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Meu Reino

Escrito em abril de 2015

 

Ontem o que eu mais queria era sair pra beber. Fui eu que agitei meus amigos, mas a verdade é que eles sairiam de qualquer jeito, pelo “fogo no rabo” que os mesmos declararam ter. Melhores companhias ever.

Essa semana pós-carnaval tem sido bem carregada para mim, uma pessoa que resolveu fazer 70% dos trabalhos do semestre da Universidade de uma só vez, além de organizar uma suposta viagem de férias para o Sudeste e de teimar em estrear um novo blog o quanto antes, com todas as frescuras e detalhes que venho organizando – e atrasando – desde que voltei do intercâmbio. E olha que isso foi em agosto do ano passado. Palmas para mim.

Em resumo: tudo o que eu queria ter feito ontem era beber com meus amigos. Na verdade, até uma latinha de Kaiser, sozinha, estava valendo. Te juro.

Acontece que ontem, minha irmã Milah (07 anos) ficou de dormir lá em casa. Mainha viajou a trabalho, e o meu padrasto também. Milah já está acostumada a ficar comigo e com vovó, e a gente também. Minha ideia era colocar Milah para dormir, deixá-la com nossa avó para então sair e finalmente encontrar meus amigos, pedir uma cerveja e relaxar da semana. Mas é claro que isso não passou de uma utopia.

Quando deu umas 22h, eu já havia percebido que não ia colocar o pé para fora de casa naquela noite. Milah estava naturalmente animada por dormir com a gente e saudosa por estar sem a mamãe e o papai ao mesmo tempo. O time estava formado: eu, vovó e Milah.

Muita gente – se não todos – devem achar que conviver com as personagens vovó e Milah é um verdadeiro privilégio. E é! Figuras incomparáveis, separadamente são incríveis e, juntas, uma explosão.

Só queria sublinhar o detalhe de que se tratam de uma senhora de 77 anos e de uma criança de 07, respectivamente. E eu no meio, ou um pouco de lado, no canto esquerdo, quase invisível diante de tamanhas personalidades. Como uma aquariana teimosa e levemente apegada ao que muitos chamam de liberdade, confesso que é bem complicado para mim ter que lidar com o ambiente familiar diariamente e religiosamente.

Para conclusão da odisséia, Milah foi adormecer por volta das duas horas da manhã, momento em que eu me imaginava gatíssima, como sempre, entre meus amigos mais viados do que nunca, rindo de qualquer coisa e bebendo o que tivesse no copo.

Porém desde as 22h eu já havia aceitado que aquela não seria a melhor noite para dar o ar da minha graça por aí. Dei banho em Milah, coloquei o pijaminha, ela escovou os dentes e perguntou porque que eu não deixava o cabelo do tamanho do da princesa Rapunzel.

– Porque Rapunzel era uma princesa que vivia num lugar muito frio, e a Paraíba está longe de ser fria.

Ela retrucou: – Mas para ser princesa, tem que ter o cabelo grande que nem o meu.

Eu completei: – Você já ouviu falar na Mulan, uma princesa que era bem mais que princesa? Ela era uma princesa guerreira. E cortou os cabelos para poder ir pra guerra.

Ficou decidido que aquele seria o filme que íamos assistir antes de dormir. Antes de começar o filme, ela me falou que os monstros não existiam, mas as princesas sim. Resolvi não contar para ela a verdade – de que os monstros são mais reais do que ela imagina – por enquanto.

No meio do filme, Milah me faz uma série de perguntas, como “porque nem todo mundo do mundo é do bem?”, “porque as mulheres do filme não podiam lutar?” “porque Mulan tinha que se vestir de homem para ir pra guerra?”. Eu só respondi uma vez, dizendo que “às vezes o mundo é complicado mesmo”.

Fiquei com um orgulhozinho no peito em saber que minha irmã, apesar de todas as influências made in Princesas da Disney que 10 entre 10 meninas de sua idade sofrem, já tem a concepção de que mulheres são guerreiras por natureza, e não precisam “se vestir de homens” para lutarem. Quaisquer que sejam suas lutas.

Ao finalmente colocar Milah para dormir, ao som do vídeo “08 horas de canções de ninar para bebês”, no YouTube (super recomendo), comecei a chorar abraçada a ela, baixinho, que nem eu fazia quando mainha viajava e eu não queria dizer para ninguém que eu estava com saudades.

Chorei pela minha semana exaustiva; chorei por Milah ter finalmente dormido; chorei imaginando como deve ser uma barra e uma honra ser mãe; chorei porque, naquele mesmo dia, vovó resolveu contar histórias do quanto minha mãe era “leoa” quando eu era pequena, e do momento em que ela resolveu me ter e me criar sem precisar se submeter a um casamento, ou qualquer convenção/pressão social imposta majoritariamente a nós, mulheres. Eu chorei tão quietinha que Milah adormeceu.

Ontem tudo o que eu queria era sair para beber com os meus amigos. Ontem tudo o que eu precisava ser era a irmã de Milah, filha de Marianne e neta de Cecinha, e nada mais.

 

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Categories: Reticências, Umbigo

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