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Turbulência

Morro de medo de viajar de avião. Viajo de avião desde os dois anos de idade, na época da Varig, Varig, Varig. Não sei como o medo começou nem quando ele vai terminar. Já amenizei o medo com um dramin, dois dramins, vinho do Porto, vinhos no geral, Rivotril e até com a respiração nasal que aprendi na Yoga.

De trajetos de uma hora a treze, quase quatorze horas direto, aos famosos pinga-pinga em cinco cidades entre Manaus e Recife, eu já fiz. Não sei do que tenho mais pavor: da decolagem, do percurso lá em cima ou do pouso. Talvez seja daquela hora em que o avião está em terra, o piloto fala “Senhores passageiros, permaneçam de cintos atados e aparelhos desligados mesmo com o avião parado, até a abertura das portas”, e a galera já começa a se levantar enlouquecida, pegando de notebooks até a mãe no porta-malas superior. E o som do Whatsapp forma uma orquestra de ansiedade. E os “Amor, já to saindo do avião” “Mãe, cheguei” começam.

De todos os processos que viajar de avião comprometem, a turbulência é sempre motivo de tensão. Se somada a barulhinhos duvidosos então, lascou.

Minha viagem mais recente foi para São Paulo, agora em setembro. Umas 3 horas e 20 minutos direto de João Pessoa, um vôo que já fiz outras vezes e tenho certeza que farei noutras tantas. Nessa última viagem, a volta foi especial. Especialmente conturbada. Especialmente turbulenta. Havia prometido a mim mesma que, na próxima viagem que eu fizesse, não ia ficar me lamentando por estar voltando para João Pessoa. Não ia entrar na nostalgia prematura de querer ficar mais um pouquinho viajando. Não ia noiar quando chegasse em casa, pensando “ai que saco estar aqui de volta”. Prometi a mim mesma viver muito bem o tempo presente da viagem, e voltar para casa focada em descansar e continuar de onde havia parado. Prometi a mim mesma ficar bem.

Dessa vez, fui para São Paulo conferir a Bienal do Livro e para o Congresso da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). De acordo com um amigo meu, isso foi só desculpa pra viajar. Provavelmente foi. Mas se fosse viajar por viajar eu não iria para São Paulo, e sim para um lugar em que nunca estive e que fosse mais em conta também. Se fosse viajar por viajar, economizaria grana, tempo e milhas de mainha para pegar um avião só de ida. É bom focar nas idas sem volta, de vez em quando. É bom sonhar.

Agoniada com possíveis pendências que eu ia gerar por estar viajando no meio de um semestre de conclusão de curso – e talvez de fase de vida -, foi só lembrar que ia ver meu melhor amigo Guilherme que comecei a sorrir. Antes de ir pro aeroporto, tomei um banho de num sei quantas ervas. Queria sair de João Pessoa menos pesada de João Pessoa. Efeito placebo ou efeito da natureza, aquele banho me deixou com um bom humor que há muito tempo não encontrava em mim. Fui pro aeroporto e para São Paulo feliz da vida.

Encontrar Guilherme em sua nova casa de São Paulo foi lindo. O primeiro gole de cerveja, brindando minha chegada e os dias que estavam por vir; a primeira dormida de amigos que cresceram juntinhos e que, independente de onde estiverem no mundo, estão presentes na vida um do outro. Foi até engraçado estar novamente com Guilherme em São Paulo, porque me fez lembrar de quando a gente tinha 18 anos e resolveu passar uns 10 dias por lá fazendo programas bem aleatórios e sendo adolescentes. 

São Paulo, além de agora representar matar a saudade de Guilherme, é também um lugar de reencontro com amigos que foram minha família durante meu intercâmbio na Austrália. Em São Paulo, tenho amigos que saíram do Nordeste para viver. Em São Paulo tenho colegas e amigas que eu só havia conhecido pela internet, e que nessa viagem pude abraçá-las ao vivo. Em São Paulo há muitos anos mora Michel, meu modelo de irmão mais velho e de pessoa gênia (que poderia estar em outro lugar além de São Paulo, inclusive).

