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A Crise

Escrito em setembro de 2015

“Tenho 24 anos e já estou no meu terceiro recomeço”, disse a menina da foto postada dia 21 de setembro deste ano na página Humans of New York (Humanos de Nova Iorque). Dei like. Humans of New York é uma das minhas páginas sérias preferidas do Facebook, e tenho evitado dar like em todas as fotos para as pessoas não pensarem que eu não tenho mais o que fazer nessa vida.

De fato eu não tenho tido muito o que fazer nos últimos meses. Informação importante: minha universidade, a UFPB, está em greve desde o dia 28 de maio. Escrevo este texto em 23 de setembro. Outra informação importante: desde março que estou sem estágio. Por falta de tentativa não foi. E meu currículo é lindo.

É a crise, dizem.

Manu, uma amiga minha desde que me entendo por gente, veio desabafar num grupo do whatsapp dizendo que estava se sentindo um verme. Manu, assim como eu, falta um ano para concluir o curso de graduação. Ela também fez intercâmbio e também foi massa. Manu, assim como eu, está (pelo menos estava) sem estágio.

Daí ela veio com o combo “fim de curso de graduação + estou na profissão errada + estou emburrecendo + desemprego + depender dos pais”. Ela perguntou para nós do grupo e para o além: como faz pra sair desse momento escroto da vida em que você não sabe mais o que quer?

Eu li, compreendi ela por completo e comentei “Manoela, estou escrevendo um texto sobre isso. Comecei ontem. Terminarei um dia”. E depois mudei de assunto perguntando se seguir uma pessoa no Instagram pode ser considerado uma paquera. Meus amigos responderam que sim.

É a crise, dizem.

Em agosto fez um ano que voltei a morar no Brasil. Desde que cheguei aqui, estipulei três objetivos a serem alcançados a longo prazo: ficar mais com minha família, não voltar com meu ex e visitar pelo menos um estado de cada região do Brasil. Em menos de um ano, eu havia cumprido essas metas que nem no papel estavam, mas estavam dentro de mim.

Sento eu na poltrona cheia de almofadas da minha psicóloga e digo:

– Cumpri meus objetivos com sucesso e sem grandes planejamentos, porém cá estou conversando com você e me sentindo incompleta.

– E o que falta para você se sentir completa?

– Minha carreira e minha vida profissional.

Quando eu falo em vida profissional, não me refiro, pelo amor dos deuses, em um emprego fixo e eterno, horário de almoço, salário de dar inveja e vários empregados. Falo em algo que a gente invista tempo, energia, esperança e background e que isso traga uma sensação de saciedade, de “cumpri minha meta do dia”, de “to fazendo algo bacana”. Se esse investimento for pago em forma de dinheiro, isso é um emprego, uma renda. Se for pago em forma de felicidade, é um hobby. Mas ainda sim é uma troca. E foi por não sentir essa troca (nem no curso nem em emprego) que olhei para minha psicóloga e falei “bicha, não tem sido fácil”.

É a crise, dizem.

Essa coisa de sucesso e vida profissional é muito louca. Um amigo tava falando comigo sobre uma amiga dele, que tem um emprego bacana, ganha bem, é casada e acabou de comprar um carro novo. Até aí, tudo lindo. E então, qual é o outro lado da moeda? Infelicidade. Ela não é feliz, ela mal tem amigos, ela está triste. Sucesso nem sempre compra felicidade.

Dinheiro é bom porque paga as contas. Eu queria ter dinheiro o suficiente. Mas o suficiente é sempre relativo. “Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais!”. Esse seria o lema da crise, dizem.

É muito difícil trilhar um caminho. Trilhar o caminho dos outros é o mais correto a ser feito, porque já fizeram antes e deu certo. Ganha prestígio e segurança. E porque a gente precisa de segurança? Para não se desequilibrar nas pedras que a vida e a gente coloca nesse caminho.

Porque que a gente faz o que a gente anda fazendo? Por causa de currículo, diploma, um nome. Por que causa? Essa era minha mais nova crise.

Pra completar, nos últimos meses eu comecei a entrar em contato com estudantes de cursos de comunicação e letras de outras universidades, em especial do Sudeste. Conclusão, crianças: graduação é tipo o limbo não só aqui na Paraíba ou Pernambuco, mas pelo visto no Brasil inteiro. Que delícia começar a vida adulta assim, né não? É ela, a realidade, batendo na porta mais uma vez.

E é também a crise, dizem.

Michel é meu primo-irmão que mora hoje em São Paulo, já amanhã eu não sei. Ele acabou de defender a tese de doutorado e foi um sucesso. Durante a época de elaborá-la, falei que ele devia sair do Facebook porque estava muito disperso. Ele respondeu de uma forma muito linda e simples que “minha dispersão tem a ver com a frustração de não ter conseguido exatamente o que queria”. O que aconteceu com Michel acontece comigo e com todo mundo. A frustração tem o poder de paralisar a gente. Ela é poderosíssima. E contra uma greve pessoal, só mesmo reconhecendo a crise interna para que um novo recomeço seja anunciado.

Inspirada na menina que apareceu na página Humans of New York, assumo: tenho 23 anos e estou no meu segundo recomeço do ano, entre aqueles menores e igualmente avassaladores que a gente geralmente tem (eu sei que você tem, não se engane).

A primeira crise/recomeço está melhor explicada aqui.

Recentemente tive uma conversa com minha mãe que foi divisora de águas, de status, de perspectiva. Digo e repito: não fosse pela sobriedade mental da minha mãe, meu mundo seria outro. Tomada por uma frustração geral em relação ao meu curso (lembra da greve? lembra do desemprego? lembra então que sou dramática e um tanto imediatista, ok?) cheguei a desabafar várias questões para ela: Será que minha graduação só valeu por conta do intercâmbio? Será que meus colegas realmente sentem, do fundo do coração, que essa graduação valeu a pena? Que diploma é esse que tanta gente almeja, comemora e posta foto no Facebook? Com que orgulho vou concluir meu curso? Com que finalidade estou fazendo isso aqui?

Dentre tantas e inúmeras críticas ao modelo de educação e universidade no Brasil, e ao curso de comunicação em si, que ela também fez em Recife (deixarei para um texto futuro), o que tirei para o momento foi isso aqui:

“Você está se deixando afogar pelo seu curso (entram aqui também professores e métodos). O diploma em jornalismo ou em qualquer outra coisa que você invente de fazer vai te ajudar a conquistar coisas para além dele, e é a isso que você deve se agarrar. Quem faz sua graduação não são seus professores, não são seus colegas, não é a universidade. Quem faz seu curso é você, e só você pode trilhar esse caminho.”

A senhora minha mãe, como sempre, sambando na cara da tristeza, das dúvidas e das (minhas) crises. Glória a Deus e à Deusa!

Dia desses o mesmo Michel, que soube identificar sua frustração em relação ao andar da tese de doutorado, me manda a seguinte mensagem que mostrava sua mais recente criação (pois é, ele também escreve):

Refute o passado

Descrie a cura

Passe o futuro

Afinal,

Só o durante dura.

E é verdade, dizem.

 

| Trilha sonora do texto: “Music”, de Hindi Zahra. Eu escutei para desabafá-lo e escrevê-lo |

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Categories: Reticências

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