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Marina quer tomar sol

Ser velho é muito confortável: você pode se fazer de doido que ninguém vai lhe incomodar, pode ser tarado que vão dizer “O senhor é muito saliente”. Nada além disso.

Queria ser velha pra não me preocupar com as coisas que me preocupo tanto. Queria não ter que me engajar em alguma coisa, qualquer coisa, só pra provar que sou jovem.

Ser jovem é muito cansativo, gente. Sério. Tem que sair o tempo todo, tem que ser inconsequente, tem que beber muito, tem que usar droga ou pelo menos experimentar, tem que estar “ligado” no último álbum daquela banda do interior da Suécia, tem que querer transformação, mudanças, carimbar passaporte, comer mal – pior parte do ser jovem, pra mim -, beber mal – chega de Cavalo Branco! -, viajar por lugares que “ninguém nunca viajou”, postar foto no Instagram o tempo todo, ser adepto da poligamia.

Tem que estar online! Quero estar velha a ponto de não precisar estar online: se quiserem falar comigo, liguem para minha filha do meio ou vão me visitar numa tarde de quarta-feira útil. Tragam biscoitinhos amanteigados com goiabada e se possível uma revista inútil.

Quero estar velha e fazer o cruzeiro do Roberto Carlos, se é que Roberto Carlos ainda estará vivo. Minha mãe diz que ele parece uma índia velha, vejam só. Quero estar velha e fazer minha primeira tatuagem aos 70 anos, os novos 30. Não suporto essa premissa de que, para se ser mais jovem que os outros jovens tem que se riscar todinho e quem não se risca, é velho.

Agora imaginem a liberdade de não ter que ir a um festival de música ou conferir a nova balada da cidade. Que alívio! Imaginem não ter que decidir entre constituir família, fazer concurso público ou ser muito wild and free e passar um ano mochilando por aí.

Imaginem só não ter que dar justificativas: essa deve ser a melhor parte. Imagina, menina, poder pegar aquele boy que todos os seus amigos dizem pra você não pegar e não ter medo nem sentir vergonha por isso, até porque, afinal, você vai morrer mesmo né.

Quero ser velha pra dar bom dia no Facebook. Quero ser velha pra dizer Fora Temer e Fora PT ao mesmo tempo. Quero ser velha pra não ter que fazer campanha pro PSOL sem me sentir mal por não estar pagando pau pro PSOL. E continuar sendo uma velha de esquerda, bem canhota de nascença.

Quero ser velha pra poder ser exigente sem vergonha nenhuma. Um amigo meu que tem um humor muito ácido e que eu adoro, diz que a avó, Dona Ieda, se aproveita do Alzheimer e da velhice mandando e desmandando na família. Quando ela quer tomar sol, diz “quero tomar sol”, e então alguém avisa “Ieda quer tomar sol”, e daí alguém vai lá e leva Dona Ieda para tomar sol. Eu quero ser essa pessoa um dia. Mas sem o Alzheimer, se possível. “Marina quer tomar sol”, diriam meus cuidadores e familiares. E eu tomaria um belo de um banho de sol. Que felicidade.

Eu quero ser velha pra não gastar tanta energia com pessoas nada a ver ou com relações nada a ver. Quero olhar para aquela amiga que só faz merda e pensar “é isso aí”, e ter a liberdade de dizer para ela “Bicha, tu só faz merda” e depois voltar a assistir minha novela. Ah, eu tenho que voltar a assistir uma novela de cabo a rabo quando for velha.

Quero poder faltar aniversário e festa de formatura sem culpa. Quero usar a roupa que eu quiser numa festa bem chique. Quero poder ser mal educada, dizer as coisas na cara e depois voltar com a minha vida como se nada tivesse acontecido, afinal, “deixa ela, ela tá velha”.

Quero frequentar um bar, um karaokê só de bichas velhas. Quero que esse encontro com as bichas velhas seja todas as quintas-feiras a partir das 20h. Quero continuar a fumar maconha. Quero todas aquelas aulas de quem não tem mais o que fazer: hidroginástica, pilates, desenho, cerâmica, filosofia.

Quero ser velha para viver aquilo que a juventude tanto prega e pouco pratica: liberdade. Porém enquanto velha estarei hipoteticamente com dinheiro, o que é melhor ainda. Sambei. Ser velha nunca foi tão divertido quanto na minha imaginação. Será que ainda demora ou já estou um tanto velha?


Escrito em 2017


Ilustração: Carmen Cavalcanti


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Categories: Reticências

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