As outras vezes em que fui para São Paulo foram de lazer, comida gostosa e boemia. Desta vez, mais que turistar, vadiar e mesa de bar, eu estava ali para abrir um pouquinho minha cabeça.

A Bienal do Livro foi massa pra aproveitar promoção, conferir o lançamento do novo livro da Capitolina e me perder. Um verdadeiro inferno de gente e de livro, que me fez ficar sufocada de tantas possibilidades. Foi um sufoco do bom. Assisti uma mesa sobre escritores. Rolou Fora Temer. Perguntei sobre a gente duvidar da gente mesmo enquanto escritores e escritoras. A resposta: a dúvida sempre vai existir.

Aproveitei a passagem por São Paulo para ir numa feira de publicações independentes, a Tijuana, sugestão de Guilherme. A feira aconteceu num prédio ocupado por artistas e pelo visto, ativistas. Fora Temer para todos os lados. Lá, acabei esbarrando com uma personagem do filme Muito Além do Chuveiro, que tem tudo a ver com o documentário que vou fazer no meu TCC. Fiquei feliz em conhecê-la e ela ficou feliz por eu a ter reconhecido. Letícia, sua voz é mais linda ainda ao vivo. Fiz compras de no máximo R$ 40,00 e voltei pra casa cheia de rolos e de arte.

O Intercom veio depois. Nunca havia ido para um na vida. A senhora minha mãe, quando soube que eu finalmente ia para o evento, falou “você devia ter ido muito antes”. Desculpa, mãe, por só ter me interessado pelo meu curso no final dele. O Intercom me trouxe calma. A primeira mesa que assisti falava sobre o futuro do jornalismo na televisão aberta. Assunto clichê desde o comecinho do curso, mas que naquele lugar (USP), naquela configuração, fez sentido. Finalmente fez sentido. Fora Temer do início ao fim. Um tema muito falado durante a mesa foi, vejam só, o fracasso. Um dos caras da mesa falou “fracassar é tão importante que a gente acaba lembrando mais da resposta errada que deu naquela prova da 5a série do que das que acertou”. Poxa, isso é uma verdade.

Lembrei de uma vez em que dois amigos apostaram comigo uma grade de cerveja para quem tivesse a média mais alta num semestre específico. Eu acabei pagando a grade com meu salário de estagiária da TV Universitária. Não sei se somente na minha sala, mas sempre senti uma competição danada e silenciosa entre os alunos de comunicação. Tenho que sair do time dos que pagam a grade de cerveja para o dos que propõem a disputa pela grade, mas não sei se quero competir por e para isso. Na última mesa que assisti na Intercom, teve uma menina que perguntou para a equipe do Profissão Repórter (Globo) como era ser jornalista numa empresa que apoiou o Golpe de 64, quiçá o atual. Todo mundo do auditório se calou e se entreolhou. Eu gritei sozinha “Arrasou, viado!”. Não fui para a Intercom apresentar trabalho, mas quem sabe de uma próxima vez. Parece valer muito a pena.

Entre reencontros e alguns vários desencontros, São Paulo sempre me apresenta pessoas novas. Conheci a menina espanhola que divide apartamento com Guilherme que ele tanto falava. Ela é a estrangeira mais Brazilian que já conheci. Conhece mais de música e literatura brasileiras que vários amigos meus. Ela mesma diz que a relação com uma nova língua vem da intimidade que a gente estabelece com ela. A fluência será maior se a gente se deixar envolver por essa língua: arte, música, comida, história, leituras. Tudo fala uma língua. Talvez por isso ela saiba tão bem o português-brasileiro: porque mergulhou nele além do verde e amarelo e da caipirinha.

São Paulo é aquele tipo de cidade que você pode ir conhecendo para sempre. São Paulo ensina à quem a visita que a gente pode buscar novas possibilidades continuamente, mesmo que a gente bata ponto na Augusta vez ou outra sem querer. Meu sol em aquário é contemplado por cada novo encontro que tenho com um mesmo lugar, e São Paulo é um desses lugares que me faz sentir à vontade em ser aquariana. Já João Pessoa complica um pouquinho meu mapa astral, mas a gente vai dando um jeitinho como pode.

