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Todos os Sonhos do Mundo

<Escrito em março de 2016>

<Ilustração emprestada da artista mexicana Ana Victoria Calderon>

 

Ando pensando sobre futuros e sobre o que as pessoas acham que a gente deveria fazer com eles.

Recentemente participei de um evento com uma amiga que começou o curso de Comunicação comigo, lá em 2010. Atualmente ela está no mestrado, o que é massa porque, pelo visto, era algo que ela queria muito. Ao final do evento, essa minha amiga foi falar com uma conhecida dela que está na graduação de jornalismo, assim como eu. Conversa vai, conversa vem, minha amiga me apresenta à conhecida:

– Essa aqui é Marina, ela também é de Jornalismo.

A conhecida me cumprimentou e perguntou:

– Você faz mestrado em quê?

Respondi o que sempre respondo quando as pessoas me perguntam se já me formei, ou se desisti do curso ou o que tenho feito da vida:

– Ainda tô na graduação, é que “perdi” (nessa hora, sempre faço o sinal de aspas com os dedos das duas mãos) três semestres fazendo intercâmbio, e pra completar peguei duas greves, mas esse ano me formo.

É nessa hora que acrescento “me formo se os grevistas deixarem”. Daí a pessoa sempre dá aquela risada de compreensão e faz algum comentário sobre greves em universidades federais, e eu sempre concordo porque sim.

Daí a conhecida me perguntou em que país eu havia feito o intercâmbio, o que é natural. Eu também perguntaria o mesmo. Quando digo que fui pra Austrália, sorrisos se abrem e curiosidades sempre surgem. Ao final dessas conversas, a pessoa acaba dizendo “É, realmente foi uma oportunidade ótima blablabla”, e então deseja ter a mesma experiência, ou compreende o fato de eu não estar fazendo/tentando mestrado ou não estar sendo/tentando ser a próxima Fátima Bernardes. Na verdade, não pretendo fazer nem ser nenhuma dessas coisas por enquanto.

Porém,

e se,

somente se,

eu não tivesse feito esse intercâmbio? E se a minha justificativa para ter atrasado o curso – ou não estar cronologicamente a par do que as pessoas estão fazendo ou querem fazer – não fosse socialmente justificável? Porque, claro, com um intercâmbio a pessoa ainda dá um descontinho, mesmo me julgando mentalmente “essa menina é louca! Deus me livre atrasar a minha graduação pra passar mais de um ano morando fora e depois voltar e continuar o curso desblocada, com todo mundo seguindo em frente”.

O que danado é seguir em frente?

Um professor querido falou dia desses em sala de aula que, em todo final de curso, seja ele qual for, bate aquele desespero nos alunos porque a gente se encontra na linha tênue entre ser estudante e estar desempregado. Nessa hora todo mundo riu nervosamente, porque todo mundo estava na mesma situação.

Sei que este texto até agora pode estar parecendo recalque meu, e pode até ser e podem falar que é e lançar uma hashtag #marinarecalcada. Me achando recalcada ou não, o que me deixa com tédio da vida ou com gosto de “não escovei os dentes antes de dormir” é essa mania que a gente tem de achar que o caminho é um só.

Me diz uma coisa: pra você chegar até este texto, por exemplo, que caminho você percorreu? Antes de clicar, antes de se interessar, antes de ler o título, antes de não ter nada pra fazer, antes de pensar em abrir o Facebook, antes de ter acordado hoje (cedo ou tarde), antes mesmo da semana passada, antes do último Natal, antes de ter escolhido um curso no vestibular, de terminar o colégio, antes, antes, antes. O seu antes é diferente do meu, que é diferente da amiga que tá no mestrado, que é diferente da conhecida, que é diferente porque somos pessoas diferentes.

Se cada um de nós tem um antes, porque todo mundo tem que ter o mesmo depois?

Não sou extraterrestre o suficiente pra achar que não existem caminhos e degraus comuns a várias pessoas; que o sistema econômico e social que vivemos nos condiciona a funcionarmos do mesmo jeito; que tem gente demais no mundo e se todo mundo resolver fazer uma coisa diferente, isso aqui vira um caos.

