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Porque as Pessoas Cortam os Cabelos

Escrito em outubro de 2015

Recentemente cortei o cabelo. Tosei mesmo. Ele estava grande e agora está bem pequeno. Penteio os cabelos com um passar de mãos na cabeça, enquanto que com ele grande demorava de 15 a 20 minutos para tirar todos os nós.   

No mesmo dia em que cortei o cabelo, o salão no qual eu fiz o corte postou no Facebook uma foto do antes e do depois. Quando vi a foto, percebi o quão drástica havia sido a mudança. Uma amiga enviou mensagem “Isso é real?”, o outro enviou em caps lock “AMIGA TU TOSOU???”, entre tantas outras mensagens que recebi. Não estava nos meus planos postar foto para fazer um balanço da satisfação (ou não) facebookiana do meu novo look, mas toda vez que olho a tal da foto, eu entendo a surpresa de todo mundo.   

Cheguei lá para cortar o cabelo dizendo “Olha, já fiz muita coisa nesse cabelo: fiquei loira, mais loira ainda, depois mel, meio ruiva, cobre, enfim… Desgastou ele todo e já aproveitei o que tinha de aproveitar nesse cabelão”. Daí meu cabeleireiro, que é a melhor pessoa do mundo, fez um corte melhor do que eu pensava e estou linda.

Mas a real razão de eu ter cortado o cabelo não foi essa.

Se você já leu algum outro texto meu ou me conhece um pouco, deve saber que morei um ano e alguma coisa na Austrália entre 2013 e 2014. Morei, do passado “não moro mais e nem sei se um dia volto pra visitar, porém gostaria muito”. Antes da Austrália eu estava usando meu cabelo bem curtinho. Lá na Austrália deixei ele crescer, aparei as pontas uma única vez com uma tesoura de papel (minha amiga Hashi era nossa cabeleireira oficial) e voltei pro Brasil com ele enorme. Havia mantido ele grande até então.

Até que um belo dia eu estava saindo da aula de Yoga e uma moça, que é massagista, estava falando sobre cabelos. No meio da conversa, ela disse “… Porque cabelo guarda energia, né, vocês sabem”. Não lembro o que ela falou depois, sei que na hora me veio um estalo. Poxa, Marina, tu já sabia disso. Tua tia sempre fala sobre essas coisas, mas só agora tu lembrou desse babado.

Aquele cabelo – ou aquela energia, aquelas lembranças, aquela época – não fazia mais parte de mim. Aliás, fazia parte, mas não era o meu eu inteiro. Eu andava pra lá e pra cá com toda uma Austrália pendurada em mim: prendia essa Austrália, penteava essa Austrália, pintava, hidratava, era elogiada por essa Austrália. Mas essa Austrália não me representava mais. Eu me olhava no espelho e estranhava. Não reconhecia mais aquela pessoa do cabelão.

Após a yoga, fui pra casa com a certeza de que ia cortar o cabelo bem curtinho o quanto antes. Na semana seguinte, liguei pro salão e falei “marque aí pé, mão e um corte”. E cortei.

Conversando com dois amigos, uma disse “Amiga, tu nem avisou que ia cortar o cabelo!”. Eu respondi “Oxente, e agora precisa avisar, é?”. Meu amigo comentou “Marina, às vezes tu pede opinião até pra uma roupa, é natural a gente estranhar que tu não tenha comentado que ia cortar o cabelo”. É natural mesmo.

Esse amigo do último comentário adorou o novo corte e disse que eu estava mais forte, com mais personalidade com ele. Concordo. Chega uma etapa do look cabelão em que eu viro meu cabelo e esqueço da dona dele. Não aguentava mais carregar isso comigo. A Austrália estava pesando mais que eu.

Lendo um livro de Martha Medeiros me deparo com uma crônica chamada “Lembranças Mal Lembradas”. Tem um trecho que diz assim:

A maioria dos nossos tormentos não vêm de fora, estão alojados na nossa mente, cravados na nossa memória. Nossa sanidade (ou insanidade) se deve basicamente à maneira como nossas lembranças são assimiladas. “As pessoas procuram tratamento psicanalítico porque o modo como estão lembrando não as libera para esquecer.” Frase do psicanalista Adam Philips, publicada no livro O Flerte. (…) Nossas lembranças do passado precisam de eixo, correção de rota, dimensão exata, avaliação fria – pena que nada disso seja fácil. Costumamos lembrar com fúria, saudade, vergonha, lembramos com gosto pelo épico e pelo exagero. Sorte de quem lembra direito.  

Falam que quando mulher termina relacionamento, ela corta o cabelo. Não sei se isso é verdade, mas acho que faz parte. Os homens também deviam mudar de look aos términos de relacionamento. Aliás, todo mundo devia mudar o cabelo em fins de relacionamentos, seja esse relacionamento com uma pessoa, várias pessoas, um emprego, um lugar. Uma mudança de visual pode servir como um impulso para mudanças futuras ou representar uma mudança que já vinha ocorrendo há muito tempo, e só então ela é mostrada para o público.

Cortem os cabelos, minha gente. Cabelo: cresce. O tempo passa. E voa.

 

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Categories: Reticências

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