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Meu Bairro

Escrito em janeiro de 2015

Vocês já pararam para pensar que, talvez, os filmes que a gente assiste, as músicas que a gente ouve e os textos que lemos giram em torno do mesmo público, mesmas mentes, mesmas interpretações? Vez ou outra esse pensamento fica martelando minha paciência.

Não sei se fui clara, vou tentar exemplificar. Eu serei meu próprio exemplo: Politicamente e ideologicamente falando, me considero de esquerda, certo? Talvez os de direita digam “errado”, e já parem a leitura por aí.

É exatamente disto que estou falando: uma seleção nada natural, guiada pelos nossos ideais, preferências, identificações, que acaba nos cegando. E, caso você seja um(a) leitor(a) de direita que persistiu na leitura, te juro que também me considero cega na mesma proporção que você muitas vezes é.

Tenho um amigo, muito amigo, mais que amigo, quase irmão, que sempre traz à tona que o Facebook é feito de bairros, em que cada perfil (e consequentemente os contatos atrelados a ele) é um bairro e tudo que a gente compartilha e curte fica circundando aquele mesmo bairro.

Vez ou outra claro que surgem ideias opostas, conflitos de opiniões e umas guerrinhas bairristas virtuais, mas raramente o bairro perde seu equilíbrio e status de comunidade.

Não apenas no Facebook, mas diria que essa ideia de bairro se estenda a todos os outros setores.

Dia desses em João Pessoa fui fazer um trabalho em grupo na casa de uma colega de sala. Depois de finalizar o trabalho, a gente saiu pra comer pastel e acho que o assunto na mesa era o final de semana de cada um. Não lembro muito bem para qual lugar eu tinha ido, mas das duas, uma: ou eu fui para uma festa majoritariamente gay ou para algum bar em que o dresscode não era salto alto e a trilha sonora não era música sertaneja/forró estilizado.

Daí ela começou a falar para qual balada tinha ido. Se não me engano, era uma festa chamada X e depois uma boate chamada Y. Pois é, eu desconheço tanto esses locais que ela falou que nem pra lembrar o nome agora eu estou lembrando, e olha que João Pessoa é uma cidade pequena.

Quando ela relatou a noite dela, eu fiquei o tempo todo me perguntando como eu não sabia da existência desses aparentes points da juventude baladeira pessoense, apesar de sair quase todo final de semana. Simples: meus vizinhos são outros.

No tempo que passei na Austrália me permiti passear por outros bairros, e não estou falando só da mudança de continente. Meus melhores amigos lá eram brasileiros, e nem por isso deixei de viver experiências fora do meu comum e da minha zona de conforto. Nas noites australianas a gente ia muito pra balada, pra boate, pra essas coisas de salto alto (graças aos deuses não rolava música sertaneja). Eu ia junto (sem salto), eu me divertia, eu bebia, eu dançava, pegava os boys e realmente me entregava aquele novo bairro e novos vizinhos.

Mas no fundo, no fundo, tudo o que eu queria era dividir uma mesa de bar com meus amigos, em que a única preocupação seria o preço e temperatura da cerveja e nada mais. No fundo, tudo o que eu queria era encontrar o meu bairro do outro lado do mundo.

Agora que já não moro mais na Austrália, toda vez que bate uma agonia de estar em João Pessoa frequentando o mesmo bairro e convivendo com os mesmos vizinhos, mesmas ideias, bandeiras, música, filme, texto, cerveja, tudo que desejo é fugir para aquela época em que eu aprendi a viver fora da minha zona de conforto e criei meu próprio bairro.

 

< Ilustração por Wayne Roberts. Aquarela da Elizabeth com a Flinders Street, Melbourne – VIC – AU >

< Sugestão de trilha sonora para o texto ou pós-texto: The Suburbs, Arcade Fire e You Are A Tourist, Death Cab for Cutie > 

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Categories: Reticências

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