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Intercâmbio É Sentimento

Escrito em junho de 2013


Curioso que minha primeiríssima postagem aqui esteja vindo logo depois do término do curso de inglês; que esteja vindo na conclusão da primeira parte desse Ciência sem Fronteiras.

Passei de fase, se assim posso dizer. Cheguei dia 07 de março e agora já escrevo em 29 de junho.

Dizem que em média leva-se 6 meses para passar pelo processo de adaptação num novo país, e estou no aguardo do mês de setembro desde então.

Era e continua sendo engraçado ver os amigos e amigos de amigos já voltando de seus intercâmbios, ou que foram na mesma época que eu ou que acabaram de receber a carta de aceite de suas universidades.

Cada um lida com a novidade da forma que considera melhor. Com isso, aproveito para pedir desculpas aos que me cobram atualizações online. Não que eu vá compartilhar cada passo que dou, mas já estou aqui há quase quatro meses e ainda não fiz um álbum descente no Facebook, e isso é vergonhoso.

Talvez fique parecendo que não quero contato com o mundo, ou que não tenho feito nada de interessante ou que tenho aprontado tanto que prefiro não comentar.

A última opção se faz presente.

Mas explico minha aparente omissão: tive que dar tempo ao tempo, e se essa expressão é um clichê, é por que ela é mais comum do que eu imaginava.

Brasil, eu estou na Austrália! Sabe o que era Austrália pra mim? Um lugar que nunca iria visitar, pela distância e custo, que tem canguru, coala e fazendeiro, além de caucasianos bronzeados que curtem esportes radicais. E só.

Precisei absorver essa realidade, digerir muita informação. Foi e tem sido uma série de sensações dignas de filme blockbuster americano, drama cômico espanhol e odisséia de nordestino quando ia tentar a vida em São Paulo em décadas passadas.

Sei que muita gente quer mais é fugir e mandar beijos pra sociedade brasileira diretamente da poltrona de um vôo internacional, mas deixar o país da gente sempre será uma barra.

Lidei com isso à base de duas sessões semanais na psicóloga e Rivotril emprestado. Foi como se eu estivesse saindo no auge: era verão, a cerveja se mantinha gelada, cada amigo tentando tocar seus projetos pessoais (com ou sem sucesso, mas ao menos tentavam), minha irmã mais nova aprendendo a ler, salário de estagiária na conta universitária, as casas de vovó Cecinha (de Recife e João Pessoa) eram praticamente habitadas só por mim, tinha finalmente dado o braço a torcer e estava namorando e meu cachorro havia parado de se auto-mutilar.

Neste cenário pacato fui agraciada com um vale-extreme-makeover de vida e fiquei em choque. A semana que antecedeu a viagem transformou-se num grande caos em minhas mémorias. Sentia um aperto no coração que parecia que ele tinha virado uma roupa molhada que estava sendo espremida. Graças ao tempo posso hoje lembrar disso com um orgulhozinho de quem conseguiu superar ou ao menos acalentar a saudade, a insegurança, o medo de estar abandonando tanta gente amada que me ama de volta, e olha que isso faz menos de um semestre.

É que pra gente mais parece que já passou-se um ano em uma semana. É que em intercâmbio o amadurecimento fica mais visível, palpável.

É dia-a-dia, é desde ir pro Coles comprar comida congelada e um Tim-Tam pra adoçar a vida até lidar em casa com um turco, um chinês, uma vietnamita e quatro meninas da Indonésia.

É construir e quebrar preconceitos contra asiáticos de um modo geral, australianos, europeus e inclusive os próprios brasileiros. Sim, os brasileiros!

Intercâmbio não é só conhecer outro país, é conhecer conterrâneos que dificilmente iríamos cruzar na vida. E ter que aturar sotaque, cabeça, tradição, passado e sonhos de cada um. Aturar para depois admirar.

Admirar e adotar um artigo, um “trem”, um “bah”, um “nooossa”, uma malandragem dos cariocas, e eles arriscarem um “oxente” sem muito sucesso.

É discutir pena de morte com chinês, ficar só no goon hoje para amanhã virar doses de tequila, gastar auxílio-acomodação em roupa de frio – especialmente se você é nordestino do litoral -, arriscar sotaque nativo australiano e os próprios nativos em si.

Intercâmbio não dá para ser traduzido em foto, em check-in, em vídeo fazendo bungee jumping.

Intercâmbio, para mim, é uma sensação, é saber sentir o velho de uma forma completamente extraordinária, e o novo com brilho nos olhos.

| Originalmente postado aqui |

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Categories: Made in Austrália, Reticências

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