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Aos 23

Foto da manhã seguinte à minha festa de 23 anos, por Diógenes Mendonça

Escrito em abril de 2015

Marina é, com todas as letras, pernambucana de Recife.

Aos 18 anos completados dia 23 de janeiro de 2010, ela esperava ansiosamente pelo fim do mesmo mês para saber o resultado do vestibular da Universidade Federal da Paraíba. Começar uma faculdade, naquela época, significava mudar de cidade e de estado, para não dizer de vida.

Após alguns meses de idas na psicóloga e um último ano do Ensino Médio boêmio, optou por cursar Jornalismo, e não Relações Internacionais. O resultado saiu, Marina chamou seus amigos mais próximos para comemorar e beber num bar mexicano, e a ressaca foi regada a tequilas e caipirinhas em dobro: paga uma, bebe duas, vomita quatro. Marina estava pronta para fazer Jornalismo numa instituição federal brasileira.

Marina, aos 18, deu início à sua primeira – e ainda incompleta – graduação, no segundo semestre de 2010.

Naquele ano seu melhor amigo era Guilherme; Manoela, Gabriela e Pedro eram alguns dos seus melhores amigos de infância; sua casa em Recife era o melhor lugar do mundo; o cartão de crédito da sua mãe era sua única fonte de renda; Antarctica Original era sua cerveja preferida e virgindade era algo a ser perdido com um namorado.

Aos 18, duas grandes frustrações da adolescência de classe-média/média-alta capitalista brasileira vinda de colégio particular e sem muitas ideias na cabeça ocorreram juntas, ao mesmo tempo: Marina passou no vestibular (ok), porém não ganhou carro  (como assim??) nem fez intercâmbio antes de entrar no curso (absurdo).

– Eu passei grande parte da minha vida pensando que se eu tivesse sido criada pela minha mãe e pelo meu pai de forma razoavelmente igualada, eu teria tudo que eu já tinha, só que em dobro. Daí eu pensava “po, aquela viagem que nunca fiz, aquele vestido que sempre quis, quem sabe um carro…”, eu teria. Hoje em dia agradeço aos deuses por não ter tido as coisas “em dobro”, como minha ignorância insistia em acreditar, e agradeço à minha mãe por ter se multiplicado em mil para eu ter e fazer absolutamente tudo e mais um pouco. Mais um carro em Recife – e eu dirigindo – seria uma tragédia, e meu intercâmbio veio quando tinha que vir, se tornando a melhor coisa que fiz até então (e foi para a Austrália: tem como ser melhor que isso? meu ego diz que não).

Dos 18 para cá, as certezas e dúvidas de Marina foram recicladas e suas frustrações, de tão pequenas, viraram piada.

Aos 23, Marina já morou só, já viajou mais do que um dia sonhou – e sonha cada vez mais com isso -, já conquistou mais (e melhores) amigos do que acreditava conquistar, já amou, já traiu, foi traída, atraída, atraiu bastante, falou demais, aprendeu a ficar calada (talvez), leu de menos, escreveu o que queria, divulgou menos do que gostaria, bebeu como uma adolescente, fumou como se não tivesse bronquite alérgica recorrente, buscou aprender sobre seus limites e errou. Observou. Muito. Marina observa mais do que era para observar. Isso a faz pensar demais, e pensar demais dói, sabe.

Marina deveria ter oficialmente aprendido a cozinhar, lavar, passar; a mãe de Marina lhe ensinou a ser mulher, com todas as letras, mas esqueceu de que Marina uma hora teria que ser gente.

Marina ainda não aprendeu a dirigir, nem a andar de bicicleta sem o auxílio de duas rodinhas extras.

– Bicicleta eu até topo aprender, mas carro, definitivamente, não é pra mim.

Marina atualmente tem se preocupado com sua imagem, ou com a imagem que as pessoas acham que representa Marina. Ela acha que acham “errado” sobre ela, mas não se arrepende do que construiu até então. “Faz parte”, pensa a moça.

Marina não é santa; Marina não é puta; Marina não é engraçada; Marina não é triste; Marina não é gorda; Marina não é magra; Marina não é diva; Marina, com certeza, não é uma pessoa indiferente. Marina não é 8 nem é 80. E muito menos uma média de tudo isso junto.

Marina nunca foi dessas que tenta ser qualquer coisa só para ser qualquer coisa, mas sempre buscou ser alguma coisa que lhe fosse importante.

Recentemente Marina descobriu que o que quer mesmo da vida é escrever e ponto final. Ela não acha que um blog vai levá-la a ganhar um Pulitzer, mas sem o blog Marina enlouquece, e perder o controle não está nos seus planos.

