. Significa estar comigo mesma. Me deixe comigo que eu me resolvo.

Sabe uma coisa que adoro? Lin-ge-rie. Ah, Mas isso você já deve saber. Todo dia é um conjuntinho diferente, né não? Pode me dar lingerie, não vou me ofender. Gosto de me vestir assim pra você e pra mim também. Hoje em dia visto G embaixo e sutiã 46. É tudo grande mesmo, menos a cinturinha. Se eu estiver mais magra, é M embaixo e sutiã 44. A cinturinha permanece.

Você tem problemas com peso? Digo, não com o seu peso, mas com o meu. Eu não. Na verdade verdadeira, nunca ouvi nenhuma reclamação sequer partindo de alguém com quem já estive amorosamente e/ou sexualmente acerca do meu peso. De amigos gays e amigas mulheres já, centenas de vezes. Até que eles e elas perceberam que eu era firme nesse assunto e não ia me deixar abater pelos padrões alheios.

É, meu amor, sou uma pessoa bastante firme em alguns aspectos. Talvez por isso você goste de mim, assim espero. Não quero que você desconstrua meu lado empoderado, mas se quiser trazer leveza a ele, estou de braços abertos. Acho até que preciso.

Quero que você me leve para conhecer o seu mundo. Adoro conhecer outros mundos pelos olhos de quem os vive. Quero muito te apresentar aos meus amigos: eles também são minha família. Falando em família… Olha, a minha é um pouco grande. E barulhenta. Vovó até hoje bebe. Vovó vai querer conversar horas e horas contigo, mas eu te ajudo a dar uma escapulida dela. Vovó me ama muito. Você precisa entender isso, que sou neta criada por vó. Mainha precisa gostar de você. Mainha é a melhor pessoa do mundo, e se ela gostar de você, vai te tratar bem até demais. Tu precisa conhecer Milah, minha irmã mais nova. Ela é a Ivete Sangalo da família. Ela é uma figura. Ela também tem que gostar de você, porque ela me ama muito e eu amo muito ela.

Será que vamos votar na mesma pessoa? Será que você concorda que (Michel) Temer na presidência foi golpe? Será?

Sabe qual o sentimento que quero ter por você? Eu quero te olhar e dizer “PUTA QUE PARIU”, de tanto amor que vou sentir por tu. De tão massa pra mim e pra gente que tu vai ser. Eu quero ser massa pra tu também. Eu quero que tu me olhe hoje como tu me olhou da primeira vez: com sede, com surpresa, com intensidade. Mas agora com amor. Carinho. Paz. Eu quero paz! Eu quero sentir paz por alguém. É tão bom isso, né. Eu quero ser tua paz e tua euforia. Quero te deixar com saudade e ao mesmo tempo com segurança em mim. Não quero te provocar ciúmes, não. Mas isso não depende só de mim, depende de você também.

Será que a gente vai ter grana? Será que vai ser um perrengue só? Em que momento das nossas vidas nós vamos nos encontrar? Se a gente tivesse se conhecido antes, a gente seria? E depois, teríamos tempo de sermos quem somos? A gente já é o fim de nós mesmos?

Queria te ver envelhecendo, mas não sei quando seremos um pro outro. Queria ver tuas primeiras rugas, queria te causar rugas, queria que tu achasse as minhas rugas bonitas. Me elogia. Me elogia, vai! Não precisa ser sempre. Não precisa ser uma declaração de Facebook. Não precisa ser aquelas coisas de novela. Vamos acompanhar uma novela juntos? Uma das seis, que tal? Uma de época, bem romântica e brega. Vamos a um show de brega! Bora mesmo. Vai ser massa.

Espero que tu goste de Recife. É minha cidade, tu sabe. Espero que tu curta João Pessoa. A gente vai pra lá de vez em quando, ok? Espero que tu goste tanto de silêncio quanto de falar. Espero que tu goste de escutar também.