Mas sou sonhadora aquariana o suficiente para pensar “será que a academia é mesmo a melhor opção? pra quem?”; “trabalhar no McDonald’s é vergonhoso?”; “desemprego é falta de vontade?”; “24 anos é tarde demais? e 30 já pode desistir?”; “todo mundo que tá aí dizendo que tá fazendo coisas está mesmo fazendo coisas? que coisas são essas?”. Porque as pessoas parecem estar fazendo alguma coisa que valha a pena e a gente não?

Tentando responder a essas perguntas, descobri que respondê-las ia ser perda de tempo e quilos de baixo astral a mais nas minhas costas. A gente já sabe que cumprir tabela é mais fácil do que seguir o próprio caminho. Ao mesmo tempo, o fato de seguir o próprio caminho pode sim coincidir com o caminho de outros, e não há problema nenhum nisso. O caminho é a gente que faz.

O fato de eu ter feito um intercâmbio não serve de desculpa para eu deixar de fazer qualquer outra coisa ou desistir de fazer coisas que eu já tive vontade de fazer. Muito pelo contrário. Fazer ou não um intercâmbio não determina meus objetivos, mas pode sim ter mudado meus sonhos. Acho que esse tempo morando fora, que já faz um tempinho que aconteceu, mexeu com coisinhas que eu meio que deixava em segundo plano, pensando que tinha coisa mais importante pra me preocupar. Dentre essas coisinhas está a minha forma de me ver e de ver o mundo, e no mundo insiro aí meu curso, carreira, meus amigos, minha família, o lugar onde eu moro ou desejo morar, a importância ou a superestimação acerca das viagens, qualidade de vida, o que é riqueza e o que é pobreza, o que é felicidade e o que a gente acha que é.

São coisinhas que pude perceber não só fazendo intercâmbio, mas morando numa cidade a duas horas de distância da que eu nasci. Coisinhas que não se aprendem em graduação, em mestrado, doutorado, nem num pós-doutorado ou sendo a próxima Fátima Bernardes (antes do Encontro com Fátima). Coisinhas que eu espero prestar atenção independente do que eu faça ou do que eu deixe de fazer; do que eu seja ou deixe de ser. São essas coisinhas, que de inhas não tem nada, que eu, muito sonhadora, muito aquariana e muito ingênua que sou, tento valorizar em mim e nas pessoas, independente dos seus futuros e dos seus anúncios de sucesso.

Às vezes acho que o fato de eu não querer seguir carreira acadêmica, por enquanto, ou não querer fazer o que os outros dizem estar fazendo muito bem, está vinculado ao fato de eu sempre evitar ser igual ao que se mostra padrão na bolha em que vivo. Mania de diferentona e complexo de filha única que me fazem sofrer e sorrir há 24 anos. Não chego a ser contra a carreira acadêmica, a qual admiro, acho massa, necessária, e que evolua e nunca adormeça, ou contra o sonho de muitos em se tornar uma Fátima Bernardes ou William Bonner da vida.

Mas sou a favor das dúvidas, das incertezas, das certezas erradas, do caiu-levanta-pra-cair-de-novo, do tentar, do fazer intercâmbio mesmo que te julguem em silêncio, do não fazer intercâmbio e adiantar planos de carreira, do desistir e fazer outra coisa, do sonhar diferente, do sonhar acordado, do caminhar por outros caminhos e se encontrar com você mesmo e com novos outros.

Em meio aos meus devaneios sobre futuro, caminhos, presente, certo/errado, me deparo com uma postagem de uma pessoa muito próxima a mim, que sempre foi ícone de determinação e sucesso, porém distante do que eu tinha como real. Na postagem, um desabafo e um trechinho de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa:

“E neste limbo que me encontro, continuidade da pesquisa do doutorado, praticando diagnóstico molecular de doenças genéticas e destilando incertezas sobre o futuro da carreira, Fernando Pessoa veio compartilhar mais uma vez sua auto-reflexão:

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

– FIM –

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Categories: Reticências

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