Recentemente, também, Marina entrou em crise.

– Bem, as pessoas chamam isso de crise, mas eu prefiro chamar de “parei para refletir e deu merda”.

Pois bem, Marina parou para refletir sobre sua vida numa viagem que fez pelo Sudeste do Brasil em março, e deu merda. Aliás, Marina sempre reflete demais quando está viajando. Viajar é seu antidepressivo com efeito colateral de lhe deixar ainda mais depressiva, pois sabe que toda viagem é passageira.

Desta vez, Marina voltou da viagem querendo trancar o curso – aquele iniciado em 2010, sem carro e intercâmbio na bagagem – ou transferi-lo para outro estado. Marina estava certa de que ia seguir com seu plano. Desacreditada de sua graduação, porém cada vez mais envolvida e amante do jornalismo, Marina achava que aquela Universidade em especial e aquela cidade específica estavam desestimulando seu intelecto. Marina não se considera superior à Universidade, e muito menos à cidade que aprendeu a amar.

Marina apenas acha que pode ir muito além do que a Marina atual tem ido.

Na verdade, Marina está sem tesão de viver desde que voltou dos 16 meses passados na Austrália e no mundo, e acha(va) que mudar de cidade/Universidade irá servir de viagra para sua vida. Talvez Marina esteja certa, ou inocentemente errada.

“Toda Universidade pública é igual”; “só me encontrei na pós-graduação”; “falta só um ano pra se formar” foram conselhos constantes ouvidos por Marina.

– Eu preciso sair de casa e me virar.

– Eu preciso de um emprego de verdade.

– Eu preciso aprender a pagar minhas próprias contas.

– Eu não quero mais precisar ser sustentada pela minha mãe.

– Eu não quero fazer mestrado; trabalhar em algo que eu não goste; viajar para Miami; me hospedar em resorts; morar em São Paulo; no Rio; ser rica; ser assaltada; me casar cedo, nem tarde;  votar no PT até morrer; viver de festas; ter vários imóveis; tentar ser o que meus amigos parecem estar sendo.

– Eu não quero ser comum, e ao mesmo tempo quero ser real.

Marina está vivenciando a típica crise dos 20 e poucos anos que tanto ouvia falar.

Marina, você está oficialmente fodida.

Não existe manual para tentar “ser alguém na vida”. Mesmo sem manual, parece que uma grande quantidade de gente se torna a mesma coisa ao mesmo tempo, e Marina considera esse um fenômeno muito triste de ser assistido. Ela odeia homogeneidade/lugar-comum.

– Quando eu, Marina, recebi a notícia de que havia passado para o curso de Jornalismo na UFPB, meu plano era me formar aos 22 e voltar para Recife. Nessa época eu mal sabia que iria comemorar meus 22 anos na Nova Zelândia, ao lado da minha família. E que dali iria voltar para a Austrália, para concluir um intercâmbio. E que, no meio daquele intercâmbio, eu ia começar a publicar o que escrevia, e as pessoas iam gostar e se identificar, e eu ia amar aquilo tudo. E que antes do intercâmbio eu ia ter aprendido a gostar de viver em João Pessoa, mesmo sabendo que não iria ficar ali para sempre. Mal sabia eu que já estava “sendo alguém na vida” aos 18 anos, antes mesmo de “começar a viver”.

Marina, apesar da crise, conseguiu se manter com os pés mais próximos do chão.

No momento em que vos escrevo, Marina ainda cursa sua primeira e incompleta graduação; sua casa em Recife ainda é o melhor lugar do mundo; seu melhor amigo ainda atende pelo nome de Guilherme, apesar de outros terem ocupado seu coração; os amigos de infância sempre serão aqueles, independente de onde a vida adulta os leve; o cartão de crédito da mãe ainda é usado, agora quando o salário acaba (e quando tem salário); Antarctica Original continua sendo uma cerveja boa e a virgindade ficou pelos 18 anos mesmo.

Status: sem carro, sem emprego, sem religião, sem graduação completa, sem grandes projetos em andamento, sem renda própria, sem namorado(a).

Marina não tem nada, a não ser Marina. E, olhando para trás, isso já quer dizer que ela tem tudo que precisa e muito mais do que imaginava ter. Marina é, aos 23, a melhor Marina que aos 18 poderia sonhar.

 

| Trilha sonora do texto: “Ain’t Got No/I Got Life”, Nina Simone |

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Categories: Umbigo

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