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Prioridades


Escrito em janeiro de 2016

 

A crise econômica, que bombou em 2015, me fez refletir mais do que me privar. Eu percebi que as minhas prioridades haviam mudado. Estavam mudando.

Comecei a observar a quantidade de roupas que eu tinha, a quantidade de sapatos, sandálias, acessórios, maquiagem, cosméticos, bolsas, decoração. A quantidade de coisa que acumulei ao longo dos anos, que contavam sim um pouco da minha história e falavam de várias fases da minha vida até então. Porém cheguei à conclusão de que tinha coisa demais, consumo demais.

Eu não ia dar uma de São Francisco de Assis. Ou jogar tudo no lixo. Aos poucos, em passos bem pequenininhos mesmo, eu fui mudando hábitos e iniciando novas tendências.

Pode parecer um detalhe, quase nada, mas por exemplo há mais de 04 meses que parei de usar desodorante. Substitui o desodorante por uma coisa chamada Leite de Magnésia. Sou quase uma Bela Gil da axila. Mudei pro leite de magnésia porque o desodorante já me trouxe problemas de saúde, e há 04 meses que ando por aí tão não-fedida quanto quem usa desodorante comum. O Leite de Magnésia é mais barato, dura mais e não me trouxe nenhum efeito colateral, ao contrário do desodorante.

Não sou a melhor pessoa para falar em economia, mas a partir do Leite de Magnésia que deu certo, comecei a pensar em outras coisas que poderiam dar certo também, como produtos orgânicos que não são testados em animais. Um sabonete aqui, um shampoo acolá e, de passinho em passinho, minha forma de consumir está mudando. Sem pretensões de me tornar a presidenta da vida alternativa #gratidão, vou mudando minha própria concepção de consumo, e isso é muito precioso. Sempre fui bastante consumista  e meu guarda-roupa é a prova disso (porém consigo os melhores achados e aproveito liquidação como ninguém – podem me pedir ajuda).

Outra coisa já foi mais que prioridade na minha vida, era praticamente lei de sobrevivência: viajar. Não, não estou me aposentando ou doando milhas por aí. E sim, ainda tenho vários sonhos de viagem a serem realizados ou não. Antes de mais nada, já vou anexar aqui a crítica que meu melhor amigo me fez recentemente e prometo tentar me corrigir. Ele disse que, às vezes, nos meus textos ou será na vida, meu discurso é meio prepotente quando falo que já viajei tudo que eu gostaria de viajar, e que não preciso conhecer mais lugar nenhum. De antemão, não, eu nunca quis dizer isso. E na verdade, viajar deve estar dentro do meu top 05 de melhores coisas que já experimentei. Só meu bloco de notas sabe a quantidade de lugares que gostaria de conhecer ou até de morar. Só minha conta bancária sabe que a grande parte da grana que um dia já tive era toda voltada pra pagar viagens. Só mainha sabe a quantidade de vezes que já usei e ainda devo usar as milhas dela.

Mas, veja só como a vida é filha da puta e faz a gente chacoalhar os próprios velhos sonhos: acho que, hoje, viagem deixou de ser minha prioridade número 01, e passou a ser a 02 ou a 05. Isso porque a crise econômica, ou minhas crises dentro dela, me fizeram repensar as prioridades atuais e projetadas para alguns futuros. Até viajei durante a crise, e talvez viaje mais antes de sairmos dessa situação. Só Deus sabe.

Ano passado, após voltar de – mais uma vez ela – uma viagem, eu pensei em trancar o curso e ir fazer outra coisa ou ir embora. Isso porque eu não estava bem com a minha vida universitária e com a minha utilidade pro mundo (eu tava sem estágio rs). Ou seja, apesar de extremamente satisfatória, a experiência mágica de viajar terminava no momento em que a vida normal começava. Até curto voltar pra casa e usar meu próprio vaso sanitário, mas, para além disso, o dia-a-dia se tornava a prévia e a busca de uma nova viagem que estaria por vir. Eu já estava pressentindo que essa lógica de recompensar a vida cotidiana com viagem havia de mudar.

Meses depois, após uma longa greve universitária, eu pensei em fazer o mesmo, mas nessa hora eu também estava com vontade de ir embora de mim e inventar outra coisa para eu ser e fazer. Esses momentos-chave foram foda. Quando lembro, ainda dá vontade de chorar. Bem que a previsão de aquário para o mês de setembro era bombástica.

