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O Jogo

Escrito em outubro de 2015

Ilustração: Gabriela Amorim.

 

Eu sei que ser amada(o) é bom demais. Mas olhando para trás e para o presente, sinto que também faz bem a gente se envolver, se apaixonar e até chegar a amar sozinha(o). Reciprocidade é um dos sentimentos mais confortáveis que já senti, mas se jogar num sentimento que cabe na imensidão que a gente guarda lá dentro é libertador.

Como medir uma paixão, um amor, uma entrega? Não fabricaram ainda fita métrica que seja capaz de tamanha precisão e ousadia.

Eu observo muito as amigas e pessoas conhecidas que pulam de um relacionamento para outro, sem grandes interrupções. Me perguntei váááárias vezes: sou eu que amo menos, ou sou amada de menos, ou escolho demais, ou me jogo menos, ou me preocupo de menos, ou sou menos que elas, ou, na verdade, sou demais para alguns?

Nunca esteve nos meus planos chegar aos 23 anos dizendo “já namorei com 5 pessoas diferentes, num total de 10 anos sendo namorada de alguém”. Muito menos chegar aos 23 anos dizendo “namoro com o mesmo cara há 8 anos, até perdi a virgindade com ele; atualmente estamos noivos”. Não me reconheço em ambas as afirmações.

Eu sei que a forma de contabilizar relacionamentos nos dias de hoje – ano de 2015 – Brasil – Mundo, é pelo status do Facebook. É sim. É sim. É sim. É sim, e ponto. É sim que a gente atualiza, curte, comenta, julga, manda inbox, fica desiludida(o), fica feliz. A gente vive o relacionamento dos outros e também convida os outros para viverem (ou seria “assistirem”) os nossos.

Acho in-crí-vel quem manda indireta amorosa/sexual pelas redes sociais. Simplesmente sou fã, porque eu nunca fiz isso nem acredito que seria capaz. Uma menina maravilhosa chamada Kristyellen virou celebridade da internet ano passado, ao postar o seguinte tweet:

“ñ quis mim beja na 5a serie e agora vem aki em casa pedi pra compra sacole fiado parese que o jogo virou ñ eh msm” 

O que eu tenho a dizer sobre essa menina é: parabéns.

Mas trazendo para a vida real, de carne e osso, essa nóia do jogo virar é, olha, uma bosta, viu. Não sei como, mas cheguei numa fase que deve durar uns 3 anos, por aí, em que eu comemoro mais quando eu fico afim de alguém do que o inverso. E isso não contribui em nada para meus status no Facebook ou para “o jogo virar”. 

O jogo vira quando a gente não precisa mais jogá-lo. Acho que essa frase de efeito resume o que eu estou tentando dizer com este texto.

No início deste ano conheci um boy (boy = rapaz que a gente se interessa por razões que podem ser físicas e/ou intelectuais; um ficante, um namorado, um cara com quem a gente esteja em determinada época) que nitidamente jogava com ele mesmo. Talvez ele jogasse contra ele mesmo. Contra deve ser a palavra correta. E um belo dia eu perguntei: – Mas com que finalidade tu vai ficar jogando teu próprio jogo? A troco de quê?

Ele tinha ou tem sede por experiências, por quantidade, por diversidade, por mulheres e por muitos plurais. Eu já fui esse cara, mas num nível mais leve. Sou bastante curiosa e felizmente não me sinto envergonhada em assumir que, assim como muita gente nesse mundo, eu gosto de sexo. Na verdade me envergonha saber que o assunto ainda cause tanta vergonha.

Ao mesmo tempo, penso que com o tempo a gente enjoa de ficar com um monte de gente, ter uma lista de contatos mornos no Whatsapp, usar Tinder e companhia, sair e encontrar com todos os ex-boys de 2012 na mesma festa.

Jogar esse jogo cansa. E eu entendo que, por essas e outras, existem pessoas que se relacionam com o mesmo par para o resto da vida, ou com vários pares sem parar – sem nunca ter um tempinho para respirar, ficar quietinha, solteira, sozinha – pelo cansaço que é entrar para o jogo. Eu entendo mesmo e espero nunca ser assim: ou uma relação eterna ou uma atrás da outra, fugindo da palavra “solteira”. Se eu seguir essa regra, estarei abrindo mão de algo tão importante quanto se relacionar com o outro: o meu relacionamento comigo mesma, e, (in)felizmente, eu tenho sido bem fiel a esse status. Eu sei que é suicídio amoroso da minha parte.

“Mas Marina, que vida triste é essa que você valoriza tanto estar só?”. Isso sou eu perguntando a mim mesma, ok? Ok.

Comecei este texto com uma questão em mente: a gente precisa estar namorando/casando para estar envolvido?

A partir dela, lembrei das vezes em que me apaixonei enlouquecidamente, ou me envolvi emocionalmente com pessoas que nem sempre correspondiam ao que eu sentia dentro de mim (ou nem souberam). Não foram tantos assim, vai. Eu sou novinha, dizem. Mas valorizo esses momentos, essas fases, esses sentimentos. Era verdadeiro, eu estava lá para provar. E foi muito bom.

Quando acaba um relacionamento, uma grande paixão, um amor, eu sempre ativo meu lado novela mexicana e penso “ó, céus, nunca mais sentirei isso por ninguém na minha vida”. Eu sofro só de não estar mais gostando de alguém, porque gostar das pessoas é bom demais, vocês não acham? Claro que quando é recíproco, é tipo ganhar na loteria. Mas gostaria de reacender a chama da “jogação”, do gosto em gostar por gostar, e não porque a pessoa gostou da gente primeiro. Se não der certo, não deu, partimos para outros e outras. Por mais que o “jogo não vire”, por mais que o status do Facebook não mude. 

Uma amiga minha não se envolvia emocionalmente com ninguém desde o último namorado, e então começou a gostar de um cara e antes dela se declarar pra ele, ele veio com aquela sinceridade que dói, mas melhor com ela do que sem ela:

– Desculpa, mas estou em outro momento da minha vida.

Numa semana ela disse “fiquei feliz por ter me aberto a mim mesma, e assumir que eu estava gostando dele”. Na outra ela nem o cumprimentava quando o encontrava. Dia desses ela o reencontrou, cumprimentou e depois falou “é muito bom revê-lo e ver que não sinto mais nada”. Isso é se jogar! Isso é se reinventar!

O jogo vira nessas horas em que a gente se liberta dele, e sente o que tiver que sentir, sofre o que tiver que sofrer e se joga de verdade.

 

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Categories: Na Cama com Marina, Reticências

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