Penso em adoção, você não? Vamos conversar sobre isso. Quero muito ficar grávida, com barrigão, acho lindo. Engravida comigo. Teremos filhos lindos, ou então só um tá bom. Mas não agora, meu amor. Agora eu tenho que me criar, para depois poder criar um filho contigo. 

Quero poder te olhar e rir de todos aqueles que não foram. Quero poder te olhar e saber que você é o cara. Ou a mulher. Ou sei lá. Quero achar que você não é você, mas vocês. Não é possível que só tenhamos um grande amor na vida. Será mesmo, amor? É viver para crer. Quero sentir que você é você, tu é tu, nós somos nós.

Queria que você existisse, assim ou assado, e que a gente se encontrasse de um jeito ou de outro, por aí ou por aqui. E que então, nesse momento do começo de nossas vidas enquanto nós, eu olhasse pra tu, tu olhasse pra mim, e a gente dissesse (só pra gente mesmo): finalmente te conheci, meu amor. Porque demorasse tanto tempo?


Escrito em setembro de 2016
Ilustração feita especialmente para este texto: Gabriela L’amour.
Sugestão de trilha sonora para o texto, pós-texto e qualquer pretexto de amor: Eu Preciso Dizer que Te Amo, por Dé, Bebel e Cazuza.

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O Jogo

Escrito em outubro de 2015

Ilustração: Gabriela Amorim.

 

Eu sei que ser amada(o) é bom demais. Mas olhando para trás e para o presente, sinto que também faz bem a gente se envolver, se apaixonar e até chegar a amar sozinha(o). Reciprocidade é um dos sentimentos mais confortáveis que já senti, mas se jogar num sentimento que cabe na imensidão que a gente guarda lá dentro é libertador.

Como medir uma paixão, um amor, uma entrega? Não fabricaram ainda fita métrica que seja capaz de tamanha precisão e ousadia.

Eu observo muito as amigas e pessoas conhecidas que pulam de um relacionamento para outro, sem grandes interrupções. Me perguntei váááárias vezes: sou eu que amo menos, ou sou amada de menos, ou escolho demais, ou me jogo menos, ou me preocupo de menos, ou sou menos que elas, ou, na verdade, sou demais para alguns?

Nunca esteve nos meus planos chegar aos 23 anos dizendo “já namorei com 5 pessoas diferentes, num total de 10 anos sendo namorada de alguém”. Muito menos chegar aos 23 anos dizendo “namoro com o mesmo cara há 8 anos, até perdi a virgindade com ele; atualmente estamos noivos”. Não me reconheço em ambas as afirmações.

Eu sei que a forma de contabilizar relacionamentos nos dias de hoje – ano de 2015 – Brasil – Mundo, é pelo status do Facebook. É sim. É sim. É sim. É sim, e ponto. É sim que a gente atualiza, curte, comenta, julga, manda inbox, fica desiludida(o), fica feliz. A gente vive o relacionamento dos outros e também convida os outros para viverem (ou seria “assistirem”) os nossos.

Acho in-crí-vel quem manda indireta amorosa/sexual pelas redes sociais. Simplesmente sou fã porque eu nunca fiz isso nem acredito que seria capaz. Uma menina maravilhosa chamada Kristyellen virou celebridade da internet ano passado ao postar o seguinte tweet:

“ñ quis mim beja na 5a serie e agora vem aki em casa pedi pra compra sacole fiado parese que o jogo virou ñ eh msm” 

O que eu tenho a dizer sobre essa menina é: parabéns.

Mas trazendo para a vida real, de carne e osso e decepções, essa nóia do jogo virar é, olha, uma bosta, viu. Não sei como, mas cheguei numa fase que deve durar uns 3 anos, por aí, em que eu comemoro mais quando eu fico interessada em alguém do que o inverso. E isso não contribui em nada para meus status do Facebook ou para “o jogo virar”. 

O jogo vira quando a gente não precisa mais jogá-lo. Acho que essa frase de efeito resume o que eu estou tentando dizer com este texto.

