PELO-DIREITO-AO-PELO

Pelo Direito ao Pêlo

 Ilustração: Guilherme Lira

Escrito em abril de 2014

Gostaria de iniciar este texto dizendo que não sou feminista, nem machista, nem feminina, nem fêmea nem lésbica nem “hétera” nem macho nem nada. Basta dizer que sou Marina e pronto. Pronto.

Após uma tarde na biblioteca da universidade australiana, me despedi da minha amiga e peguei meu bondinho para casa (sim, um bondinho. é uma gracinha andar de bonde aqui). Subi e avistei uma menina que me chamou a atenção por ser linda. Nada de modelo de capa de revista de moda ou de revista de bater punheta. Era uma jovem que devia ter seus 20 e poucos anos, bem magrinha, com um estilo muito interessante, ao meu ver, e que estava usando uns óculos de grau de acrílico transparente.

Segundos depois de observar seu físico e estilo, ela mexeu os braços. Que susto que essa menina me deu! Foi um susto de eu ficar chocada olhando ainda mais para ela. E admirando. Vi aquilo que tiro sempre que cresce, que pretendo juntar dinheiro para aniquilar a laser de uma vez por todas. Aquilo que vendem pra gente como se fosse uma noção de higiene. Aquilo que os homens tem e foram educados para não se preocupar com isso.

Aquilo, meus queridos, era um par de axilas peludas.

Não era o pêlo em crescimento, era um cultivo de cabelos que cresceram sem vergonha alguma debaixo dos braços daquela menina que continuava linda.

Eu não fiquei em choque por nunca ter visto um suvaco cabeludo. Eu também tenho um suvaco, e sei que não brotam flores de lá. Lembrei que no processo de ser apresentada às ideias feministas, antes mesmo de saber que eu talvez fosse uma sem bandeira, me disseram que algumas mulheres não se depilavam como a nossa sociedade impunha justamente porque a nossa sociedade impunha isso. Eu posso estar falando a maior besteira da minha vida. Me perdoem de verdade se eu o estiver fazendo.

Enquanto eu andava no Brasil com camisas de manga para esconder o pêlo durante o crescimento pré-cera quente, outras meninas estavam por aí, livres e cabeludas, cada uma com seus ideais e escolhas. Às vezes olhava e achava um pouco forçado. Já achei bem nojento também, quando mal sabia que quem tinha a mente podre era eu. Posso não ter visto muitas garotas assim no Brasil, posso ter uma cultura e conhecimento pobres em relação ao assunto. Posso ser muita coisa.

O que queria dizer mesmo é que, até este dia que relatei, ainda não tinha me deparado com uma pessoa do sexo feminino que se comportasse de forma tão natural e confiante em relação à natureza de seus pêlos.

Ela já havia me chamado a atenção assim que entrei no bondinho, e depois que vi aquela moita (sim, minha gente, é uma moita. não vou ficar aqui fazendo eufemismos só por se tratar de uma fêmea) ela atingiu o status de diva, role model, it girl do conforto, beijinho no ombro capilar.

Não estava perto dela o bastante para conferir se o desodorante tinha a mesma durabilidade em comparação a uma axila lisa e omissa. Acho que dura sim, em homem segura bem, né?

Quando estava próxima de descer, a menina levantou-se elegantemente, erguendo-se para puxar o cordão do bondinho e exibiu mais uma vez a liberdade que guardava debaixo do braço.

Parabéns, moça. Seja por ideias feministas, seja por querer exibir sua feminilidade como ela veio ao mundo ou porque você simplesmente não estava afim de se depilar durante os últimos 6 meses, você sambou na minha cara de mulher amiga da Gillette Venus.

 

| Originalmente postado aqui |

 

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Categories: Made in Austrália, Reticências

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