Acho o Tinder em São Paulo meio esquisito. Tem gente demais. Tem opção demais. Muitas possibilidades para o erro. Cheguei em São Paulo meio apaixonada por um cara que eu estou ficando há uns meses, e querendo não ficar apaixonada para não me machucar depois. Cheguei em São Paulo meio sem tempo também, e é melhor errar em um lugar que eu tenha tempo. Mas pensei “Rapaz, venho sempre aqui… Quem sabe ainda more. É sempre bom ter um contato à distância para aproveitar numa oportunidade futura”. E me joguei no Tinder, mesmo sabendo que eu já achava ele meio esquisito por lá. O último match que dei foi com uma pessoa que eu já havia dado match/me interessado ao vivo, e que por acaso era o vizinho de Guilherme. Apesar da proximidade de portas, ele foi a última pessoa que vi no danado do aplicativo.

Para resumo de conversa, o rapaz é massa. Massa do tipo amigo do meu melhor amigo. Massa do tipo gente que cheira bem, sabe. Sério, amo gente cheirosa. Lavanda Johnson cabe no bolso de todo mundo, galera. Ele é massa do tipo… Pessoa educada. E inteligente, interessante, não pedante. Ainda me levou pra exposição, pra comer num point que eu ainda não conhecia e pra fumar um e tomar umas cervejas num pico que dava pra ver São Paulo inteira – ou o que a neblina deixava ver. Poxa, isso é pedir demais? Não é não. Mas não é todo dia que encontros astrais assim acontecem,  ou só acontecem uma vez, por isso a gente tem que valorizar. Pra completar, o beijo foi incrível e o sexo nem se fala. O cara mandou bem pra caralho em tudo, e eu fui na onda.

A gente conversou bastante, inclusive sobre cidades no mundo, lugares para morar. Falei pra ele “é bom estar num lugar onde as coisas parecem acontecer”. Sei que essa frase pode parecer um clichêzão, tanto pra quem vai quanto pra quem fica. A gente tem que fazer acontecer onde a gente estiver. Em João Pessoa mesmo, através de amigos e amigas, pude conhecer o cinema paraibano por quem o faz. Numa cidade de aparentes poucas possibilidades, realizar um filme é enfrentar a seca de recursos, e quando a galera é premiada eu multiplico o prêmio por três, porque admiro demais essas pessoas, admiro demais quem não é neto de fulano e carrega sobrenome tal. Admiro demais quem faz acontecer, mesmo que o tempo e o espaço não queiram que aconteça. Também admiro quem prefere sair, dar outros vôos, tentar. Porque tentar sair é tão corajoso quanto tentar ficar, mas carrega o gostinho do novo, ainda que vários busquem um novo em comum.

A viagem ficou mais interessante depois de eu ter conhecido a espanhola que divide apartamento e vida paulistana com Guilherme; São Paulo ficou mais interessante depois de eu ter conhecido o vizinho e amigo de Guilherme. Tirando os preços, tudo foi bom. Até acompanhar uma das minhas melhores amigas num término de namoro que se arrastou de Recife para São Paulo foi bom, porque fiquei do lado dela, tive a chance de ser a amiga que sempre fui, sem a distância Recife – João Pessoa. Me senti presente, sabe. E ela precisava da distância Recife – São Paulo para compreender melhor as coisas também.

No finalzinho da viagem, eu estava me sentindo estranha.

Lembrei do meu medo de viajar de avião. Pensei “Vai cair, vou morrer!”. Jurava que aquela angústia era premonição. Insisto na minha mediunidade como nunca nessas horas. Disse para dois amigos que estava com a sensação de estar deixando algo para trás. Mas o que era? “Tu tá apaixonada”, disse Guilherme tirando onda. Eu ri. Não é (só) isso, Gui. É algo além disso, que eu não consigo explicar.