Não vou dizer que esses momentos foram bons não, mas eles fizeram a danada da bússola girar e indicar outros caminhos, e, mais importante, outras possibilidades. Todos os anos anteriores me levaram para uma nova lista de prioridades, novinha em folha, mas mastigada e amadurecida durante bastante tempo. Se eu não mudasse… Que graça seria viver?

Se na minha adolescência minhas prioridades eram visuais, e se no início da minha vida adulta foi viagem, depois de tanta roupa, tanta maquiagem e graças aos deuses, tanta viagem, o que seria agora? Viajar, ainda amo; roupas, ainda tenho; maquiagem, estou diminuindo à medida que os potinhos vão se acabando.

Quais são os sonhos que ando tendo quando estou acordada?

Tive que despertar para mim mesma, e daí lembrei que ano passado eu cheguei à conclusão de que queria, um dia, ser mãe. Um dia bem distante, tipo daqui a uns 10 anos, por aí. Essa ideia já vem sendo amadurecida, e pretendo amadurecer cada vez mais. Hoje ninguém precisa de marido ou de mulher pra ter filho, o que é uma ótima notícia, já que eu não pretendo ficar com alguém a troco de uma paternidade/maternidade. Eu e milhões de pessoas nesse mundo somos a prova de que vai ficar tudo bem caso os seus pais sejam separados, ou só um crie e sustente o filho. Então, né, se chegar o momento e o futuro seja solteiro, minha ingenuidade e desejo dizem que assim será: uma mãe e um(a) filho(a). É um sonho meio louco, eu sei.

Além do desejo de ser mãe, a virada do ano 2015 para 2016 me fez perceber que uma prioridade maior se aproxima. Na noite de réveillon minha avó estava se sentindo muito livre pra falar o que quisesse. O vinho, o espumante e a cerveja a ajudaram a soltar o verbo. Ela dizia que estava preocupada que minha mãe ficava sobrecarregada tendo que dar assistência a ela e coisa e tal, e eu devia assumir o papel da minha mãe e cuidar dela e da casa. Meu padrasto elegantemente falou que “Marina está em um momento de construir e cuidar de outras coisas”. Em resumo, ele quis dizer que, talvez, eu nem ficasse morando e fazendo companhia a vovó para sempre, que fosse em busca de fazer coisas para além de João Pessoa, que fosse em busca de construir um futuro, uma carreira, um salário, novas casas, novas crises, novos sonhos, nova configuração de vida.

E eu já sabia disso. Os últimos semestres do curso que eu hei de concluir (se os grevistas de plantão deixarem) já aumentam a pressão. É natural se sentir assim. É natural começar a pensar ou a tomar atitudes sobre o que danado fazer depois do diploma. Mesmo que nada dê certo ou que eu ganhe um prêmio no final, minha carreira como jornalista/escritora ou o que mais eu inventar e investir em ser é a prioridade-mor de 2016 em diante. Pelo menos assim espero que seja, e que seja em outro lugar fora daqui.

É engraçado ver como as nossas prioridades vão mudando ao longo dos anos, e como consequência tudo vai tomando outros rumos. Assim que cheguei pra morar em João Pessoa, minha prioridade era voltar a morar em Recife. Na minha adolescência a minha prioridade era emagrecer (HAHAHA). Até o ano passado, cada graninha que entrasse era pra ser revertida em viagens. Já vesti calcinha cor-de-rosa em réveillon pra atrair um boy pro ano seguinte, e tudo que consegui foi mais um ano sendo a temida boca virgem (BV para os íntimos). Eu tinha 14 anos na época.

Para 2016 e pros anos seguintes tenho como prioridade amadurecer a barra que foi 2015, ano em que repensei mil vezes minha carreira e decidi que queria ser mãe por volta dos 30. Lendo agora, estou me sentindo super adulta só em projetar novas prioridades. Que chique! Acho que, no momento, a vida não é feita de roupas da Zara, batons MAC e pacotes de viagem da CVC. E isso foi o mais próximo da vida adulta que me vi chegar. Amadurecer dói, mas não mata não.

 

 

Categories: Reticências

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