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Parei de ir atrás do que me para

Se escuta o silêncio na sala da terapia. O que ela tem a concluir é revelador para ela mesma e ao mesmo tempo não é novidade. O que ela tem a dizer deixa a psicóloga atenta, sem palavras, reflexiva de sua própria caminhada/experiência.

A resposta daquela questão está nela mesma: quando a única coisa que o outro tem a nos oferecer é a certeza da dúvida, é porque algo está caminhando errado. A garantia da dúvida, neste caso, estava paralisando ela, e se tem uma coisa que ela detesta é estar parada, congelada, guardada para ser usada depois.

Não ter certeza do futuro é a única certeza que se tem nesta vida. Para todo mundo, em qualquer lugar, o que ainda vai acontecer tem sempre alguma porcentagem de chance de não sair como o planejado e nos surpreender.

Já escrevi algumas cartas ou recados de amor, amor de paixão. Amor de amizade acho que venho escrevendo desde sempre. Numa das cartas de amor, falei “eu adoro surpresas, e você foi uma grande surpresa que me aconteceu”.

Apesar de adorar surpresas, tenho que me apoiar em certezas, mesmo que elas mudem amanhã. Quando se está sentindo perdido, mirar numa dúvida no horizonte é a pior coisa que existe. A gente merece mirar numa certezinha, um achismo que seja, mas não a dúvida. Quando você se sente sem chão, não existe benefício em mirar na dúvida daquilo que ainda nem aconteceu.  

Ter a confirmação da dúvida de alguém que você já amou apaixonadamente é um conforto extremamente desconfortável. Porque você fica pensando em quando essa dúvida vai acabar – acabar acabando ou acabar reiniciando – e não sabe ao certo se quer que ela acabe.

Você não tem como controlar o outro, ou a relação do outro com os outros. Você não tem como controlar as dúvidas, as reticências e os pontos finais do outro em relação a ele mesmo e a você. Mas você tem como contar consigo para pontuar e começar outro capítulo. Ou outro livro.

Finalizar é uma palavra que me assusta. Mas preciso dela. Pontos finais, o que são, afinal, se não um pisada firme em algo que a gente não aguenta mais? Preciso aprender a por pontos finais, ainda que o dia de amanhã seja eternamente uma surpresa. E eu acho, tenho quase certeza, que acabei de por um pra fora.


Escrito em junho de 2016


Arte: Manifesto das Mina; Texto inspirado nesta frase que dá título à crônica 


Escute: Tristeza não, interpretada por Metá Metá; Composição: Itamar Assumpção e Alice Ruiz


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Categories: Reticências

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