Me despedi das pessoas, peguei um Uber, embarquei e decolamos. A turbulência que eu sentia dentro de mim se confundiu com a turbulência física que eu sentia de dentro do avião. Comecei a passar mal. Fiquei sem ar. Olhava pra cima esperando a máscara de oxigênio cair. Olhava para as pessoas e elas estavam bem, umas até dormindo. Só eu que não conseguia respirar. Só eu que me sentia sufocada? Só eu que ia morrer? Me deixei envolver pelo drama. Cheguei a pensar que ia ter um ataque cardíaco. Lembrei do meu histórico de hipertensão na família: fiquei mais preocupada ainda. Pedi água. Pedi mais água. Tentei ler uma Cosmopolitan com a Anitta na capa. Nem as plásticas que ela fez na cara me distraíam. Pensei seriamente em chamar a aeromoça e dizer que estava tendo um ataque de pânico. Pensei na vergonha. Bebi mais água.

Comecei a chorar sozinha, no aperto da minha cadeira ao lado da janela. Chorei, chorei, chorei. Chorei porque não entendia o que estava acontecendo, chorei porque tive medo de agora sofrer da síndrome do pânico, chorei quando comecei a entender porque eu estava chorando. E ri. Ri quando percebi que as razões do choro iam aparecendo à medida que as lágrimas caíam.

Meu chorar me acalmava aos pouquinhos, mas eu continuava chorando. Consegui respirar melhor. As horas iam finalmente passando, entre apertos no coração, falta de ar e um pouco de alívio. A turbulência do avião persistia. Fiquei tentando me distrair com a rádio da Tam. A sensação de sufocamento voltava às vezes, então eu chorava e me esclarecia. A incerteza de chegar viva ainda rondava meus pensamentos. Encarei meu medo da forma mais apavorada possível. O meu medo era o de morrer. Morrer aos 24 anos, para mim, seria uma interrupção.

Eu estava naquele avião voltando para uma cidade na qual moro, mas não nasci nem acho que vim para ficar. Cidade essa em que vou me formar na minha primeira graduação ainda neste semestre, se tudo der certo. Eu voltava para um lugar que talvez não faça tanto sentido assim em estar, em ficar. Pelo menos para mim. Eu voltava para um tempo e um espaço que gostaria sempre de visitar, mas não de ser o meu lugar, não agora. Minha angústia dos dias anteriores virou turbulência dentro e fora de mim, mas assim como a viagem de 3h20min de avião, eu teria que encarar essa realidade e tentar usá-la ao meu favor, entre choros e risos.

Morrer ali significaria não ter feito tudo o que eu queria, mesmo sabendo que vou morrer mais cedo ou mais tarde com mais sonhos do que realizações. Morrer ali significaria só ter começado, ou não ter tentado tantas coisas que ainda quero tentar. Morrer ali seria não ter me tornado quem eu posso me tornar. Se eu morresse ali, mais que triste, eu ficaria muito puta da vida por não ter nem publicado um livro sequer. Ali, eu morri um pouquinho. Morreu meu medo do medo. Talvez meu medo de viver. Saí do avião viva, mais branca que o normal, mas sabendo que eu quero tanto viver que uma turbulência, ao invés de me matar do coração e de vergonha, foi mais que necessária para me fazer sentir viva.

Já em casa e sem saber da história da turbulência e do meu pânico, minha avó me fala que sonhou comigo enquanto eu estava no avião e eu parecia muito agoniada no sonho, e dizia “Vovó, vovó, eu não aguento mais!”. Talvez minha angústia do finalzinho da viagem não tenha sido uma premonição da minha morte no avião, até porque tô aqui vivinha, bem linda, escrevendo este texto na madrugada de um domingo. Mas tenha sido uma turbulência que eu precisava passar para me lembrar de que eu tenho que contar comigo mesma para que as coisas aconteçam, seja em João Pessoa, em São Paulo ou numa cadeira de avião, olhando pela janela, vendo as cidades bem pequenininhas e esperando as máscaras de oxigênio caírem automaticamente em caso de despressurização – ou de medo.

 

Escrito em setembro de 2016 
Foto: acervo pessoal; Local: Beco do Batman, Vila Madalena, SP, Brasil

– Sugestão de trilha para o texto ou para o pós-texto: Porcelain, Moby –

 

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