No início deste ano conheci um boy (boy = rapaz que a gente se interessa por razões que podem ser físicas e/ou intelectuais; um ficante, um namorado, um cara com quem a gente esteja em determinada época) que nitidamente jogava com ele mesmo. Talvez ele jogasse contra ele mesmo. Contra deve ser a palavra correta. E um belo dia eu perguntei: – Mas com que finalidade tu vai ficar jogando teu próprio jogo? A troco de quê?

Ele tinha ou tem sede por experiências, por quantidade, por diversidade, por mulheres e por muitos plurais. Eu já fui esse cara, mas num nível mais leve. Sou bastante curiosa e felizmente não me sinto envergonhada em assumir que, assim como muita gente nesse mundo, eu gosto de sexo. Na verdade me envergonha saber que o assunto ainda cause tanta vergonha.

Ao mesmo tempo, penso que com o tempo a gente enjoa de ficar com um monte de gente, ter uma lista de contatos mornos no Whatsapp, usar Tinder e companhia, sair e encontrar com todos os ex-boys de 2012 na mesma festa.

Jogar esse jogo cansa. E eu entendo que, por essas e outras, existem pessoas que se relacionam com o mesmo par para o resto da vida ou até com vários pares sem parar – sem nunca ter um tempinho para respirar, ficar quietinha, solteira, sozinha – pelo cansaço que é entrar para o jogo. Eu entendo mesmo e espero nunca ser assim: ou uma relação eterna ou uma atrás da outra, fugindo da palavra “solteira”. Se eu seguir essas regras, estarei abrindo mão de algo tão importante quanto se relacionar com o outro: o meu relacionamento comigo mesma, e, (in)felizmente, eu tenho sido bem fiel a esse status. Eu sei que é suicídio amoroso da minha parte. “Mas Marina, que vida triste é essa que você valoriza tanto estar só?”. Isso sou eu perguntando a mim mesma, ok? Ok.

Comecei este texto com uma questão em mente: a gente precisa estar namorando/casando para estar envolvida(o)? A partir dela, lembrei das vezes em que me apaixonei enlouquecidamente, ou me envolvi emocionalmente com pessoas que nem sempre correspondiam ao que eu sentia dentro de mim (ou nem souberam). Não foram tantos assim, vai. Eu sou novinha, dizem. Mas valorizo esses momentos, essas fases, esses sentimentos. Era verdadeiro, eu estava lá para provar. E foi muito bom.

Quando acaba um relacionamento, uma grande paixão, um amor, eu sempre ativo meu lado novela mexicana e penso “Ó, céus, nunca mais sentirei isso por ninguém na minha vida”. Eu sofro só de não estar mais gostando de alguém, porque gostar das pessoas é bom demais, vocês não acham? Claro que quando é recíproco, é tipo ganhar na loteria. Mas gostaria de reacender a chama da “jogação”, do gosto em gostar por gostar, e não porque a pessoa gostou da gente primeiro. Se não der certo, não deu, partimos para outros e outras. Por mais que o “jogo não vire”, por mais que o status do Facebook não mude. Sei que dói, mas existe todo um mundo para além de uma atualização pública de status de relacionamento.

Uma amiga minha não se envolvia emocionalmente com ninguém desde o último namorado e então começou a gostar de um cara. Antes dela se declarar pra ele, ele veio com aquela sinceridade que dói, mas melhor com ela do que sem ela:

– Desculpa, mas estou em outro momento da minha vida.

Numa semana ela me disse “Fiquei feliz por ter me aberto a mim mesma e assumir que eu estava gostando dele”. Na outra ela nem o cumprimentava quando o encontrava. Dia desses ela o reencontrou, cumprimentou e depois falou “É muito bom revê-lo e ver que não sinto mais nada”. Isso é se jogar! Isso é se reinventar!

O jogo vira mesmo nessas horas em que a gente se liberta dele e sente o que tiver que sentir, sofre o que tiver que sofrer e se joga de verdade.

 

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