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O Grito

Escrito entre outubro de 2015 e fevereiro de 2016

Crianças, temos muito o que aprender com elas.

Ano passado minha irmã Milah contou uma história que aconteceu na sua escola entre dois amigos de sala. Era mais ou menos assim: Daniela gritou com João por algum motivo; João* falou para Daniela* que ela não podia gritar porque ela é mulher; Daniela começou a chorar quando ouviu isso.

Na época do acontecido, João e Daniela tinham 7 anos de idade.

Eu comentei: – Pois da próxima vez, Milah, você diz a João que qualquer PESSOA que tiver garganta e boca pode gritar.

Milah disse: – Nem precisou disso não. Eu vi minha amiga chorar e não queria que ela chorasse por isso. Então falei pra tia e ela resolveu (julgo que a tia tenha ido conversar com João).

Não sei até que ponto a tia resolveu a situação, ou até que ponto João reproduz algo que ele aprendeu em casa, ou na televisão ou com um amiguinho. Não sei se João tem noção de que o que ele falou foi a maior besteira do mundo, e que é melhor ele aprender desde cedo para não reproduzir isso quando for um menino crescido, um rapaz, um homem. Não sei se Daniela vai se lembrar disso por muito tempo, ou se vai ser militante feminista, ou se foi só o choro do momento, e ela vai deixar essa história pra lá e viver gritando quando ela bem quiser, independente de ser mulher, homem, criança, adulta, vovó.

Também não sei se Milah, Daniela e João já ouviram falar na palavra “machismo”, ou em certezas que umas pessoas construíram e acharam que era lei/o certo/a verdade universal, e então essas certezas foram se espalhando que nem praga, que nem uma epidemia, que nem… Que nem tradição.

Para João e Daniela, pode ter sido somente mais um desentendimento entre colegas de sala. Para Milah, pode ter sido somente uma amiga querida que estava magoada, e então cabia a Milah resolver a situação para a amiga não ficar mais assim.

Crianças de seus 7, 8 anos protagozinando situações em que a gente, que é gente grande, usaria termos e conceitos tais como “machismo”, “feminismo”, “sororidade”, “sexismo”. Eu compreendi o ocorrido pensando em todas essas terminologias, que, vamos combinar, nem sempre atingem todo mundo que deveria atingir.

Para quando Milah, João e Daniela forem gente grande, eu desejo que as coisas sejam resolvidas de forma simples assim, e que nem tenham coisas desse tipo para serem resolvidas.

A vida é muito curta pra gente se limitar a gritar. A vida é muito curta para haver gente limitando as outras pessoas de gritarem. Grita, Daniela, grita Milah e aprende a gritar (e escutar), João!

*João e Daniela são nomes fictícios para proteger a identidade das crianças citadas.

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Categories: Reticências

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